segunda-feira, 30 de julho de 2007

Crônica de uma final (Brasil x Argentina)

Minha dúvida sobre este texto era se deveria colocar "gol e uma batucada breve" ou "breves". Sabendo que queria dizer o segundo significado, mas sem uma solução, deixei a opção menos pedante. Segue o link na Placar (http://placar.abril.com.br/selecao/noticias/072007/072007_473326.shtml) e o texto abaixo.



Crônica de uma final: um gol e uma batucada breve

Diego Junqueira

Antes do apito inicial já sobrava cotovelada. Um gentio abarrotado nas escadas de acesso às arquibancadas. Todos nas pontas dos pés, esticando o pescoço, esperando uma jogada de Messi ou Robinho, que com sorte ocorreria, entre uma cabeça e outra, no pedaço verde que os olhos viam. Uns não tinham entradas, e ficavam ali, calados, se escondendo dos oficiais. Outros carregavam furiosos seus ingressos. Cadê meu lugar? Eu quero o meu posto!, forçando a massa a se mover para os lados e arrancando gritos dos arquibancados: Y, fuera!! Y, fuera!! Ninguém queria perder aquela final.

A Argentina vinha de cinco vitórias consecutivas na Copa América, por 2, 3, 4 gols de diferença. O Brasil carregava uma derrota nas costas, a desconfiança geral, além da sofrida classificação para a final, nos pênaltis. A expectativa era que o rolo compressor argentino não deixasse em pé um paulista, carioca ou mineiro sequer. Tanto que na véspera da final em Maracaibo, o técnico da Argentina, Alfio Basile, já tinha avisado: "Não basta vencer. Tem que vencer bem. Tem que mostrar superioridade". Era certeza, eles tinham certeza.

No hotel da seleção brasileira, na tarde daquele mesmo sábado, enquanto ocorria a coletiva de imprensa do argentino, os jogadores esperavam o horário para o último treino antes da final. Cada jogador estava em seu quarto, com a televisão ali ao lado e a entrevista sendo transmitida ao vivo. "Tudo o que sai na imprensa, os jogadores estão vendo e ouvindo tudo", confessaria depois o auxiliar-técnico Jorginho.

"Eu sempre torci pelo Brasil. Mas eu quero que a Argentina ganhe essa final. Acho uma falta de respeito os melhores jogadores não terem vindo. Estamos nessa expectativa desde o começo do ano. Queríamos ver o Ronaldinho, o Kaká...", lamentavam-se torcedores venezuelanos antes da partida. Só que ali, na escada abarrotada, as pessoas continuavam penduradas uma nas outras, sem ver estrela alguma. Cabeças ainda procurando uma posição cômoda e os hinos das seleções lá embaixo. Ia começar. O favoritismo argentino, o pescoço esticado, a derrota para o México, os passes incríveis de Riquelme durante o torneio, a euforia ao redor de Messi, tudo ainda fervia na cabeça em Maracaibo... até um chute longo de Elano, aos 4 minutos.

Foi muito rápido. Só deu pra ver quando o Júlio Baptista pegou a bola, ou nem isso. Deu pra ver que o disparo foi forte, que a bola entrou, e que os jogadores saíram comemorando. O estádio veio abaixo, até parecia o Brasil. As pessoas começaram a correr e a pular nos corredores, aqueles mesmos que não tinham ingresso. Os funcionários de limpeza, vendedores de água, todos deixaram o trabalho e correram para o campo. Gol de quem? Gol de quem? Do Brasil. E saíam correndo, vibrando e gritando aos ventos "Gol do Brasil, do Brasil!!!"

Mas o favoritismo era deles. Aquilo até poderia ser normal. Riquelme, Verón, Messi, Cambiasso, Zanetti, Tévez. Eram, de fato, os melhores deles. E a gente... com três volantes. Não um, ou dois. 3. O Brasil, do jogo bonito. E veio o cruzamento de Heinze, quatro minutos mais tarde, o passe de cabeça de Verón e o chute de Riquelme, explodindo no poste direito de Doni. Susto no estádio. Silêncio de um lado. Lamentos de outro. Aí está, viu?! Não havia quem não desconfiasse...

Mas atrás do gol de Doni havia algo estranho. Soava um samba desafinado. E não pela trave de Riquelme. Era uma batucada sem compasso, cansada, tocada por um grupo de venezuelanos, que também levavam a cabeça esticada. Assim não tinham como tocar o tamborim. Ficavam a maior parte do tempo quietos, em pé, assistindo ao jogo onde já não cabia gente. Mas eram eles que traziam a cara do Brasil, que lembravam o Brasil pro gentio daquela parte do estádio, e pro Doni e os zagueiros ali ao lado. A cada susto argentino, um lançamento do Verón, uma subida de Tévez... uma batucada breve. E se levantavam as mulatas do estádio, arriscavam um samba, meio salsa e merengue, com um olho no pé e outro na grama. As pessoas gritavam, se empolgavam, e faziam do estádio Brasil, desenhando na memória o Maranhão, a Bahia, o Rio...

”De onde vocês vieram? Quem eram vocês antes disso? Antes de estarem aqui, o que faziam? Vamos, gente, pensem nisso. De onde você veio Alex? Josué, Doni, Gilberto... O que vocês enfrentaram pra chegar aqui? E você, Mineiro, de onde você veio?” Assim conversou Dunga com os jogadores, e os atletas entre eles, momentos antes da final. Essa história de favoritismo argentino entrou na cabeça dos jogadores. Esse conto de três volantes, de nova era Dunga, incomodou a cabeça do treinador, que entrava na canela dos jornalistas durante as coletivas. E também se dizia que aqueles eram os jogadores “tipo B”... De acordo com o auxiliar-técnico Jorginho, "muito do que foi dito durante a competição mexeu com o grupo. E procuramos aproveitar algumas dessas situações a nosso favor".

Recusa das estrelas, Brasil B, derrota para o México, dependência de Robinho, três volantes contra Equador, seis alívios contra o Chile e o apagão na semifinal. De mãos dadas aos jogadores, cantando o hino, tudo foi levado a campo pelos brasileiros. "Sempre pensávamos em dar o troco, em mostrar dentro de campo o nosso potencial. No dia da partida conversamos muito sobre a nossa história, as nossas origens, e percebemos que ninguém era nada aqui. Tudo o que conseguimos veio sempre com muita luta e esforço, e o jogo contra a Argentina era mais um desafio", contou o zagueiro Alex.

Mas do outro lado estavam eles, os favoritos, argentinos e invictos, com as cinco vitórias e com o jogo cadenciado e efetivo do meio-de-campo. Só que eles não sabiam da batucada atrás do gol de Doni. 34 minutos, uma nova descida de Tévez. Disputa com dois brasileiros, a bola sai de lado, pro meio da área, e sobra limpa nos pés do craque deles. Riquelme, com o pé direito, no canto esquerdo do gol, e Doni se estica pra espalmar. Susto no estádio. Silêncio de um lado. Lamentos de outro. E uma nova batucada breve... Mulatas em pé, samba e merengue, gritos de empolgação, aplausos, e o Brasil de novo em campo.

Até a estranheza de ter dois laterais-direito em campo ajudou o Brasil. "Quando o Elano se contundiu, o mais lógico era colocarmos o Fernando. Mas percebemos que a Argentina tinha uma deficiência pelo lado esquerdo. Então decidimos colocar o Daniel Alves, que nos daria uma boa marcação e muita velocidade naquele setor. Não importa a posição que o jogador está acostumado a atuar, importante é aproveitar ao máximo o potencial de cada um", disse Jorginho ao final do confronto.

Aula de Dunga e sua comissão sobre como ganhar uma partida – um campeonato. Daniel Alves desceu em alta velocidade pela direita e cruzou para dentro da área. Ayala, o capitão deles, apenas derrubou os ânimos de sua seleção. A bola no gol, Abondanzieri com as mãos na cabeça e o zagueiro argentino estirado no chão. Acabava o jogo e a Copa América. Começava a angústia deles e a partida da dupla Josué e Mineiro.


"Aí vem a Argentina, vai começar agora a reação, boa descida de Zanetti, passe para o meio... Mineeeiro tira a pelota...!". "Josué!!!". "Alex!!!". "Maicon!!!". "Juannn". Repetiam insistentemente os radialistas argentinos. "Inacreditável! Inacreditável! Quem imaginou que isso poderia acontecer?" Para os jornalistas argentinos, que mais pareciam torcedores - camisas da seleção, do River e do Boca - era difícil acreditar. Ou narrar a descida de Vágner Love, aos 23 min do segundo tempo, e o gol de Daniel Alves, naquele mesmo lado onde tocava o samba desafinado do primeiro tempo.

Mas já não havia susto no estádio. Fazia agora alegria de um lado e silêncio de outro. O Brasil era campeão da Copa América. E mais uma vez sobre a Argentina.

“Jogar bonito é vencer partidas”, lembrou Dunga durante toda a Copa. Mas ele e os jogadores sabem que, para serem campeões, não basta vencer. Tem que vencer bem. Mostrar superioridade.

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