Abaixo postei todas as reportagens que eu publiquei pelo jornal Correio Braziliense entre os dias 30/11 e 4/12. Foram oito textos ao total, entre reportagens e textos de análise.
O que foi publicado pelo jornal pode ser conferido nas imagens. Já os textos transcritos foram os arquivos que eu enviei para a redação do jornal.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Chávez minimiza revés eleitoral e afirma que a revolução bolivariana continua
Por ora, ainda não
Chávez buscará outros caminhos para projeto socialista
Chávez minimiza revés eleitoral e afirma que a revolução bolivariana continua
Diego Junqueira, de Caracas
No país de 26 milhões de pessoas, menos de 200 mil votos travaram o projeto de governo do presidente Hugo Chávez. Ao menos por enquanto, pois, apesar da histórica derrota eleitoral, a primeira em seus nove anos de governo, o presidente venezuelano já avisou que vai continuar impulsionando o “socialismo do século XXI”.
“Não vejo isso como uma derrota. 49% das pessoas votaram a favor do projeto socialista. Isso é um grande passo político. Para mim, é o mesmo cenário de fevereiro de 92 (quando Chávez liderou um fracassado Golpe de Estado). E vou repetir o que disse naquela época: ´Ainda não. Por ora´”, disse o mandatário venezuelano na madrugada de ontem, quando discursou em cadeia nacional de rádio e TV para reconhecer a derrota nas urnas.
“Não mudo uma vírgula do que está na reforma. A proposta ainda é feita à sociedade. Vamos continuar a revolução dentro do que permite esta constituição”, afirmou Chávez, tendo em mãos a Constituição vigente, sua conquista política em 1999, e cujo texto permanece intacto após o resultado das eleições.
Para o ex-ministro da Defesa, general Raúl Isaías Baduel – que iniciou o ano defendendo o “socialismo do século XXI”, mas o terminou rejeitando a reforma constitucional – o presidente Chávez ainda tem a intenção de institucionalizar o texto rejeitado no domingo.
“Alerta, venezuelanos. O presidente quis impor um projeto que não é do povo, mas dele mesmo. E pode ser que nos imponha por outro caminho, por meio de leis habilitantes”, afirmou Baduel. Em fevereiro deste ano, a Assembléia Nacional venezuelana aprovou a Lei Habilitante, que ampliou os poderes de Chávez para legislar por 18 meses. Foi essa lei que permitiu ao presidente propor a reforma constitucional.
Clima natalino
O alerta de Baduel foi o único que destoou do clima de reconciliação pregonizado pelos líderes da oposição. “Não se trata de Bush ou de Fidel Castro. Não se trata de Morales ou de Uribe. Trata-se dos venezuelanos. Temos de acabar com essa divisão, e o presidente pode liderar esse processo”, disse Leopoldo López, prefeito de Chacao, um dos cinco municípios de Caracas.
O governador do estado Zulia, Manuel Rosales – adversário derrotado por Chávez nas eleições de 2006 – afirmou que o resultado do referendo cria condições para a paz e a harmonia. “Propomos desde já que se aprovem, ainda este ano, duas leis que estavam previstas na reforma: a lei de fundo social para os trabalhadores independentes e a lei de redução da jornada de trabalho”, disse euforicamente o governador zuliano.
Em seu discurso desde Miraflores, Chávez pediu à oposição que reconhecesse o valor das instituições venezuelanas. “Aqui não há nenhum ditador. Vivemos em uma democracia. E o caminho é esse, senhores da oposição. Não procurem mais o caminho da desestabilização”, afirmou Chávez. “Aos que votaram ´Sí´, aos que votaram ´No´, aos que não votaram, todos somos o povo. Vamos respeitar nossas diferenças”, completou o presidente.
Quem ri por último...
Como os resultados de boca-de-urna divulgados fora do país indicavam a vitória do “Sí”, alguns partidários do presidente Chávez saíram às ruas para comemorar a suposta vitória no referendo. Em frente ao Palácio Miraflores, sede do governo, um multidão começou a se reunir desde o início da noite de domingo. E pelas ruas da capital circulavam diversos motoqueiros com suas bandanas e camisas vermelhas e as consígnas do chavismo. “Uh, ah, Chávez no se va”.
Após a divulgação do resultado oficial, à 1h15 (hora local), uma festa com outras cores irrompeu-se em Caracas. Concentradas nas regiões mais ricas da cidade, como Las Mercedes e Altamira, muitos partidários do “No” foram às ruas para, enfim, comemorar uma derrota do presidente, depois de nove anos. Enquanto alguns diziam que a Venezuela já não queria nada com Chávez, outros eram mais diplomáticos e avisavam que o alvo caído tinha sido o referendo.
Para o principal dirigente estudantil, Yon Goicochea, que se encontrava na Plaza Francia, em Altamira, “a vitória do ´No´ é uma vitória de todos os venezuelanos, para construirmos uma nova pátria.”
“Felicito aos que ganharam. Podem festejar, mas respeitem aqueles que votaram pelo ´Sí´. E saibam administrar essa vitória”, disse o presidente Chávez minutos antes.
Na manhã de ontem, a capital do país estava calma, com poucas pessoas nas ruas. Na região de Baruta, em Caracas, enquanto uma membro do partido oposicionista Um Novo Tempo pintava uma parede com a frase “Sim à Venezuela”, ouvia-se, de longe, um tímido protesto: “Viva Chávez...”
Chávez buscará outros caminhos para projeto socialista
Chávez minimiza revés eleitoral e afirma que a revolução bolivariana continua
Diego Junqueira, de Caracas
No país de 26 milhões de pessoas, menos de 200 mil votos travaram o projeto de governo do presidente Hugo Chávez. Ao menos por enquanto, pois, apesar da histórica derrota eleitoral, a primeira em seus nove anos de governo, o presidente venezuelano já avisou que vai continuar impulsionando o “socialismo do século XXI”.
“Não vejo isso como uma derrota. 49% das pessoas votaram a favor do projeto socialista. Isso é um grande passo político. Para mim, é o mesmo cenário de fevereiro de 92 (quando Chávez liderou um fracassado Golpe de Estado). E vou repetir o que disse naquela época: ´Ainda não. Por ora´”, disse o mandatário venezuelano na madrugada de ontem, quando discursou em cadeia nacional de rádio e TV para reconhecer a derrota nas urnas.
“Não mudo uma vírgula do que está na reforma. A proposta ainda é feita à sociedade. Vamos continuar a revolução dentro do que permite esta constituição”, afirmou Chávez, tendo em mãos a Constituição vigente, sua conquista política em 1999, e cujo texto permanece intacto após o resultado das eleições.
Para o ex-ministro da Defesa, general Raúl Isaías Baduel – que iniciou o ano defendendo o “socialismo do século XXI”, mas o terminou rejeitando a reforma constitucional – o presidente Chávez ainda tem a intenção de institucionalizar o texto rejeitado no domingo.
“Alerta, venezuelanos. O presidente quis impor um projeto que não é do povo, mas dele mesmo. E pode ser que nos imponha por outro caminho, por meio de leis habilitantes”, afirmou Baduel. Em fevereiro deste ano, a Assembléia Nacional venezuelana aprovou a Lei Habilitante, que ampliou os poderes de Chávez para legislar por 18 meses. Foi essa lei que permitiu ao presidente propor a reforma constitucional.
Clima natalino
O alerta de Baduel foi o único que destoou do clima de reconciliação pregonizado pelos líderes da oposição. “Não se trata de Bush ou de Fidel Castro. Não se trata de Morales ou de Uribe. Trata-se dos venezuelanos. Temos de acabar com essa divisão, e o presidente pode liderar esse processo”, disse Leopoldo López, prefeito de Chacao, um dos cinco municípios de Caracas.
O governador do estado Zulia, Manuel Rosales – adversário derrotado por Chávez nas eleições de 2006 – afirmou que o resultado do referendo cria condições para a paz e a harmonia. “Propomos desde já que se aprovem, ainda este ano, duas leis que estavam previstas na reforma: a lei de fundo social para os trabalhadores independentes e a lei de redução da jornada de trabalho”, disse euforicamente o governador zuliano.
Em seu discurso desde Miraflores, Chávez pediu à oposição que reconhecesse o valor das instituições venezuelanas. “Aqui não há nenhum ditador. Vivemos em uma democracia. E o caminho é esse, senhores da oposição. Não procurem mais o caminho da desestabilização”, afirmou Chávez. “Aos que votaram ´Sí´, aos que votaram ´No´, aos que não votaram, todos somos o povo. Vamos respeitar nossas diferenças”, completou o presidente.
Quem ri por último...
Como os resultados de boca-de-urna divulgados fora do país indicavam a vitória do “Sí”, alguns partidários do presidente Chávez saíram às ruas para comemorar a suposta vitória no referendo. Em frente ao Palácio Miraflores, sede do governo, um multidão começou a se reunir desde o início da noite de domingo. E pelas ruas da capital circulavam diversos motoqueiros com suas bandanas e camisas vermelhas e as consígnas do chavismo. “Uh, ah, Chávez no se va”.
Após a divulgação do resultado oficial, à 1h15 (hora local), uma festa com outras cores irrompeu-se em Caracas. Concentradas nas regiões mais ricas da cidade, como Las Mercedes e Altamira, muitos partidários do “No” foram às ruas para, enfim, comemorar uma derrota do presidente, depois de nove anos. Enquanto alguns diziam que a Venezuela já não queria nada com Chávez, outros eram mais diplomáticos e avisavam que o alvo caído tinha sido o referendo.
Para o principal dirigente estudantil, Yon Goicochea, que se encontrava na Plaza Francia, em Altamira, “a vitória do ´No´ é uma vitória de todos os venezuelanos, para construirmos uma nova pátria.”
“Felicito aos que ganharam. Podem festejar, mas respeitem aqueles que votaram pelo ´Sí´. E saibam administrar essa vitória”, disse o presidente Chávez minutos antes.
Na manhã de ontem, a capital do país estava calma, com poucas pessoas nas ruas. Na região de Baruta, em Caracas, enquanto uma membro do partido oposicionista Um Novo Tempo pintava uma parede com a frase “Sim à Venezuela”, ouvia-se, de longe, um tímido protesto: “Viva Chávez...”
Venezuelanos decidem hoje futuro do socialismo de Chávez
PRINCIPAL
Venezuelanos decidem hoje futuro do socialismo de Chávez
de Caracas
Diego Junqueira
“Dois de dezembro será o dia mais importante da revolução, quando faremos a revolução dentro da revolução”. Ante as palavras de seu mandatário, os venezuelanos irão se medir nas urnas, hoje, para decidirem o destino da reforma constitucional proposta pelo presidente Hugo Chávez. Mais do que votar “Sí” ou “No” aos 69 artigos, os venezuelanos determinarão neste domingo se avançam ou se travam a revolução bolivariana no país.
As eleições na Venezuela não são obrigatórias. Vota quem quiser, desde que tenha dezesseis anos e esteja inscrito pelo poder eleitoral. De acordo com as leis do país, as pesquisas de intenção de voto são permitidas até uma semana antes do escrutínio, além de também serem proibidas as pesquisas de boca de urna.
Semana passada, quando foram apresentadas as últimas sondagens, ambos lados da campanha festejaram, já que algumas pesquisas traziam a vitória do “Sí” e outras a do “No”. A semana transcorreu com a convicção no triunfo para os dois blocos, recheada de marchas e discursos que levaram milhares de venezuelanos às ruas. Neste cenário, o que pode definir o resultado de hoje é a porcentagem de abstenções.
Com uma população de 26 milhões de pessoas, e em sua maioria jovem, estão aptos para votar na Venezuela cerca de 15,8 milhões de cidadãos. Ano passado, quando ocorreram eleições presidenciais, a abstenção foi de 25% (4 milhões de eleitores). Chávez foi reeleito com mais de 7 milhões de votos, ou 63% dos que foram às urnas. Durantes os últimos dias da atual campanha, se por um lado o bloco do “Sí” mostrava-se seguro da vitória, o bloco do “No” pedia insistentemente para os venezuelanos exercerem o direito ao voto.
Geometria do poder
A oposição ao governo acusa o presidente de impulsionar o projeto para se manter à frente do governo por um largo período de tempo. Chávez disse na sexta-feira que 2020 seria um “bom ano para entregar o poder, mas somente se a revolução estiver consolidada”. Se aprovada hoje, a reforma legalizará uma série de poderes nas mãos do mandatário venezuelano. Além da reeleição indefinida, serão institucionalizadas, por exemplo, as províncias federais.
No começo dessa semana, Chávez esteve pela campanha do referendo nos estados andinos do país, onde afirmou que criará, a partir da nova constituição, a Província dos Andes, abarcando os estados Táchira, Mérida e Trujillo. No novo cenário administrativo do país, isso significaria que os cidadãos desses estados continuariam elegendo seus governadores, mas, criada a Província, o presidente determinaria um vice-presidente da República para a região. Em distintos discursos Chávez afirmou que todo o território nacional necessitaria de seis ou sete vice-presidentes.
Esse seria o mesmo cenário de um futuro Distrito Federal. Caracas, a capital do país, é composta hoje por cinco municípios, distribuídos em dois estados. Existe ainda a figura da Prefeitura Maior, que abarca os cinco municípios e cujo prefeito é eleito pelo voto. De acordo com a reforma, em substituição da Prefeitura Maior será criado o Distrito Federal, cujo governador determinará o presidente da República, “por se tratar de assunto do poder nacional”, argumenta Chávez.
Chavismo
Além desses artigos, a reforma constitucional também propõe diversas mudanças de caráter social. O mais divulgado pelo governo refere-se à redução na jornada de trabalho, que cairia de oito a seis horas diárias para os trabalhadores promoverem seu desenvolvimento pessoal. Ou então o artigo da segurança social para trabalhadores independentes, a proibição de latifúndios e monopólios e a segurança à moradia. De acordo com este artigo, uma família que não possa pagar o aluguel ou as prestações de sua residência, não poderá ser expulsa dela se provar que essa é a “moradia principal” da família.
Foram medidas como essas que construíram a popularidade de Chávez entre os venezuelanos, sobretudo entre a população mais carente do país. Para Alexandra León, de 31 anos, casada e com um filho, sua vida mudou depois que Chávez chegou ao poder. Moradora do município Baruta, em Caracas, León afirma que antes do atual governo não tinha as mesmas oportunidades de agora. “Na nossa comunidade temos um médico que está aí sempre, ele vive com a gente, é nosso vizinho. Além disso, com a Missão Mercal eu encontro os produtos que eu preciso e por um preço mais baixo do que o regulado pelo governo”. León também participa da Missão Sucre, que por meio da Universidade Bolivariana da Venezuela espalhou “aldeias universitárias” pelo país.
De acordo com o doutor em Ciências Políticas, Ángel Vicente de Castro, a experiência de Chávez, após oito anos, não solucionou os problemas do país. Com relação à reforma, Castro se pergunta “por que os venezuelanos devem assumir o risco de pôr nas mãos de um só homem as decisões de uma sociedade pluralista?” Para convencer seus partidários, o governo construiu sua campanha do referendo dando mais importância à figura do presidente que ao conteúdo do projeto. Há cerca de dez dias, Chávez disse que, se perdesse hoje, “procuraria um substituto”.
Para Guillermo Leal, analista de sistemas do metrô de Caracas, e porta-voz de Comunicação do Conselho Comunal de sua comunidade, situada em Los Teques, a uma hora da capital, o presidente Chávez interpreta os desejos de toda a população. “Nós o apoiamos porque temos grande confiança em seu trabalho. Ele não vai fazer nada para prejudicar o povo venezuelano, por isso estamos com o ´Si´”, garante Leal. Apesar do discurso, ele afirma que o apoio a Chávez não é irrestrito, e que sairiam para protestar contra o presidente se “ele caminhasse ao capitalismo”.
Antes da chegada de Chávez ao poder, Leal era militante do Partido Comunista da Venezuela. Ele diz que não há motivo para a oposição venezuelana abandonar o país, como os próprios opositores expressam. “Naquela época éramos minoria e tínhamos de acatar as leis deles. Hoje nós somos maioria. O povo escolheu o caminho ao socialismo. E eles terão de respeitar as nossas leis”, concluiu Leal.
O presidente declarou que o Estado venezuelano construiria o “socialismo do século XXI” somente após as eleições presidenciais que o elegeram em 3 de dezembro do ano passado. Foi em janeiro deste ano, durante o discurso de posse, que Chávez anunciou o lema que hoje é repetido por seus partidários e dentro dos quartéis do país: “Pátria, socialismo ou morte”.
Venezuelanos decidem hoje futuro do socialismo de Chávez
de Caracas
Diego Junqueira
“Dois de dezembro será o dia mais importante da revolução, quando faremos a revolução dentro da revolução”. Ante as palavras de seu mandatário, os venezuelanos irão se medir nas urnas, hoje, para decidirem o destino da reforma constitucional proposta pelo presidente Hugo Chávez. Mais do que votar “Sí” ou “No” aos 69 artigos, os venezuelanos determinarão neste domingo se avançam ou se travam a revolução bolivariana no país.
As eleições na Venezuela não são obrigatórias. Vota quem quiser, desde que tenha dezesseis anos e esteja inscrito pelo poder eleitoral. De acordo com as leis do país, as pesquisas de intenção de voto são permitidas até uma semana antes do escrutínio, além de também serem proibidas as pesquisas de boca de urna.
Semana passada, quando foram apresentadas as últimas sondagens, ambos lados da campanha festejaram, já que algumas pesquisas traziam a vitória do “Sí” e outras a do “No”. A semana transcorreu com a convicção no triunfo para os dois blocos, recheada de marchas e discursos que levaram milhares de venezuelanos às ruas. Neste cenário, o que pode definir o resultado de hoje é a porcentagem de abstenções.
Com uma população de 26 milhões de pessoas, e em sua maioria jovem, estão aptos para votar na Venezuela cerca de 15,8 milhões de cidadãos. Ano passado, quando ocorreram eleições presidenciais, a abstenção foi de 25% (4 milhões de eleitores). Chávez foi reeleito com mais de 7 milhões de votos, ou 63% dos que foram às urnas. Durantes os últimos dias da atual campanha, se por um lado o bloco do “Sí” mostrava-se seguro da vitória, o bloco do “No” pedia insistentemente para os venezuelanos exercerem o direito ao voto.
Geometria do poder
A oposição ao governo acusa o presidente de impulsionar o projeto para se manter à frente do governo por um largo período de tempo. Chávez disse na sexta-feira que 2020 seria um “bom ano para entregar o poder, mas somente se a revolução estiver consolidada”. Se aprovada hoje, a reforma legalizará uma série de poderes nas mãos do mandatário venezuelano. Além da reeleição indefinida, serão institucionalizadas, por exemplo, as províncias federais.
No começo dessa semana, Chávez esteve pela campanha do referendo nos estados andinos do país, onde afirmou que criará, a partir da nova constituição, a Província dos Andes, abarcando os estados Táchira, Mérida e Trujillo. No novo cenário administrativo do país, isso significaria que os cidadãos desses estados continuariam elegendo seus governadores, mas, criada a Província, o presidente determinaria um vice-presidente da República para a região. Em distintos discursos Chávez afirmou que todo o território nacional necessitaria de seis ou sete vice-presidentes.
Esse seria o mesmo cenário de um futuro Distrito Federal. Caracas, a capital do país, é composta hoje por cinco municípios, distribuídos em dois estados. Existe ainda a figura da Prefeitura Maior, que abarca os cinco municípios e cujo prefeito é eleito pelo voto. De acordo com a reforma, em substituição da Prefeitura Maior será criado o Distrito Federal, cujo governador determinará o presidente da República, “por se tratar de assunto do poder nacional”, argumenta Chávez.
Chavismo
Além desses artigos, a reforma constitucional também propõe diversas mudanças de caráter social. O mais divulgado pelo governo refere-se à redução na jornada de trabalho, que cairia de oito a seis horas diárias para os trabalhadores promoverem seu desenvolvimento pessoal. Ou então o artigo da segurança social para trabalhadores independentes, a proibição de latifúndios e monopólios e a segurança à moradia. De acordo com este artigo, uma família que não possa pagar o aluguel ou as prestações de sua residência, não poderá ser expulsa dela se provar que essa é a “moradia principal” da família.
Foram medidas como essas que construíram a popularidade de Chávez entre os venezuelanos, sobretudo entre a população mais carente do país. Para Alexandra León, de 31 anos, casada e com um filho, sua vida mudou depois que Chávez chegou ao poder. Moradora do município Baruta, em Caracas, León afirma que antes do atual governo não tinha as mesmas oportunidades de agora. “Na nossa comunidade temos um médico que está aí sempre, ele vive com a gente, é nosso vizinho. Além disso, com a Missão Mercal eu encontro os produtos que eu preciso e por um preço mais baixo do que o regulado pelo governo”. León também participa da Missão Sucre, que por meio da Universidade Bolivariana da Venezuela espalhou “aldeias universitárias” pelo país.
De acordo com o doutor em Ciências Políticas, Ángel Vicente de Castro, a experiência de Chávez, após oito anos, não solucionou os problemas do país. Com relação à reforma, Castro se pergunta “por que os venezuelanos devem assumir o risco de pôr nas mãos de um só homem as decisões de uma sociedade pluralista?” Para convencer seus partidários, o governo construiu sua campanha do referendo dando mais importância à figura do presidente que ao conteúdo do projeto. Há cerca de dez dias, Chávez disse que, se perdesse hoje, “procuraria um substituto”.
Para Guillermo Leal, analista de sistemas do metrô de Caracas, e porta-voz de Comunicação do Conselho Comunal de sua comunidade, situada em Los Teques, a uma hora da capital, o presidente Chávez interpreta os desejos de toda a população. “Nós o apoiamos porque temos grande confiança em seu trabalho. Ele não vai fazer nada para prejudicar o povo venezuelano, por isso estamos com o ´Si´”, garante Leal. Apesar do discurso, ele afirma que o apoio a Chávez não é irrestrito, e que sairiam para protestar contra o presidente se “ele caminhasse ao capitalismo”.
Antes da chegada de Chávez ao poder, Leal era militante do Partido Comunista da Venezuela. Ele diz que não há motivo para a oposição venezuelana abandonar o país, como os próprios opositores expressam. “Naquela época éramos minoria e tínhamos de acatar as leis deles. Hoje nós somos maioria. O povo escolheu o caminho ao socialismo. E eles terão de respeitar as nossas leis”, concluiu Leal.
O presidente declarou que o Estado venezuelano construiria o “socialismo do século XXI” somente após as eleições presidenciais que o elegeram em 3 de dezembro do ano passado. Foi em janeiro deste ano, durante o discurso de posse, que Chávez anunciou o lema que hoje é repetido por seus partidários e dentro dos quartéis do país: “Pátria, socialismo ou morte”.
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