Oposição ocupa território chavista em Caracas
De Caracas, por Diego Junqueira
Milhares de venezuelanos tomaram a Avenida Bolívar de Caracas, na tarde de ontem, para rechaçar a reforma constitucional impulsada pelo presidente Hugo Chávez. No domingo a Venezuela viverá, pelo quarto ano consecutivo, um processo eleitoral. Desta vez a população vai decidir se aprova ou derruba o projeto de reforma. É “Sí” ou “No”.
A oposição acusa o presidente Chávez de utilizar a reforma para perpetuar-se no poder, já que o projeto permitiria a reeleição indefinida na Venezuela. O presidente, no entanto, diz estar intensificando a democracia no país, com artigos como o da jornada laboral, que reduziria de oito a seis horas diárias de trabalho, ou o da nova seguridade social, que garantiria seguro social para trabalhadores informais, donas-de-casa, entre outros.
A marcha desta quinta-feira foi convocada pelos estudantes universitários de oposição, a mais ativa força opositora à Chávez desde maio deste ano. “Dissemos que íamos encher a avenida Bolívar e enchemos. E hoje dizemos que no domingo ganhará o ´No´, e vamos ganhar. Só pedimos a todos para irem votar”, afirmou um dos líderes estudantis, Yon Goicoechea, da Universidad Católica Andrés Bello.
Próximo ao centro de Caracas, a Avenida Bolívar é um reduto chavista, local preferido pelo presidente para realizar seus discursos. Durante o ato da tarde de ontem, simpatizantes de Chávez lançavam dos edifícios situados ao redor da avenida panfletos com a propaganda da campanha pelo “Sí”. Da rua, os marchantes opositores gritavam: “Sin autobuses! Sin autobuses!”. Os manifestantes acusam o governo de que, para ter um grande número de espectadores em suas concentrações, tem de financiar diversos ônibus para trazer adeptos do interior do país. Hoje a Avenida Bolívar será o local de encerramento da campanha pelo “Sí”.
Fraude e transparência
No palco montado no começo da avenida, estavam não somente os estudantes universitários, mas também alguns líderes políticos da oposição, como Henrique Capriles e Leopoldo López, prefeitos de Baruta e Chacao, respectivamente, municípios da Grande Caracas. Ambos asseguraram que a oposição ganhará as eleições de domingo, e mantiveram um discurso de enfrentamento ante o governo. “Queremos nos reunir com você no domingo, Chávez, pois o “Sí” vai ganhar”, afirmou Capriles.
Durante todo o mês, setores da oposição venezuelana, sobretudo o Comando Nacional da Resistência (CNR), levantaram suspeitas quanto à transparência do processo eleitoral. Tanto que o CNR, no começo de novembro, convocava a população a não ir votar nas eleições. Diferente do Brasil, o processo eleitoral venezuelano não é obrigatório. O presidente Chávez diz que a oposição não irá reconhecer os resultados do domingo caso ganhe o “Sí”.
“Nós vamos reconhecer no domingo o resultado que tiver de reconhecer, mas somente se ele representar a vontade do povo venezuelano. CNE (Conselho Nacional Eleitoral), respeite os resultados do fim de semana, pois, se não respeitarem, o povo vai sair às ruas para defender o seu voto”, afirmou Capriles. De acordo co o CNE, cada bloco terá pelo menos 100 mil testemunhas espalhados pelas mesas de apuração do país.
Nesta quinta-feira, o ministro das Telecomunicações, Jesse Chacón, apresentou um vídeo gravado no dia 21 de novembro, na Igreja dos Samanes, em Caracas, no qual mostra dirigentes políticos da oposição convocando a população a não aceitar os resultados do próximo domingo, caso ganhe o “Sí” de Chávez. Um dos dirigentes políticos presentes à reunião era Leopoldo López, prefeito de Chacao. O vídeo foi enviado pelo ministro para o CNE.
Os estudantes universitários de oposição, por seu lado, são mais moderados quando se referem ao resultado das eleições. “Os resultados serão reconhecidos desde que haja transparência”, afirma Alexandra Díaz, secretária-geral do Centro de Estudantes da Universidad Simón Bolívar. “Não sabemos o que vai ocorrer no domingo à noite, se vamos sair a marchar ou não. Tudo dependerá de como for o processo de apuração. O mais importante agora, no entanto, é fazer um chamado para a população ir votar”, completou Díaz.
Se no alto de um dos edifícios da Avenida Bolívar uma faixa gigantesca expunha o “Sí” de Chávez, ao longo da avenida era possível ver diversas críticas ao presidente venezuelano. Em uma dessas imagens, o presidente venezuelano estava vestido de “yankee” e carregava em uma das mãos a bandeira de Cuba.
Pesquisas
As últimas pesquisas com as intenções de voto, divulgadas pelo instituto Datanálisis no fim de semana, dava a vitória para o “No”, com 45%, indicando o “Sí” com 30%. Outro instituto, o Consultores 21, também dá a vitória ao “Sí”, por 53% a 41%. O presidente Chávez, no entanto, diz que tais empresas manipulam os números das pesquisas. Ano passado, no entanto, o Datanálisis dava como certa a vitória de Chávez nas eleições presidenciais, o que ocorreu com 63% dos votos.
No último domingo, em entrevista transmitida ao vivo para o país pelo canal estatal VTV, o presidente venezuelano apresentou uma pesquisa divulgada pelo jornal Panorama, e realizada pelo instituto Ibat, o qual dava a vitória para o “Sí” por 65% a 45%. “Não imagino que seja tanto, mas é certo que vamos ganhar novamente”, comentou Chávez na ocasião.
Em meio às incertezas referentes ao próximo domingo, os opositores do presidente Chávez estão certos de que, pela primeira vez, poderão derrotar o presidente nas urnas. Uma das manifestantes, que andava por toda a avenida, gritava para que todos ouvissem: “Acabou o leite, presidente! Acabou o leite!”. Além de recordar a crise de abastecimento que vive o país, a manifestante enviava outra mensagem ao presidente, pois, na Venezuela, leite também significa sorte.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
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