quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A Velha e a nova oposição a Chávez

Este texto foi publicado no diário Correio Braziliense, no dia 1º de dezembro.

A Velha e a nova oposição a Chávez
Diego Junqueira

Em maio, quando surgiram para o país como uma força política, eles gritavam: “E vai cair, e vai cair, esse governo vai cair”. Há menos de um mês, no entanto, mudaram o discurso: “Não é contra Chávez! É contra a reforma!”

Na Venezuela, os estudantes universitários opositores ao governo Hugo Chávez alteraram a tática para convencer a sociedade a votar pelo “No” neste fim de semana. Os venezuelanos acudirão as urnas, no domingo, para aprovar ou rechaçar a proposta de reforma constitucional do governo. A estratégia estudantil, de não atuar contra a imagem do presidente, é uma resposta à estratégia recente da campanha governamental, que procurou colar a figura do mandatário venezuelano ao referendo de domingo.

Em agosto, quando o presidente Chávez apresentou o projeto à Assembléia Nacional, a reforma era conhecida por apenas um de seus pontos: o artigo que pretende instaurar a reeleição indefinida na Venezuela. De agosto ao início deste mês, a campanha do governo, liderada pelo vice-presidente do país, Jorge Rodríguez, tratou de ressaltar outros artigos da reforma, principalmente os de cunho social, como a mudança na jornada de trabalho, que seria reduzida de oito a seis horas diárias, para, segundo a proposta, o desenvolvimento pessoal dos trabalhadores. Este mês, no entanto, a estratégia do governo foi uma só: “Sí” com Chávez.

Instituir a imagem do presidente no centro da campanha, com esquetes publicitários de rádio e televisão, além de outdoors, panfletos e cartazes, foi o caminho que o “Sí” encontrou para algumas baixas que tiveram pelo caminho. A principal delas foi a do general Raul Isaías Baduel, que há dois meses era o ministro de Defesa venezuelano. Em abril de 2002, durante a tentativa de golpe de Estado contra Chávez, foi Baduel quem articulou o retorno do presidente ao poder. No dia 5 de novembro último, no entanto, Baduel concedeu uma entrevista coletiva na qual se posicionou contra a reforma constitucional. Poucas horas depois, Chávez o qualificou de traidor. E afirmou: “Quem está com Chávez, está com a reforma”.

Além de Baduel, o chavismo sofreu reveses dentro da Assembléia Nacional – que não conta com nenhum partido da oposição, em razão do boicote que realizaram às eleições legislativas de 2005 – já que deputados do partido Podemos, como Ismael García, também se pronunciaram contra o documento constitucional. “Com essa reforma, ´No´”, avisa a publicidade política de Podemos, partido da base aliada a Chávez.

Oposição e Oposição
Os estudantes universitários de oposição, de acordo com uma pesquisa divulgada semana passada por um dos principais jornais do país, El Universal, são a força política com maior credibilidade entre os opositores ao governo Chávez, superando a Igreja Católica, claramente opositora ao mandatário venezuelano, e as principais organizações políticas do país, como os partidos AD e Copei, que governaram a Venezuela de 1958 a 1992, e também por em cima de Primeiro Justiça e Um Novo Tempo, de Manuel Rosales, governador do estado Zulia, candidato da oposição à presidência da República em Dezembro de 2006.

Na tentativa de desprestigiar as mobilizações estudantis, deputados chavistas constantemente têm acudido aos microfones da Assembléia Nacional para classificar os estudantes de “jovenzinhos”, filhos de pais ricos e representantes da velha oligarquia. Ou então que estão a serviço da velha oposição venezuelana, na qual se incluem também as emissoras de TV Globovisión e RCTV, que em 28 de maio perdeu a concessão de transmitir seu sinal em canal aberto, mas que agora transmite via cabo. Ambas participaram do golpe de Estado que, em 2002, derrubou Chávez do poder por pouco mais de 24 horas.

No começo deste mês, os líderes do Comando Nacional da Resistência (CNR) convocaram a chamada “marcha sem retorno”, supostamente para o dia 26 de novembro. Encabeçados por Óscar Pérez e Antonio Ledezma, o CNR pediu para que os marchantes levassem “balas e chocolates” para suportarem a marcha. Durante todo o mês o fato foi recordado por setores do governo, como o canal estatal VTV, para ridicularizar a oposição. O resultado foi que, na data marcada, segunda-feira passada, não houve a convocada marcha.

Um dos momentos da marcha de ontem demonstrou algumas diferenças dentro da oposição venezuelana. Adeptos do partido Copei, um dos mais antigos do país, estavam distribuindo cervejas entre si quando um estudante se aproximou deles. “Vocês precisam ter mais consciência e parar de beber pelo menos agora. Estamos lutando pelo futuro do país”. O jovem se afastou dali e os copeianos, sem discutir com ele, voltaram a tomar suas cervejas. Mais à frente, no entanto, um grupo de estudantes também se divertiam com cervejas em mãos.

As principais universidades que participam das recentes marchas conta a reforma são a Universidad Metropolitana, Universidad Santa María (ambas freqüentadas pelas classes média e alta de Caracas), Universidade Católica Andrés Bello (Ucab), Universidad Simón Bolívar (USB) e Universidad Central de Venezuela (UCV). As duas últimas são as únicas universidades públicas dessa lista.

Alexandra Díaz, do Centro de Estudantes da USB, reconhece que grande parte dos universitários de oposição pertencem à classe média caraquenha. Mas ressaltou que isso não atingia a liderança do movimento. “O Freddy (Guevara, dirigente da Ucab) vive em Catia”, contou ela, referindo-se a uma das regiões mais pobres de Caracas.

Díaz lembrou ainda que o Centro de Estudantes da UCV, a principal universidade do país, está controlado pela oposição estudantil. As eleições na UCV foram realizadas há duas semanas, em um processo eleitoral que chamou a atenção de todo o país, e que manteve os estudantes de oposição a Chávez com o controle. “E a UCV é a universidade mais heterogênea do país”, completou Díaz.

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