sábado, 26 de maio de 2007

Fim da concessão à RCTV aumenta segurança em Caracas


Diego Junqueira, de Caracas
(Texto publicado no Terra Magazine: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1644865-EI6580,00.html)

A população de Caracas vive com incerteza e expectativa o fim de semana em que será concretizada a resolução do governo venezuelano contra a emissora RCTV. O temor é que ocorram, nas ruas da capital, ações violentas provocadas tanto por grupos que apóiam o governo quanto por opositores.

No começo da noite de ontem, a sede da emissora Globovisión sofreu uma ação de um grupo de jovens chamado “Coletivo Alexis Vive”, que pichou a fachada da emissora e se auto-qualificou como revolucionário, supostamente de apoio ao governo Chávez. Além da RCTV, a Globovisión também mantém uma postura de oposição ao governo venezuelano. “Quando eu vi que havia um elevado contingente de policias e da Guarda Nacional nas ruas de Caracas, eu me senti mais protegido. Mas isso não foi suficiente pra evitar esse ato de vandalismo.”, afirmou o diretor geral de Globovisión, Alberto Federico Ravell, em entrevista à RCTV. “Não vamos mudar nossa linha editorial porque nos atacam e nos ameaçam ou porque vão fechar a RCTV ”, avisou Ravell.

Dois dias antes, na quarta-feira, a sede da Fedecamaras (Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela, que reúne os empresários do país) sofreu ação semelhante. Além do Coletivo Alexis Vive, participaram desta ação a Frente Nacional Campesina Ezequiel Zamora, a Frente Nacional Comunal Simón Bolívar e a Coordenação Simón Bolívar, grupos que apóiam o governo venezuelano. Fedecamaras foi uma das instituições que, em abril de 2002, participou do Golpe de Estado que manteve Chávez fora do poder por 48 horas.

Entrevistado na noite de ontem pelo canal estatal VTV, o ministro de Comunicação e Informação, William Lara, informou que o governo venezuelano repudia ações anti-democráticas como as que foram executadas contra a sede da Globovisón. “Não há justificativa para que alguém, por mais vanguardista e revolucionário que se declare, tome atitudes anarquistas. Na prática, essas ações coincidem com as estratégias de grupos internos e externos de extrema-direita que pretendem desestabilizar a vida política venezuelana”, relatou o ministro. “O resultado disso é que esses setores reforçam sua campanha midiática de promoção do temor coletivo. Ocorre, então, compras nervosas nos supermercados, angústias nas ruas e medo na população. O temor não tem fundamento real, mas pode se propagar com esse tipo de ação”, completou.

O ministro William Lara garantiu ainda que, durante este final de semana, e “até que esses grupos desestabilizadores entendam que na Venezuela predomina a paz”, todas as emissoras de rádio e TV da capital, além da sede de todos os jornais, serão resguardadas por corpos policiais. Nessa sexta-feira, centenas de militares e policiais podiam ser vistos nas ruas de Caracas.

Desde terça-feira, cerca de seis policiais metropolitanos estão posicionados em frente à sede da RCTV, munidos com um carro e um camburão. A emissora trabalha seus últimos dias de transmissão em sinal aberta com a sua porta de entrada fechada até a metade (um portão metálico que corre de cima para baixo). Segundo um dos vigilantes da RCTV, a medida “é uma ação preventiva contra um possível ataque dos chavistas”. O funcionário informou ainda que, apesar da tranqüilidade que marcou os últimos dias, os seguranças da emissora vivem a expectativa de alguma ação no local durante o fim de semana.

Rebelião
O jornal caraquenho Últimas Notícias publicou ontem uma reportagem na qual denunciava que transmissões da Polícia Metropolitana foram interrompidas durante a última quarta-feira. De acordo com o diário, a mensagem, transmitida por trinta minutos, convocava uma rebelião e sugeria aos policiais que não atuassem contra manifestantes a favor de RCTV. A reportagem é baseada em “fontes extra-oficiais”, já que o diretor da Polícia Metropolitana, general Juan Romero Figueroa, apesar de ter admitido a interferência nas transmissões, não divulgou o seu conteúdo.

“Há grupos de extrema-direita que estão publicando pela internet ameaças contra o governo, distribuindo panfletos que não reconhecem a legitimidade do presidente e que convocam uma ação violenta nesse contexto de não renovar a concessão à RCTV”, disse o ministro William Lara. No último sábado, durante a marcha convocada pela oposição contra a medida do presidente Chávez, foram distribuídos panfletos assinados pelo grupo “Junta Patriótica” que convocavam uma rebelião.

De acordo com o panfleto – que além de ser entregue em mãos era também lançado para o alto – “Na presidência da República há um usurpador, ilegal e ilegítimo. Na Venezuela ameaçada não há saída eleitoral!!!”. E mais adiante: “a saída é a rebelião. Preparem-se para a luta. No dia 26 arranca a definição: ditadura ou democracia?”.

Na manhã deste sábado, 26, ocorreu, nas ruas de Caracas, mais uma das marchas a favor de RCTV. O destino da protesta foi a sede da emissora, onde um palco estava montado para discursos de artistas e jornalistas. Concluída por volta das três horas da tarde, a RCTV e a Globovisón informaram que nenhum incidente foi registrado durante a manifestação. Já a Agência Bolivariana de Notícias informou que um cinegrafista do canal estatal VTV foi agredido com “um chute no traseiro” por algum dos manifestantes, além de uma tentativa de tomar o microfone da emissora.

Em um discurso transmitido nesta sexta-feira em cadeia nacional de rádio e TV, o presidente venezuelano Hugo Chávez afirmou que, se houver qualquer tentativa da oposição de promover a desordem na capital venezuelana, ocorrerá “uma contundente e rápida resposta da força militar venezuelana”. Chávez afirmou também que dificilmente existe um país no mundo com maior liberdade de expressão que Venezuela.

Em traje militar, o discurso foi realizado em uma base áerea na cidade de Barcelona, na região oriental do país, com desfile dos novos aviões que o país comprou do governo russo. De acordo com a Agência Bolivariana de Notícias, o governo venezuelano concretizou em julho passado a compra de 24 aviões e 53 helicópteros, num investimento próximo à 3 bilhões de dólares.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Habemus Copa América

Enquanto alguns amigos me enviam mensagens dizendo: "Cuidado porque há rumores sobre estado de sítio",

enquanto a History Chanel realiza um documentário sobre a insegurança no país, na Plaza Brión de Caracas, convidando os jovens para falar sobre o assunto,

enquanto meios de comunicação ligados ao governo apresentam documentos e páginas web que indicam que setores da oposição convocam para uma rebelião neste fim de semana,

a seleção vinotinto (como é conhecida a seleção local) se prepara para o amistoso de hoje à noite contra Honduras. A mesma Plaza Brión, em Chacaíto, começa a armar, pelo quarto fim de semana consecutivo, seu evento promocional da Copa américa. Nas bancas de vendedores ambulantes, Ernesto Guevara e Chávez compartem o espaço com o evento futebolístico.

Foi como me declarou, semana passada, o ministro do Esportes da Venezuela, Eduardo Álvarez: "O esporte permite uma paz social".

Cadeia nacional. Universidades socialistas

Por meio de cadeia nacional de rádio e televisão na noite de ontem, o presidente venezuelano anunciou mudanças no sistema universitário do país. As principais alterações são o fim da Prova de aptidão (uma espécie de Enem local, coordenado pelo Ministério da Educação), além das provas internas de admissão, produzidas pelas próprias instituições.

No entanto, mais uma vez o discurso presidencial foi marcado pela imprecisão. A medida se aplica apenas às universidades públicas? E de que forma, então, os estudantes serão admitidos nas universidades?

Uma parcela da comunidade acadêmica vem acusando o presidente Chávez de pressionar as instituições públicas para que admitam a maior parte dos estudantes que solicitem o ingresso universitário.

Livro Branco sobre RCTV nas ruas

Um documentário baseado no "Livro Branco sobre RCTV" - produzido pelo Ministério do Poder Popular para a Comunicação e Informação com as justificativas do governo venezuelano para não renovar a concessão da RCTV - está sendo reproduzido em alguns pontos de Caracas. Em Bellas Artes, por exemplo, em frente ao Ateneo de Caracas, foi estacionado um pequeno caminhão (próximo a um semáforo) com um telão de aproximadamente 3x2 metros no qual se transmitia o documentário. Para os motoristas que eram detidos pelo semáforo, era impossível não ouvir e ver pelo menos alguma parte do vídeo.

O pdf do livro pode ser encontrado no seguinte link.

http://archivos.minci.gob.ve/doc/libro_blanco_RCTV-Web.pdf

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Balança RCTV

Emissora golpista clama por liberdade de expressão para evitar retaliação política do governo

A RCTV é uma emissora golpista. E quem pode negar?

O que lhes parece quando uma emissora atenta ao Estado de direito, motivando a população a sair às ruas não para fazer pressão social, o que seria totalmente justificado, mas, sim, para promover uma marcha em direção ao palácio do governo, em direção a uma sabida concentração opositora (em prol do governo, então), com os dizeres na tela: "Nem um passo atrás!!!". Nem um passo atrás o quê? Qualquer gota de responsabilidade sugeriria dizer: "Marcha opositora protesta contra o governo". Ou, se quisessem manipular um pouco a coisa, poderiam dizer: "Povo venezuelano pede a renúncia de Chávez". Não, eles resolveram incitar, promover a desordem, pisotear a legitimidade de um presidente eleito e conclamar o povo para uma batalha, que horas mais tarde contaria com 19 mortos (em ambos lados). Ok, não quer reconhecer o governo, te parece que é o mais corrupto de todos, que a população vive pior, que as missões do atual governo para nada sirvem. Ok, pense o que quiser, mas é inconstitucional abusar de um poder midiático concedido pelo Estado para provocar um estado de desordem. Quer defender seus interesses por saídas inconstitucionais, então escreva um jornal clandestino, conspire, siga para a guerrilha, alie-se aos militares (aliás, isso eles fizeram). Há muitos caminhos ilegais quando se quer levar adiante anseios ilegais.

Todos esse fatos se referem aos breves dias do Golpe de Abril de 2002, quando a oposição venezuelana tomou o Palácio de Miraflores, rasgou a constituição e empossou um novo presidente, Pedro Carmona (Ah, que coincidência, o presidente da Fedecamarás, organização dos empresários venezuelanos).

Essas evidências bastariam para acusar ao canal 2, RCTV. Assim mesmo, a lista é muito grande, como mensagens subliminares em filmes transmitidos pela emissora. A RCTV chegou a insertar um frame de uma propaganda política (ou melhor, uma incitação pública) que convocava à greve geral do final de 2002.

Além disso, há uma série de razões que apontam à péssima programação da emissora, com desenhos infantis bestializantes, séries e novelas que retratam apenas o "lado silicone" da Venezuela - se é que me entendem - propagando preconceitos de classe, cor, credo, gênero...

No entanto,
No entanto,
No entanto,

a não renovação da concessão à RCTV é um caso de retaliação política. E quem pode negar?

E mesmo sem utilizar a palavra "liberdade" é possível explicar.

Em Abril de 2002, durante todos acontecimentos descritos acima, RCTV não atuou sozinha. Outros quatros canais privados de transmissão aberta também atuaram de acordo com o cronograma da oposição. Além de RCTV, Globovisión, Televen e Venevisión. Com essas evidências, por que o tratamento especial à RCTV? Vão passar a mão na cabeça dos outros? E se RCTV infringiu gravemente à constituição, por que esperaram o fim da concessão em vez de optar pela via judicial?

Vale lembrar que, das quatro emissoras, Televen e Venevisión já estão mansinhas, pró governo. Mas, o que acontecerá com Globovisión?

Uma informação que ainda não pude confirmar: a concessão da Venevisión, que também vencia este ano, foi renovada por apenas um ano mais. Por que renovou pra uma e pra outra não, se há argumentos que as comprometem por igual (ou quase igual)? Começaram a bailar conforme...? Vale dizer também que o proprietário de Venevisión é, como diz um amigo, "dono de meia venezuela": o empresário Gustavo Cisneros. Um homem assim precisa agir com cautela.

A grande confusão no caso RCTV é que os argumentos pesam demais nos dois lados da balança. Enquanto no mundo se difunde a "boca fechada", o atentado à liberdade de expressão e a posterior derrocada da democracia venezuela, internamente, o país, o governo, os movimentos sociais, os consejos comunales, e o restante dos 60% de venezuelanos que votaram por Chávez em dezembro, todos (ou melhor, a parcela ativa e participativa deles) discute o acesso à comunicação como a via legítima para a liberdade de expressão. E quem tem a razão? Um canal golpista e bélico ou um governo centralizador e bélico?

E o que é liberdade de expressão? Cada um dizer o que pensa, ou cada um ter a oportunidade para dizer o que pensa?

É claro que as duas opções não são excludentes. Mas, na Venezuela de hoje, ninguém se senta para discutir isso.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Meios de comunicação: público, privado, estatal, RCTV, justiça social




Talvez superasse os três quilômetros. Mas, em verdade, o que os separava eram apenas quatro estações de metrô

Na avenida Francisco de Miranda, no último sábado, em Caracas, reuniu-se a marcha que gritava contra a decisão do governo Chávez de não renovar a concessão da emissora RCTV.

A protesta partiu, por volta das 11h, de quatro pontos distintos da cidade. Segundo alguns meios de comunicação do país (Globovisión, El Universal), alguns participantes que vieram de outras cidades tiveram dificuldades para entrar em Caracas, pois foram barrados em alguns postos policiais nas primeiras horas da manhã.

Apesar desses impedimentos, a marcha prosseguiu rumo à Chacaíto, próximo ao centro da capital venezuelana, levando pelas ruas da cidade um grito pela “liberdade de expressão”. À medida que se aproxima o 27 de maio (data final da licença para RCTV), a oposição venezuelana preconiza o fim da democracia no país ao amanhecer de 28 de maio.

Falta então menos de uma semana.

As últimas pesquisas de consulta popular divulgadas no país sobre o tema RCTV indicaram que 80% dos venezuelanos reprovam a medida de Chávez. Particularmente não me deparei com nenhuma manifestação oficial do governo sobre tais consultas. No entanto, alguns simpatizantes da revolução, que vez ou outra surgem com declarações por rádio, jornal ou TV, logicamente questionaram a cifra. A disputa midiática que vive o país mantém a credibilidade distante de qualquer produtor de informação. A oposição e alguns meios de comunicação não acreditam nos números divulgados pelo governo. Este, por sua parte, desconfia de qualquer pesquisa realizada por uma empresa privada. E assim se construi uma grande interrogação.

Saber se o povo venezuelano, em sua totalidade, apóia ou não a medida do presidente Chávez é uma dúvida que dificilmente será solucionada, ante uma batalha midiática travada a cada segundo no espaço público (e faz-se necessário dizer isso, porque a batalha ocorre na tv aberta, nas rádios, nos jornais, nas revistas, nos outdoors, nos grafites que inundam a cidade, nos ônibus, nas camisetas, bonés, faixas...). No entanto, mais importante do que discutir isso, é preciso saber para que serviu a protesta de sábado, que aconteceu com absoluta normalidade, sem novidades e com o mesmo discurso que há meses difunde a oposição. Serviu para mostrar a vontade popular? Formar consciência? Agitar os brios da população? Desestabilizar o cenário politico?

800 mil pessoas?
Antonio Ledezma, membro do Comando Nacional de Resistência e presidente do partido de oposição “Aliança Bravo Povo”, declarou na manhã de domingo, em uma coletiva de imprensa transmitida ao vivo pela Globovisión, que cerca de 800 mil pessoas participaram da marcha, “descendo dos morros, dos apartamentos, dos condomínios fechados...”. Como um desses milhares que presenciou a marcha, e sem nenhuma experiência no assunto, eu poderia "imprecisar" que 20, 30, 40 ou 50 mil participaram. A cifra 800 mil é mais uma das balas (ou mortos) da luta midiática.

Quem se destacou na marcha foram funcionários da emissora, artistas e jornalistas, estudantes de comunicação de universidades privadas, políticos e militantes de diversos partidos e organizações politicas. A atitude de declarar um número como 800 mil revela os objetivos da manifestação. Primeiro, construir uma verdade em que se evidenciaria a opinião do povo venezuelano. Segundo, produzir imagens suntuosas para serem distribuídas em meios de comunicação de todo o mundo. É nesse mesmo sentido que se divulgou ontem "o maior cartaz do mundo", com mais de um km de extensão, como afirmou os organizadores. O cartaz dizia "SOS - Liberdade de Expressão". Vale recordar que, apesar do apoio recebido de organizações de jornalistas de diversos países, entidades como o parlamento europeu e a OEA já declararam que não irão intervir no assunto RCTV, pois, segundo ambos, a decisão é de responsabilidade única do Estado venezuelano.

Além disso, semana passada, o Supremo Tribunal de Justiça venezuelano declarou inadmissível um amparo constitucional solicitado por Marcel Granier, presidente de RCTV, em 9 de fevereiro deste ano. De acordo com a constituição venezuelana, os amparos constitucionais devem tramitar com ordem de preferência no Supremo tribunal de Justiça (artigo 27). Apesar dos quase quatro meses que se necessitou para produzir uma resposta, O Supremo Tribunal informou que tudo referente ao caso RCTV deve ser resolvido pela Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel). Ainda que exista outro amparo tramitando no tribunal, a decisão diluiu uma das únicas esperanças que a emissora mantinha para manter sob seu comando uma das faixas do espectro radioelétrico.

Golpe?
Para a oposição, sem um projeto político alternativo para o país e desvinculado das bases sociais, a RCTV se tornou a única bandeira para lutarem pelo país que desejam, fomentado ainda mais seu desejo supremo: ver uma Venezuela livre de Chávez.

No último sábado, quando a marcha já estava concentrada em Chacaíto, ante um palco repleto de líderes políticos da oposição, militantes da Junta Patriótica distribuíam entre os participantes um simples comunicado que ocupava a terça parte de uma folha A4.

Sem nenhum símbolo de partido ou organização política, apenas assinado pela Junta Patriótica (uma das organizações de resistência contra o presidente Chávez), o comunicado dizia: “Na presidência da República há um usurpador, ilegal e ilegítimo. Na Venezuela ameaçada, não há saída eleitoral!!!”. E mais adiante: “... a saída é a rebelião. Preparem-se para a luta. No dia 26 arranca a definição: ditadura ou democarcia?”. Para a data, no próximo sábado, está marcada mais uma marcha a favor da RCTV, com o destino final na sede da emissora, em Quinta Crespo.

Quatro estações dali
Em Bellas Artes, no Teatro Teresa Carreño, quatro estações de metrô distante da marcha, se iniciava naquela mesma manhã de sábado o evento “Jornadas Internacionais – o direito cidadão de informar e ser informado”, organizado pela emissora Telesur, cujo principal financiador é o governo venezuelano.

O encontro contou com a participação de intelectuais e jornalistas como o francês Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique, o ator americano Danny Gloover, o minstro de Cultura cubano, Abel Prieto, a correspondente da Al Jazeera em Caracas, Dima Khatib, o escritor britânico-pasquitanês Tariq Ali, e o secretário brasileiro de audiovisual, Orlando Senna, entre outros.

Parecia um outro país. A partir do estímulo a plataformas populares de expressão (principalmente rádios, jornais e tvs comunitárias e públicas, além de produtoras independentes de cinema), o discurso do evento se baseava no poder de justiça social que possibiltam os meios de comunicação. Durante todo o encontro foi exaltada a medida do presidente Chávez de não renovar a licença da RCTV. A principal acusação conta a emissora é a de ter participado do Golpe de 11 de abril de 2002 (que manteve Chávez por 48 horas fora do poder), além de ter fomentado a greve geral (mais conhecida como “paro petrolero”) no final de 2002 e início de 2003.

"O governo venezuelano decidiu manejar constitucionalmente o espaço radioelétrico. Isso é um fato inédito, porque jamais foi utilizado por nenhum de nossos governos", afirmou Orlando Senna, secretário do Audiovisual do Minstério da Cultura do Brasil.

O poder dos meios de comunicação foi ressaltado pelo diretor do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, para quem "a informação e a comunicação é uma matriz estratégica que permite a acumulação de beneficios". Segundo Ramonet, a comunicação é a ferramenta utilizada para convencer os povos de todo o mundo de que os efeitos da globalização são normais e positivos. "É pela comunicação que se transmite a idéia de que o âmbito econômico deve ser protagônico sobre o político."

De acordo com o advogado espanhol Ángel García Castillejo, conselheiro da Comissão de Mercado de Telecomunicações na Espanha, "o direito à comunicação está muito mais além da liberdade de expressão". Mas onde estavam os jornalistas que particpavam da marcha? Ou aqueles estudantes de comunicação? Em que palco houve qualquer discussão entre os pólos que pensam o país?

Não houve debate naquele sábado, típico sábado carquenho, com sua incessante guerra midiática. Eram dois países distintos, com demandas que se assemelham, mas que partem de propósitos distintos. Dois países divindo algumas faixas do espectro radioelétrico, dividos por quatro estações de metrô e sem nenhum ponto de encontro.

Concentração final na av. Francisco de Miranda




Marcha a favor de RCTV. Caracas, sábado, 19 de maio.

Recados para o presidente



Marcha a favor de RCTV. Caracas, sábado, 19 de maio.

Manuel Rosales


Antes de inciar a marcha. Manuel Rosales, governador do estado Zulia e presidente do partido Un Nuevo Tiempo. Concorreu com Chávez as eleições presidenciais de dezembro passado.


Marcha a favor de RCTV. Caracas, sábado, 19 de maio.

Chávez e o leão de RCTV



Marcha a favor de RCTV. Caracas, sábado, 19 de maio.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Chávez sobre RCTV



Aí está a capa do livro.

Na terça, Chávez declarou o seguinte: "Não é uma questão política, mas, sim, um problema moral. Essa emissora incrementou o bombardeio mediático, a violência, o racismo, , o desrespeito à mulher, à criança, às pessoas com deficiência, aos homossexuais, ao país e ao mundo".

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Livro Branco sobre RCTV

A última folha do livro diz: "A venda deste livro é um ato contra-revolucionário". O livro só pode ser distribuído gratuitamente.

Em castelhano, o título é Libro Blanco sobre RCTV. Mas a tradução para o português peca por causa do significado da palavra "blanco". Além de branco, "blanco" também pode ser traduzido por alvo.

Uma capa branca, o título, e uma televisãozinha no pé da capa, sintonizada fora do ar, e com o logo da RCTV. O Livro Branco sobre RCTV foi produzido pelo Ministério do Poder Popular para a Comunicação e Informação, e procura apresentar as justificativas do governo venezuelano para não renovar a concessão da RCTV.

O arquivo pdf do livro se encontra nas páginas oficiais de alguns ministérios, como o já citado acima, ou o Ministério de Energia e Petróleo, ou ainda o Instituto Nacional de Esportes.

Seguem alguns desses links:

http://archivos.minci.gob.ve/doc/libro_blanco_RCTV-Web.pdf

http://www.ind.gob.ve/docs/libro_blanco.pdf

http://www.mem.gob.ve/pubdocs/libro-blanco-rctv-web.pdf

Estado, Governo e Partido

"Não podem dizer que não querem se somar ao PSUV, mas que apóiam ao governo. Aquele que está contra o PSUV está contra Chávez, e isso devem saber os dirigentes dos outros partidos".

Foi o que disse Chávez, no último sábado, 5, em coletiva de imprensa sobre o Paritdo Socialista Unido de Venezuela (PSUV). Neste fim de semana, na Grande Caracas, ocorreram as inscrições para aspirantes a membros do PSUV. Com uma captadora de digitais do CNE (Conselho Nacional Eleitoral), segundo informou El Nacional, Chávez inscreveu-se no bairro 23 de Enero.

O recado do comandante atingia principalmente os partidos PPT (Pátria Para Todos), PCV (Partido Comunista de Venezuela) e Podemos (Pela Democracia Social). Aliados da revolução, esses três partidos mantêm discursos não-favoráveis (ainda que inconclusos) quanto suas adesões ao PSUV. Este cenário obrigou muitos políticos de PPT, Podemos e PCV a desligarem-se dos partidos e confirmarem que migrarão para o quadro governamental, assim que se conforme o partido, prometido para o final do ano.

Chávez foi muito claro: não basta apoiar, tem que participar, estar do lado, colado, ou melhor, embaixo, sob a mão grande dessa figura que vem se construindo como uma mescla de Estado, Governo e Partido. E que leva a voz do comandante.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Viva o rio Madeira Vivo

O documento "Cenario Tendencial", da ONG Viva o Rio Madeira Vivo, discute possíveis cenários para o rio Madeira com o projeto de construção de duas usinas hidroelétricas, do consórcio Furnas-Odebrecht.

www.riomadeiravivo.org/cenario.htm

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Ícaro

"Un hombre no es un pájaro, y debe soportar la ruindad de estar preso a la tierra como un ángel al cielo". Wilfredo Machado.

"Ícaro", escultura de Felipe Herrera.

Parque Los Caobos, Bellas Artes, Caracas.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Detalhes da concentração em Miraflores

I
Para se aproximar do palco, onde estavam Chávez e seus ministros, era preciso vencer uma barreira de grades e arame farpado, montada a cerca de 200 metros do palco. Havia apenas um lugar onde era possível sair e entrar. Houve diversos momentos de tensão, pois as pessoas se aglomeravam, empurravam-se, gritavam. Para entrar, 2 guardas (ou organizadores, porque estavam vestidos de civis) vasculhavam mochilas e bolsas, mas sem muito afinco. Passado isso, já não havia uma multidão desesperada, mas alguns vazios e tranqüilidade. Não havia bêbados... havia, havia sim. Não havia era cerveja... lembrando bem, havia também... De qualquer forma, tudo era mais tranqüilo. A imprensa estava aí (estrangeiros e a imprensa oficial), as participantes do Congresso de Mulheres sentadas bem aí ao lado, o presidente num palco enorme, há cinqüenta metros, e, antes disso, um cordão de militares, muitos militares, jovens em sua maioria, cerca de 200, que não se via lá de trás.

Quanto mais se aproxima da revolução, de verde-oliva ela se pinta.


II
Há mais camisetas de Chávez sendo vendidas que de Che.

A revolução é midiática (II)





11 de abril de 2007, quarta-feira:

Enquanto as emissoras de TV preparavam seus programas especiais sobre os eventos de abril de 2002 (com destaque para o documentário da Globovisión), o ministério de comunicação e informação entrou em cadeia nacional de rádio e televisão. Era por volta das 20 horas quando Chávez começou o seu discurso, de dentro de Miraflores, em sue gabinete de trabalho. A primeira imagem trazia o comandante e uma imagem de Jesus Cristo, pregado na Cruz e na parede do palácio. Chávez então começou a mostrar todos os quadros que estavam por ali, os libertadores da pátria (atrás de sua mesa de trabalho o quadro traz a imagem de Simón Bolívar), e falou de portas, das muitas portas que havia ali, e de como foi que saíram antigos presidentes da Venezuela, desde antigos ditadores, expulsos pelo povo ou por golpes de estado.

Depois se sentou, houve uma conversa fora do palácio com alguns ministros-personagens de abril de 2002, e só então o comandante começou a falar para a sua platéia de ministros, governadores, prefeitos... como se fosse o Aló, Presidente de domingo.

Isso seguiu até às onze e meia da noite, aproximadamente.

A Globovisión voltou ao ar com o seu telejornal noturno. As chamadas surgiram assim:
- Enquanto o presidente Chávez discursava, você não pode ver o espetacular home run do venezuelano Fulano de Tal, há poucos instantes, na Grande Liga norte-americana de beisebol. Você também não pode ver... Você também não pode ver... E você também não pode ver o nosso especial sobre abril de 2002. Mas isso você assiste agora!

E acabou o telejornal e começou o documentário (que seria repetido, pelo que presenciei, umas 6 vezes até o final da semana).






13 de abril de 2007, sexta-feira:

Todo 11 tem seu 13.

Com este pensamento (amplamente difundido pela publicidade estatal) o governo convocou para 13 de abril uma concentração em Miraflores, para celebrar os cinco anos em que o povo trouxe seu comandante de volta ao poder.

Depois do horário de almoço, o metrô de Caracas levantou as catracas. Ninguém pagou para usar o metrô naquelas horas, até o fim do expediente, às onze da noite. O caminho para a estação Capitólio estava repleta de rojo-rojitos, com seus bonés e o “Todo 11 tem seu 13”. Aqueles que não tiveram tempo para ganhar uma camisa levavam outras, mais velhas, de outras concentrações, com um rojo-rojito aguado.

Estação por estação, muitos dos "manifestantes" que entravam acabavam de sair do trabalho. Os cartões das empresas ainda estavam pendurados no pescoço. As fitas mostravam: Metrô, Fontur, Pdvsa... todas empresas do governo. Já na região de Miraflores, outras credenciais, camisetas e bonés indicavam a procedência da maioria dos “manifestantes”: Unefa, Pequiven, Seniat, Hospital Cardiológico Infantil... Muitos admitem que são obrigados a participar das convocações. Mas todos têm os seus truques. Saem juntos do trabalho, ficam um tempo juntos na concentração, tiram uma foto com o chefe e, sem que ninguém perceba, dão no pé.

A praça Bolívar era uma festa. Ônibus de turismo estacionados nas redondezas trouxeram muitos "manifestantes” de outras cidades: Valencia, Maracaibo, Barquisimeto... Ali, flashes e mais flashes, fotos, para muitos, felizes da vida, que pela primeira vez vinham a Caracas, ou a Miraflores ou à praça Bolívar, com a enorme escultura de seu libertador, de 4 ou 5 metros de altura, montado num cavalo.

Naquela mesma semana havia se realizado em Caracas o Congresso Mundial de Mulheres. E elas, participantes do congresso, também estavam ali. Marcharam até Miraflores carregando a bandeira de seus países. Foi onde conheci algumas brasileiras, que encabeçavam aquela pequena marcha com uma bandeira do Brasil. Algumas do MLST de SP e PE, outras de organizações de mulheres. As do MLST souberam que iam pra Caracas uma semana antes do Congresso de Mulheres. Algumas brasileiras afirmam que foi tudo pago pelo governo venezuelano. Outras são mais diplomáticas, e dizem que as despesas são assumidas por todos os governos. Hospedagem: Hilton Caracas (diária mais baixa: 135 dólares) e Gran Meliá (195 dólares). As mulheres assistiram ao discurso de Chávez de dentro de Miraflores, sentadas, muito próximas ao presidente.

O comandante chegou por volta das cinco da tarde, entoando o hino nacional, cantado por todos ali, e talvez por outros mais, em distintos lugares do país, já que uma vez mais foi convocada a transmissão em cadeia nacional. E assim seguiram às quatro horas seguintes.




Foto: Luis Laya/Ministerio del Poder Popular para la Comunicación y la Información