quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A Velha e a nova oposição a Chávez

Este texto foi publicado no diário Correio Braziliense, no dia 1º de dezembro.

A Velha e a nova oposição a Chávez
Diego Junqueira

Em maio, quando surgiram para o país como uma força política, eles gritavam: “E vai cair, e vai cair, esse governo vai cair”. Há menos de um mês, no entanto, mudaram o discurso: “Não é contra Chávez! É contra a reforma!”

Na Venezuela, os estudantes universitários opositores ao governo Hugo Chávez alteraram a tática para convencer a sociedade a votar pelo “No” neste fim de semana. Os venezuelanos acudirão as urnas, no domingo, para aprovar ou rechaçar a proposta de reforma constitucional do governo. A estratégia estudantil, de não atuar contra a imagem do presidente, é uma resposta à estratégia recente da campanha governamental, que procurou colar a figura do mandatário venezuelano ao referendo de domingo.

Em agosto, quando o presidente Chávez apresentou o projeto à Assembléia Nacional, a reforma era conhecida por apenas um de seus pontos: o artigo que pretende instaurar a reeleição indefinida na Venezuela. De agosto ao início deste mês, a campanha do governo, liderada pelo vice-presidente do país, Jorge Rodríguez, tratou de ressaltar outros artigos da reforma, principalmente os de cunho social, como a mudança na jornada de trabalho, que seria reduzida de oito a seis horas diárias, para, segundo a proposta, o desenvolvimento pessoal dos trabalhadores. Este mês, no entanto, a estratégia do governo foi uma só: “Sí” com Chávez.

Instituir a imagem do presidente no centro da campanha, com esquetes publicitários de rádio e televisão, além de outdoors, panfletos e cartazes, foi o caminho que o “Sí” encontrou para algumas baixas que tiveram pelo caminho. A principal delas foi a do general Raul Isaías Baduel, que há dois meses era o ministro de Defesa venezuelano. Em abril de 2002, durante a tentativa de golpe de Estado contra Chávez, foi Baduel quem articulou o retorno do presidente ao poder. No dia 5 de novembro último, no entanto, Baduel concedeu uma entrevista coletiva na qual se posicionou contra a reforma constitucional. Poucas horas depois, Chávez o qualificou de traidor. E afirmou: “Quem está com Chávez, está com a reforma”.

Além de Baduel, o chavismo sofreu reveses dentro da Assembléia Nacional – que não conta com nenhum partido da oposição, em razão do boicote que realizaram às eleições legislativas de 2005 – já que deputados do partido Podemos, como Ismael García, também se pronunciaram contra o documento constitucional. “Com essa reforma, ´No´”, avisa a publicidade política de Podemos, partido da base aliada a Chávez.

Oposição e Oposição
Os estudantes universitários de oposição, de acordo com uma pesquisa divulgada semana passada por um dos principais jornais do país, El Universal, são a força política com maior credibilidade entre os opositores ao governo Chávez, superando a Igreja Católica, claramente opositora ao mandatário venezuelano, e as principais organizações políticas do país, como os partidos AD e Copei, que governaram a Venezuela de 1958 a 1992, e também por em cima de Primeiro Justiça e Um Novo Tempo, de Manuel Rosales, governador do estado Zulia, candidato da oposição à presidência da República em Dezembro de 2006.

Na tentativa de desprestigiar as mobilizações estudantis, deputados chavistas constantemente têm acudido aos microfones da Assembléia Nacional para classificar os estudantes de “jovenzinhos”, filhos de pais ricos e representantes da velha oligarquia. Ou então que estão a serviço da velha oposição venezuelana, na qual se incluem também as emissoras de TV Globovisión e RCTV, que em 28 de maio perdeu a concessão de transmitir seu sinal em canal aberto, mas que agora transmite via cabo. Ambas participaram do golpe de Estado que, em 2002, derrubou Chávez do poder por pouco mais de 24 horas.

No começo deste mês, os líderes do Comando Nacional da Resistência (CNR) convocaram a chamada “marcha sem retorno”, supostamente para o dia 26 de novembro. Encabeçados por Óscar Pérez e Antonio Ledezma, o CNR pediu para que os marchantes levassem “balas e chocolates” para suportarem a marcha. Durante todo o mês o fato foi recordado por setores do governo, como o canal estatal VTV, para ridicularizar a oposição. O resultado foi que, na data marcada, segunda-feira passada, não houve a convocada marcha.

Um dos momentos da marcha de ontem demonstrou algumas diferenças dentro da oposição venezuelana. Adeptos do partido Copei, um dos mais antigos do país, estavam distribuindo cervejas entre si quando um estudante se aproximou deles. “Vocês precisam ter mais consciência e parar de beber pelo menos agora. Estamos lutando pelo futuro do país”. O jovem se afastou dali e os copeianos, sem discutir com ele, voltaram a tomar suas cervejas. Mais à frente, no entanto, um grupo de estudantes também se divertiam com cervejas em mãos.

As principais universidades que participam das recentes marchas conta a reforma são a Universidad Metropolitana, Universidad Santa María (ambas freqüentadas pelas classes média e alta de Caracas), Universidade Católica Andrés Bello (Ucab), Universidad Simón Bolívar (USB) e Universidad Central de Venezuela (UCV). As duas últimas são as únicas universidades públicas dessa lista.

Alexandra Díaz, do Centro de Estudantes da USB, reconhece que grande parte dos universitários de oposição pertencem à classe média caraquenha. Mas ressaltou que isso não atingia a liderança do movimento. “O Freddy (Guevara, dirigente da Ucab) vive em Catia”, contou ela, referindo-se a uma das regiões mais pobres de Caracas.

Díaz lembrou ainda que o Centro de Estudantes da UCV, a principal universidade do país, está controlado pela oposição estudantil. As eleições na UCV foram realizadas há duas semanas, em um processo eleitoral que chamou a atenção de todo o país, e que manteve os estudantes de oposição a Chávez com o controle. “E a UCV é a universidade mais heterogênea do país”, completou Díaz.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Açúcar no Brasil

Você já leu o jornal chavista da universidade?

Não.

Vou trazer um exemplar para você. Eu escrevi um artigo intitulado “Chávez e o Neoliberalismo”. Assim mesmo, e eles aceitaram. Ha ha. Agora estou preparando um texto sobre a situação na Colômbia.

Cara, essa é outra coisa que não entendo: por que é que as Farc, por exemplo, não abandonam a guerrilha e organizam um partido político?

Ha ha. Diego, essa é uma história longa… partido político… Ha. Vou te contar uma historinha…. – e meu amigo, residente em Caracas, mas que vem do outro lado da fronteira, remonta os anos 40 na Colômbia, o chamado “tempo da violência”. Me senti em filmes como “The godfather” e qualquer outro de gângsteres. Me conta os enfrentamentos liberais e conservadores, o extermínio dos liberais, as guerrilhas camponesas, Tirofijo, a CIA...

O que antes era apenas um grupo de homens que defendiam o seu território – uma montanha qualquer no meio do nada – converteu-se na maior força opositora do país. E isso ocorreu a partir dos anos 60, com a entrada dos gringos nessa história e a sua luta por “defender a América Latina do comunismo”. De acordo com alguns historiadores, se a CIA não tivesse espalhado esse grupo de homens miseráveis, quando os expulsaram das montanhas, as Farc como tal não teriam surgido.

... e me canta sobre Pablo Escobar.

Ha ha. Ele colocou fogo em tudo, meu chapa. Antes dele, todos eram inocentes. A luta era romântica.

Esse homem peitou o Estado? Sabe o que é isso, Diego? Um pobre miserável, que veio do nada, que começou roubando carros, peitou o Estado e os gringos... Ha ha.

Tudo, mas tudo pra dizer.

A guerrilha surgiu contra os latifundiários. E isso ainda não se alterou. Algumas pessoas tentaram a via democrática. Eleições foram roubadas. Isso deu origem a outros grupos guerrilheiros. Todos os presidentes colombianos, mas todos, são descendentes diretos daqueles latifundiários, dos anos 40 e 50, quando começou tudo. Já os guerrilheiros, estes são os mesmos. O que você espera?

(...)

Meu primo. Meu primo, cara. Começou a passar coca de lá pra cá, daqui pra lá.

Meu pai. É desses homens que trabalhou a vida toda. Taxista. Tem seu carro, sua casa, sua esposa, nada mais.

Meu primo. 18 anos. Acabou de sair do colégio. Faz só um ano que se meteu no negócio. E já ganhou mais dinheiro que o meu pai em toda a sua vida. Pra que é que a gente estuda, então? Pra sair da universidade recebendo 800, 1000 dólares? Meu primo ta indo bem. Já comprou umas vans, vai se meter em transporte público agora. Tá investindo... e essa é só a parte que a família sabe...

Diego, acho que vou abandonar o mestrado. Sei não. Pra ganhar essa miséria? Eu quero ter minhas coisas... Dezembro decido. Vou contrabandear gasolina. Daqui pra lá, já me convidaram. Tenho uns amigos que estão ganhando muito dinheiro com isso.

Veja bem o que você quer pra ti. Não seria bom terminar o mestrado e ver o que acontece?

Que nada, cara. Nem com o mestrado, nem trabalhando para o governo, nem pra iniciativa privada... Acho que vou abandonar o mestrado... além do mais, eu posso apoiar o Chávez desde lá, não preciso estar aqui... (...) Mas e você, Diego, não quer transportar açúcar no Brasil? Ha. Esse negócio está dando muito dinheiro também.

Sorrio. Tive vontade de dizer que preferia estar do lado Bem da força. Mas, em um mínimo de segundo, me pareceu melhor não dizer. Senti toda uma carga de preconceito em meu comentário enforcado. Ali estava um rosto conhecido, uma opinião política, um amigo distante, destes com quem sempre se conversa quando se vê. Preferi:

Cara, eu sou jornalista. Esse negócio não me atrai. Não para trabalhar, mais bem pra conhecer. Preferiria, um dia, ir te visitar, e que você me mostrasse tudo, que me apresentasse as pessoas, para eu conversar com elas, conhecê-las, ouvir suas histórias, de onde vieram... e se der tomar fotos, filmar. Mas, te digo, não me interesso pelo negócio.

Ha ha. Eu sei, Diego, tranqüilo. Ha. Mas que dá dinheiro, uhhhh.

Mas vamos falar das próximas eleições na Colômbia. Juan Manuel Santos e Piedad Córdoba... Daí não sai. E se o primeiro ganhar, te digo, vai ter guerra com a Venezuela...

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Crônica de uma final (Brasil x Argentina)

Minha dúvida sobre este texto era se deveria colocar "gol e uma batucada breve" ou "breves". Sabendo que queria dizer o segundo significado, mas sem uma solução, deixei a opção menos pedante. Segue o link na Placar (http://placar.abril.com.br/selecao/noticias/072007/072007_473326.shtml) e o texto abaixo.



Crônica de uma final: um gol e uma batucada breve

Diego Junqueira

Antes do apito inicial já sobrava cotovelada. Um gentio abarrotado nas escadas de acesso às arquibancadas. Todos nas pontas dos pés, esticando o pescoço, esperando uma jogada de Messi ou Robinho, que com sorte ocorreria, entre uma cabeça e outra, no pedaço verde que os olhos viam. Uns não tinham entradas, e ficavam ali, calados, se escondendo dos oficiais. Outros carregavam furiosos seus ingressos. Cadê meu lugar? Eu quero o meu posto!, forçando a massa a se mover para os lados e arrancando gritos dos arquibancados: Y, fuera!! Y, fuera!! Ninguém queria perder aquela final.

A Argentina vinha de cinco vitórias consecutivas na Copa América, por 2, 3, 4 gols de diferença. O Brasil carregava uma derrota nas costas, a desconfiança geral, além da sofrida classificação para a final, nos pênaltis. A expectativa era que o rolo compressor argentino não deixasse em pé um paulista, carioca ou mineiro sequer. Tanto que na véspera da final em Maracaibo, o técnico da Argentina, Alfio Basile, já tinha avisado: "Não basta vencer. Tem que vencer bem. Tem que mostrar superioridade". Era certeza, eles tinham certeza.

No hotel da seleção brasileira, na tarde daquele mesmo sábado, enquanto ocorria a coletiva de imprensa do argentino, os jogadores esperavam o horário para o último treino antes da final. Cada jogador estava em seu quarto, com a televisão ali ao lado e a entrevista sendo transmitida ao vivo. "Tudo o que sai na imprensa, os jogadores estão vendo e ouvindo tudo", confessaria depois o auxiliar-técnico Jorginho.

"Eu sempre torci pelo Brasil. Mas eu quero que a Argentina ganhe essa final. Acho uma falta de respeito os melhores jogadores não terem vindo. Estamos nessa expectativa desde o começo do ano. Queríamos ver o Ronaldinho, o Kaká...", lamentavam-se torcedores venezuelanos antes da partida. Só que ali, na escada abarrotada, as pessoas continuavam penduradas uma nas outras, sem ver estrela alguma. Cabeças ainda procurando uma posição cômoda e os hinos das seleções lá embaixo. Ia começar. O favoritismo argentino, o pescoço esticado, a derrota para o México, os passes incríveis de Riquelme durante o torneio, a euforia ao redor de Messi, tudo ainda fervia na cabeça em Maracaibo... até um chute longo de Elano, aos 4 minutos.

Foi muito rápido. Só deu pra ver quando o Júlio Baptista pegou a bola, ou nem isso. Deu pra ver que o disparo foi forte, que a bola entrou, e que os jogadores saíram comemorando. O estádio veio abaixo, até parecia o Brasil. As pessoas começaram a correr e a pular nos corredores, aqueles mesmos que não tinham ingresso. Os funcionários de limpeza, vendedores de água, todos deixaram o trabalho e correram para o campo. Gol de quem? Gol de quem? Do Brasil. E saíam correndo, vibrando e gritando aos ventos "Gol do Brasil, do Brasil!!!"

Mas o favoritismo era deles. Aquilo até poderia ser normal. Riquelme, Verón, Messi, Cambiasso, Zanetti, Tévez. Eram, de fato, os melhores deles. E a gente... com três volantes. Não um, ou dois. 3. O Brasil, do jogo bonito. E veio o cruzamento de Heinze, quatro minutos mais tarde, o passe de cabeça de Verón e o chute de Riquelme, explodindo no poste direito de Doni. Susto no estádio. Silêncio de um lado. Lamentos de outro. Aí está, viu?! Não havia quem não desconfiasse...

Mas atrás do gol de Doni havia algo estranho. Soava um samba desafinado. E não pela trave de Riquelme. Era uma batucada sem compasso, cansada, tocada por um grupo de venezuelanos, que também levavam a cabeça esticada. Assim não tinham como tocar o tamborim. Ficavam a maior parte do tempo quietos, em pé, assistindo ao jogo onde já não cabia gente. Mas eram eles que traziam a cara do Brasil, que lembravam o Brasil pro gentio daquela parte do estádio, e pro Doni e os zagueiros ali ao lado. A cada susto argentino, um lançamento do Verón, uma subida de Tévez... uma batucada breve. E se levantavam as mulatas do estádio, arriscavam um samba, meio salsa e merengue, com um olho no pé e outro na grama. As pessoas gritavam, se empolgavam, e faziam do estádio Brasil, desenhando na memória o Maranhão, a Bahia, o Rio...

”De onde vocês vieram? Quem eram vocês antes disso? Antes de estarem aqui, o que faziam? Vamos, gente, pensem nisso. De onde você veio Alex? Josué, Doni, Gilberto... O que vocês enfrentaram pra chegar aqui? E você, Mineiro, de onde você veio?” Assim conversou Dunga com os jogadores, e os atletas entre eles, momentos antes da final. Essa história de favoritismo argentino entrou na cabeça dos jogadores. Esse conto de três volantes, de nova era Dunga, incomodou a cabeça do treinador, que entrava na canela dos jornalistas durante as coletivas. E também se dizia que aqueles eram os jogadores “tipo B”... De acordo com o auxiliar-técnico Jorginho, "muito do que foi dito durante a competição mexeu com o grupo. E procuramos aproveitar algumas dessas situações a nosso favor".

Recusa das estrelas, Brasil B, derrota para o México, dependência de Robinho, três volantes contra Equador, seis alívios contra o Chile e o apagão na semifinal. De mãos dadas aos jogadores, cantando o hino, tudo foi levado a campo pelos brasileiros. "Sempre pensávamos em dar o troco, em mostrar dentro de campo o nosso potencial. No dia da partida conversamos muito sobre a nossa história, as nossas origens, e percebemos que ninguém era nada aqui. Tudo o que conseguimos veio sempre com muita luta e esforço, e o jogo contra a Argentina era mais um desafio", contou o zagueiro Alex.

Mas do outro lado estavam eles, os favoritos, argentinos e invictos, com as cinco vitórias e com o jogo cadenciado e efetivo do meio-de-campo. Só que eles não sabiam da batucada atrás do gol de Doni. 34 minutos, uma nova descida de Tévez. Disputa com dois brasileiros, a bola sai de lado, pro meio da área, e sobra limpa nos pés do craque deles. Riquelme, com o pé direito, no canto esquerdo do gol, e Doni se estica pra espalmar. Susto no estádio. Silêncio de um lado. Lamentos de outro. E uma nova batucada breve... Mulatas em pé, samba e merengue, gritos de empolgação, aplausos, e o Brasil de novo em campo.

Até a estranheza de ter dois laterais-direito em campo ajudou o Brasil. "Quando o Elano se contundiu, o mais lógico era colocarmos o Fernando. Mas percebemos que a Argentina tinha uma deficiência pelo lado esquerdo. Então decidimos colocar o Daniel Alves, que nos daria uma boa marcação e muita velocidade naquele setor. Não importa a posição que o jogador está acostumado a atuar, importante é aproveitar ao máximo o potencial de cada um", disse Jorginho ao final do confronto.

Aula de Dunga e sua comissão sobre como ganhar uma partida – um campeonato. Daniel Alves desceu em alta velocidade pela direita e cruzou para dentro da área. Ayala, o capitão deles, apenas derrubou os ânimos de sua seleção. A bola no gol, Abondanzieri com as mãos na cabeça e o zagueiro argentino estirado no chão. Acabava o jogo e a Copa América. Começava a angústia deles e a partida da dupla Josué e Mineiro.


"Aí vem a Argentina, vai começar agora a reação, boa descida de Zanetti, passe para o meio... Mineeeiro tira a pelota...!". "Josué!!!". "Alex!!!". "Maicon!!!". "Juannn". Repetiam insistentemente os radialistas argentinos. "Inacreditável! Inacreditável! Quem imaginou que isso poderia acontecer?" Para os jornalistas argentinos, que mais pareciam torcedores - camisas da seleção, do River e do Boca - era difícil acreditar. Ou narrar a descida de Vágner Love, aos 23 min do segundo tempo, e o gol de Daniel Alves, naquele mesmo lado onde tocava o samba desafinado do primeiro tempo.

Mas já não havia susto no estádio. Fazia agora alegria de um lado e silêncio de outro. O Brasil era campeão da Copa América. E mais uma vez sobre a Argentina.

“Jogar bonito é vencer partidas”, lembrou Dunga durante toda a Copa. Mas ele e os jogadores sabem que, para serem campeões, não basta vencer. Tem que vencer bem. Mostrar superioridade.

Copa América (publicações)

Segue tudo o que publiquei como jornalista da Placar durante a Copa América (além da crônica, aí em cima). Preguiça pra colocar todos os títulos e destaque em negrito para os textos que mais gostei.

Copa América começa hoje
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/062007/062007_468958.shtml

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http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/062007/062007_468957.shtml

Brasil põe torneio em segundo plano
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/062007/062007_468955.shtml

Copa América 2007: apostou, perdeu!
http://placar.abril.com.br/selecao/noticias/062007/062007_469317.shtml

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http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_469803.shtml

Equador: quatro derrotas e plena satisfação
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_469869.shtml

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http://placar.abril.com.br/selecao/noticias/072007/072007_469858.shtml
http://placar.abril.com.br/selecao/noticias/072007/072007_470068.shtml
http://placar.abril.com.br/selecao/noticias/072007/072007_470070.shtml
http://placar.abril.com.br/selecao/noticias/072007/072007_470071.shtml
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_470073.shtml


Chuva e cambistas aguardam a Seleção Brasileira
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_470118.shtml

Vágner Love garante: "Eu não estava pressionado"
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_470171.shtml

Maicon esqueceu a dor contra o Chile
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_470170.shtml

Contra o Uruguai, manter a mesma equipe e descansar
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_470173.shtml

Brasil espera jogo duro contra Uruguai
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_470172.shtml

Descontração e mistério no último treino da Seleção Brasileira
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_471009.shtml

Favoritismo argentino não incomoda o Brasil
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_471011.shtml

Prefeitura de Maracaibo "engana" chavistas com ingressos falsos
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_471143.shtml

Seleção Brasileira lamenta falta de apoio da torcida
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_471140.shtml

Doni: "É o momento mais importante da minha vida"
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_471139.shtml

Riquelme: "Se não fosse a trave e o Doni..."
http://placar.abril.com.br/meiocampo/noticias/072007/072007_471138.shtml

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Pela credencial

..
Kareem me diz:

- Vá até o Comitê Olímpico Venezuelano, perto do estádio Brígido Iriarte, e fala com o Javier Torres. Leva a sua carteira de jornalista que lá te dão a credencial.

Ok Kareem. Obrigado. Fim da chamada, mas não da minha dúvida. Po..., não tenho a tal da carteira. Que fazer?

Falo com o Gian, editor da revista Placar da Abril, e peço uma carta em meu nome dizendo que vou trabalhar pra eles na Copa América. Melhor ser por e-mail, porque, se esperar o serviço postal da Venezuela, a credencial só sai para os próximos Jogos Alba, em Cuba, daqui dois anos.

Um papel de nada, com o símbolo da Placar, meu nome no meio, um número de telefone da redação, meu passaporte e vamos tentar a sorte. As coisas não são assim, eu não vou conseguir. Mas é melhor tentar, quem sabe, penso, penso...

No COB deles:

- Hola, buenas tardes!

- Hola, mi amor, buenas tardes! Te ayudo?

Pronto, era a certeza que eu precisava. Agora sei que vou conseguir. Forço meu castelhano com sotaque brasileiro, que encanta por aqui, e falo bem pausado.

- Mira, soy un periodista brasileño. Quisiera solicitar mi acreditacón para la Copa América.

- Ok, mi amor. De que vehiculo eres?

Eu, com 22 anos, e ela mais jovem que eu. Aliás, muitos jovens ali, quase crianças, atendendo a imprensa toda. Passavam o tempo no msn enquanto não trabalhavam. Mas naquela tarde só estava eu. A Copa América havia começado uma semana antes.

- De la revista Placar. Pero, mira, hay un problema. Yo soy un estudiante, todavía no tengo mi carnet de periodista, sólo una carta de la revista...

- Ah, tranquilo mi amor. No hay problema. Vamos a encontrar una solución por acá...

Meia hora depois eu saía do Comite Olímpico, cercado por oficiais da Guarda Nacional, com a minha credencial da Copa América.

Tenho tido sorte por aqui como jornalista. Certa vez liguei para o Comitê de Trabalho da Copa América e pedi pra falar com alguém sobre o tema. Então me perguntaram:

- Quer falar com o ministro?

..

A vota do blog

Mais de um mês depois do último post, volta a escrever neste blog, o menos habitado da rede. De fato, não deveria falar de mim, mas trazer Caracas, uma vez mais. Enfim, não importa, n4ao tenho muito o que dizer mesmo. Serei breve.

Os jovens, principalmente os jovens jornalistas, e aqueles que gostam e qerem escrever, temos a mania de escrever como velhos. Me deic onta disso nesse instante, lendo o interessante texto de um amigo. (http://interimbelgrado.blogspot.com/). Vendo as palavras que ele usa, parecia ler um velho barbudo, ou um homem de bigode, camisa xadrez, gravata borboleta e cachimbo na mão. Alguma coisa... esteriótipo. Arg, que medo.

Gostei do texto, mas como sei que ele tem 21 anos, senti que faltou. Não o vi nas palavras que ele escolheu. Como fazer pra se mostar nas palavras que a gente escreve? "E aí bróder, como seguem as coisas?" Não, seria ridículo. De qualquer forma, chega dessa mania besta de se esconder atrás das palavras velhas. Talvez o melhor seja produzir imagens, e colocar gente simples pra falar, com muito erro de pronúncia. Mas isso seria pedante.

Enfim, voltou o blog, que segue até meados de agosto, quando está marcado o retorno a Sampa. Caracas cansa, cansou, e já faz tempo. Não é uma cidade maravilhosa, mas demasiado estimulante (opa, expressão velha).

Feliz é o Mainardi, que escreve besteira com as patas e ainda o pagam por isso. (Nossa, eu não devia escrever isso). Isso se chama "preguiça-por-ter-muito-a-fazer-e-não-saber-por-onde-começar".

sábado, 26 de maio de 2007

Fim da concessão à RCTV aumenta segurança em Caracas


Diego Junqueira, de Caracas
(Texto publicado no Terra Magazine: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1644865-EI6580,00.html)

A população de Caracas vive com incerteza e expectativa o fim de semana em que será concretizada a resolução do governo venezuelano contra a emissora RCTV. O temor é que ocorram, nas ruas da capital, ações violentas provocadas tanto por grupos que apóiam o governo quanto por opositores.

No começo da noite de ontem, a sede da emissora Globovisión sofreu uma ação de um grupo de jovens chamado “Coletivo Alexis Vive”, que pichou a fachada da emissora e se auto-qualificou como revolucionário, supostamente de apoio ao governo Chávez. Além da RCTV, a Globovisión também mantém uma postura de oposição ao governo venezuelano. “Quando eu vi que havia um elevado contingente de policias e da Guarda Nacional nas ruas de Caracas, eu me senti mais protegido. Mas isso não foi suficiente pra evitar esse ato de vandalismo.”, afirmou o diretor geral de Globovisión, Alberto Federico Ravell, em entrevista à RCTV. “Não vamos mudar nossa linha editorial porque nos atacam e nos ameaçam ou porque vão fechar a RCTV ”, avisou Ravell.

Dois dias antes, na quarta-feira, a sede da Fedecamaras (Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela, que reúne os empresários do país) sofreu ação semelhante. Além do Coletivo Alexis Vive, participaram desta ação a Frente Nacional Campesina Ezequiel Zamora, a Frente Nacional Comunal Simón Bolívar e a Coordenação Simón Bolívar, grupos que apóiam o governo venezuelano. Fedecamaras foi uma das instituições que, em abril de 2002, participou do Golpe de Estado que manteve Chávez fora do poder por 48 horas.

Entrevistado na noite de ontem pelo canal estatal VTV, o ministro de Comunicação e Informação, William Lara, informou que o governo venezuelano repudia ações anti-democráticas como as que foram executadas contra a sede da Globovisón. “Não há justificativa para que alguém, por mais vanguardista e revolucionário que se declare, tome atitudes anarquistas. Na prática, essas ações coincidem com as estratégias de grupos internos e externos de extrema-direita que pretendem desestabilizar a vida política venezuelana”, relatou o ministro. “O resultado disso é que esses setores reforçam sua campanha midiática de promoção do temor coletivo. Ocorre, então, compras nervosas nos supermercados, angústias nas ruas e medo na população. O temor não tem fundamento real, mas pode se propagar com esse tipo de ação”, completou.

O ministro William Lara garantiu ainda que, durante este final de semana, e “até que esses grupos desestabilizadores entendam que na Venezuela predomina a paz”, todas as emissoras de rádio e TV da capital, além da sede de todos os jornais, serão resguardadas por corpos policiais. Nessa sexta-feira, centenas de militares e policiais podiam ser vistos nas ruas de Caracas.

Desde terça-feira, cerca de seis policiais metropolitanos estão posicionados em frente à sede da RCTV, munidos com um carro e um camburão. A emissora trabalha seus últimos dias de transmissão em sinal aberta com a sua porta de entrada fechada até a metade (um portão metálico que corre de cima para baixo). Segundo um dos vigilantes da RCTV, a medida “é uma ação preventiva contra um possível ataque dos chavistas”. O funcionário informou ainda que, apesar da tranqüilidade que marcou os últimos dias, os seguranças da emissora vivem a expectativa de alguma ação no local durante o fim de semana.

Rebelião
O jornal caraquenho Últimas Notícias publicou ontem uma reportagem na qual denunciava que transmissões da Polícia Metropolitana foram interrompidas durante a última quarta-feira. De acordo com o diário, a mensagem, transmitida por trinta minutos, convocava uma rebelião e sugeria aos policiais que não atuassem contra manifestantes a favor de RCTV. A reportagem é baseada em “fontes extra-oficiais”, já que o diretor da Polícia Metropolitana, general Juan Romero Figueroa, apesar de ter admitido a interferência nas transmissões, não divulgou o seu conteúdo.

“Há grupos de extrema-direita que estão publicando pela internet ameaças contra o governo, distribuindo panfletos que não reconhecem a legitimidade do presidente e que convocam uma ação violenta nesse contexto de não renovar a concessão à RCTV”, disse o ministro William Lara. No último sábado, durante a marcha convocada pela oposição contra a medida do presidente Chávez, foram distribuídos panfletos assinados pelo grupo “Junta Patriótica” que convocavam uma rebelião.

De acordo com o panfleto – que além de ser entregue em mãos era também lançado para o alto – “Na presidência da República há um usurpador, ilegal e ilegítimo. Na Venezuela ameaçada não há saída eleitoral!!!”. E mais adiante: “a saída é a rebelião. Preparem-se para a luta. No dia 26 arranca a definição: ditadura ou democracia?”.

Na manhã deste sábado, 26, ocorreu, nas ruas de Caracas, mais uma das marchas a favor de RCTV. O destino da protesta foi a sede da emissora, onde um palco estava montado para discursos de artistas e jornalistas. Concluída por volta das três horas da tarde, a RCTV e a Globovisón informaram que nenhum incidente foi registrado durante a manifestação. Já a Agência Bolivariana de Notícias informou que um cinegrafista do canal estatal VTV foi agredido com “um chute no traseiro” por algum dos manifestantes, além de uma tentativa de tomar o microfone da emissora.

Em um discurso transmitido nesta sexta-feira em cadeia nacional de rádio e TV, o presidente venezuelano Hugo Chávez afirmou que, se houver qualquer tentativa da oposição de promover a desordem na capital venezuelana, ocorrerá “uma contundente e rápida resposta da força militar venezuelana”. Chávez afirmou também que dificilmente existe um país no mundo com maior liberdade de expressão que Venezuela.

Em traje militar, o discurso foi realizado em uma base áerea na cidade de Barcelona, na região oriental do país, com desfile dos novos aviões que o país comprou do governo russo. De acordo com a Agência Bolivariana de Notícias, o governo venezuelano concretizou em julho passado a compra de 24 aviões e 53 helicópteros, num investimento próximo à 3 bilhões de dólares.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Habemus Copa América

Enquanto alguns amigos me enviam mensagens dizendo: "Cuidado porque há rumores sobre estado de sítio",

enquanto a History Chanel realiza um documentário sobre a insegurança no país, na Plaza Brión de Caracas, convidando os jovens para falar sobre o assunto,

enquanto meios de comunicação ligados ao governo apresentam documentos e páginas web que indicam que setores da oposição convocam para uma rebelião neste fim de semana,

a seleção vinotinto (como é conhecida a seleção local) se prepara para o amistoso de hoje à noite contra Honduras. A mesma Plaza Brión, em Chacaíto, começa a armar, pelo quarto fim de semana consecutivo, seu evento promocional da Copa américa. Nas bancas de vendedores ambulantes, Ernesto Guevara e Chávez compartem o espaço com o evento futebolístico.

Foi como me declarou, semana passada, o ministro do Esportes da Venezuela, Eduardo Álvarez: "O esporte permite uma paz social".

Cadeia nacional. Universidades socialistas

Por meio de cadeia nacional de rádio e televisão na noite de ontem, o presidente venezuelano anunciou mudanças no sistema universitário do país. As principais alterações são o fim da Prova de aptidão (uma espécie de Enem local, coordenado pelo Ministério da Educação), além das provas internas de admissão, produzidas pelas próprias instituições.

No entanto, mais uma vez o discurso presidencial foi marcado pela imprecisão. A medida se aplica apenas às universidades públicas? E de que forma, então, os estudantes serão admitidos nas universidades?

Uma parcela da comunidade acadêmica vem acusando o presidente Chávez de pressionar as instituições públicas para que admitam a maior parte dos estudantes que solicitem o ingresso universitário.

Livro Branco sobre RCTV nas ruas

Um documentário baseado no "Livro Branco sobre RCTV" - produzido pelo Ministério do Poder Popular para a Comunicação e Informação com as justificativas do governo venezuelano para não renovar a concessão da RCTV - está sendo reproduzido em alguns pontos de Caracas. Em Bellas Artes, por exemplo, em frente ao Ateneo de Caracas, foi estacionado um pequeno caminhão (próximo a um semáforo) com um telão de aproximadamente 3x2 metros no qual se transmitia o documentário. Para os motoristas que eram detidos pelo semáforo, era impossível não ouvir e ver pelo menos alguma parte do vídeo.

O pdf do livro pode ser encontrado no seguinte link.

http://archivos.minci.gob.ve/doc/libro_blanco_RCTV-Web.pdf

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Balança RCTV

Emissora golpista clama por liberdade de expressão para evitar retaliação política do governo

A RCTV é uma emissora golpista. E quem pode negar?

O que lhes parece quando uma emissora atenta ao Estado de direito, motivando a população a sair às ruas não para fazer pressão social, o que seria totalmente justificado, mas, sim, para promover uma marcha em direção ao palácio do governo, em direção a uma sabida concentração opositora (em prol do governo, então), com os dizeres na tela: "Nem um passo atrás!!!". Nem um passo atrás o quê? Qualquer gota de responsabilidade sugeriria dizer: "Marcha opositora protesta contra o governo". Ou, se quisessem manipular um pouco a coisa, poderiam dizer: "Povo venezuelano pede a renúncia de Chávez". Não, eles resolveram incitar, promover a desordem, pisotear a legitimidade de um presidente eleito e conclamar o povo para uma batalha, que horas mais tarde contaria com 19 mortos (em ambos lados). Ok, não quer reconhecer o governo, te parece que é o mais corrupto de todos, que a população vive pior, que as missões do atual governo para nada sirvem. Ok, pense o que quiser, mas é inconstitucional abusar de um poder midiático concedido pelo Estado para provocar um estado de desordem. Quer defender seus interesses por saídas inconstitucionais, então escreva um jornal clandestino, conspire, siga para a guerrilha, alie-se aos militares (aliás, isso eles fizeram). Há muitos caminhos ilegais quando se quer levar adiante anseios ilegais.

Todos esse fatos se referem aos breves dias do Golpe de Abril de 2002, quando a oposição venezuelana tomou o Palácio de Miraflores, rasgou a constituição e empossou um novo presidente, Pedro Carmona (Ah, que coincidência, o presidente da Fedecamarás, organização dos empresários venezuelanos).

Essas evidências bastariam para acusar ao canal 2, RCTV. Assim mesmo, a lista é muito grande, como mensagens subliminares em filmes transmitidos pela emissora. A RCTV chegou a insertar um frame de uma propaganda política (ou melhor, uma incitação pública) que convocava à greve geral do final de 2002.

Além disso, há uma série de razões que apontam à péssima programação da emissora, com desenhos infantis bestializantes, séries e novelas que retratam apenas o "lado silicone" da Venezuela - se é que me entendem - propagando preconceitos de classe, cor, credo, gênero...

No entanto,
No entanto,
No entanto,

a não renovação da concessão à RCTV é um caso de retaliação política. E quem pode negar?

E mesmo sem utilizar a palavra "liberdade" é possível explicar.

Em Abril de 2002, durante todos acontecimentos descritos acima, RCTV não atuou sozinha. Outros quatros canais privados de transmissão aberta também atuaram de acordo com o cronograma da oposição. Além de RCTV, Globovisión, Televen e Venevisión. Com essas evidências, por que o tratamento especial à RCTV? Vão passar a mão na cabeça dos outros? E se RCTV infringiu gravemente à constituição, por que esperaram o fim da concessão em vez de optar pela via judicial?

Vale lembrar que, das quatro emissoras, Televen e Venevisión já estão mansinhas, pró governo. Mas, o que acontecerá com Globovisión?

Uma informação que ainda não pude confirmar: a concessão da Venevisión, que também vencia este ano, foi renovada por apenas um ano mais. Por que renovou pra uma e pra outra não, se há argumentos que as comprometem por igual (ou quase igual)? Começaram a bailar conforme...? Vale dizer também que o proprietário de Venevisión é, como diz um amigo, "dono de meia venezuela": o empresário Gustavo Cisneros. Um homem assim precisa agir com cautela.

A grande confusão no caso RCTV é que os argumentos pesam demais nos dois lados da balança. Enquanto no mundo se difunde a "boca fechada", o atentado à liberdade de expressão e a posterior derrocada da democracia venezuela, internamente, o país, o governo, os movimentos sociais, os consejos comunales, e o restante dos 60% de venezuelanos que votaram por Chávez em dezembro, todos (ou melhor, a parcela ativa e participativa deles) discute o acesso à comunicação como a via legítima para a liberdade de expressão. E quem tem a razão? Um canal golpista e bélico ou um governo centralizador e bélico?

E o que é liberdade de expressão? Cada um dizer o que pensa, ou cada um ter a oportunidade para dizer o que pensa?

É claro que as duas opções não são excludentes. Mas, na Venezuela de hoje, ninguém se senta para discutir isso.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Meios de comunicação: público, privado, estatal, RCTV, justiça social




Talvez superasse os três quilômetros. Mas, em verdade, o que os separava eram apenas quatro estações de metrô

Na avenida Francisco de Miranda, no último sábado, em Caracas, reuniu-se a marcha que gritava contra a decisão do governo Chávez de não renovar a concessão da emissora RCTV.

A protesta partiu, por volta das 11h, de quatro pontos distintos da cidade. Segundo alguns meios de comunicação do país (Globovisión, El Universal), alguns participantes que vieram de outras cidades tiveram dificuldades para entrar em Caracas, pois foram barrados em alguns postos policiais nas primeiras horas da manhã.

Apesar desses impedimentos, a marcha prosseguiu rumo à Chacaíto, próximo ao centro da capital venezuelana, levando pelas ruas da cidade um grito pela “liberdade de expressão”. À medida que se aproxima o 27 de maio (data final da licença para RCTV), a oposição venezuelana preconiza o fim da democracia no país ao amanhecer de 28 de maio.

Falta então menos de uma semana.

As últimas pesquisas de consulta popular divulgadas no país sobre o tema RCTV indicaram que 80% dos venezuelanos reprovam a medida de Chávez. Particularmente não me deparei com nenhuma manifestação oficial do governo sobre tais consultas. No entanto, alguns simpatizantes da revolução, que vez ou outra surgem com declarações por rádio, jornal ou TV, logicamente questionaram a cifra. A disputa midiática que vive o país mantém a credibilidade distante de qualquer produtor de informação. A oposição e alguns meios de comunicação não acreditam nos números divulgados pelo governo. Este, por sua parte, desconfia de qualquer pesquisa realizada por uma empresa privada. E assim se construi uma grande interrogação.

Saber se o povo venezuelano, em sua totalidade, apóia ou não a medida do presidente Chávez é uma dúvida que dificilmente será solucionada, ante uma batalha midiática travada a cada segundo no espaço público (e faz-se necessário dizer isso, porque a batalha ocorre na tv aberta, nas rádios, nos jornais, nas revistas, nos outdoors, nos grafites que inundam a cidade, nos ônibus, nas camisetas, bonés, faixas...). No entanto, mais importante do que discutir isso, é preciso saber para que serviu a protesta de sábado, que aconteceu com absoluta normalidade, sem novidades e com o mesmo discurso que há meses difunde a oposição. Serviu para mostrar a vontade popular? Formar consciência? Agitar os brios da população? Desestabilizar o cenário politico?

800 mil pessoas?
Antonio Ledezma, membro do Comando Nacional de Resistência e presidente do partido de oposição “Aliança Bravo Povo”, declarou na manhã de domingo, em uma coletiva de imprensa transmitida ao vivo pela Globovisión, que cerca de 800 mil pessoas participaram da marcha, “descendo dos morros, dos apartamentos, dos condomínios fechados...”. Como um desses milhares que presenciou a marcha, e sem nenhuma experiência no assunto, eu poderia "imprecisar" que 20, 30, 40 ou 50 mil participaram. A cifra 800 mil é mais uma das balas (ou mortos) da luta midiática.

Quem se destacou na marcha foram funcionários da emissora, artistas e jornalistas, estudantes de comunicação de universidades privadas, políticos e militantes de diversos partidos e organizações politicas. A atitude de declarar um número como 800 mil revela os objetivos da manifestação. Primeiro, construir uma verdade em que se evidenciaria a opinião do povo venezuelano. Segundo, produzir imagens suntuosas para serem distribuídas em meios de comunicação de todo o mundo. É nesse mesmo sentido que se divulgou ontem "o maior cartaz do mundo", com mais de um km de extensão, como afirmou os organizadores. O cartaz dizia "SOS - Liberdade de Expressão". Vale recordar que, apesar do apoio recebido de organizações de jornalistas de diversos países, entidades como o parlamento europeu e a OEA já declararam que não irão intervir no assunto RCTV, pois, segundo ambos, a decisão é de responsabilidade única do Estado venezuelano.

Além disso, semana passada, o Supremo Tribunal de Justiça venezuelano declarou inadmissível um amparo constitucional solicitado por Marcel Granier, presidente de RCTV, em 9 de fevereiro deste ano. De acordo com a constituição venezuelana, os amparos constitucionais devem tramitar com ordem de preferência no Supremo tribunal de Justiça (artigo 27). Apesar dos quase quatro meses que se necessitou para produzir uma resposta, O Supremo Tribunal informou que tudo referente ao caso RCTV deve ser resolvido pela Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel). Ainda que exista outro amparo tramitando no tribunal, a decisão diluiu uma das únicas esperanças que a emissora mantinha para manter sob seu comando uma das faixas do espectro radioelétrico.

Golpe?
Para a oposição, sem um projeto político alternativo para o país e desvinculado das bases sociais, a RCTV se tornou a única bandeira para lutarem pelo país que desejam, fomentado ainda mais seu desejo supremo: ver uma Venezuela livre de Chávez.

No último sábado, quando a marcha já estava concentrada em Chacaíto, ante um palco repleto de líderes políticos da oposição, militantes da Junta Patriótica distribuíam entre os participantes um simples comunicado que ocupava a terça parte de uma folha A4.

Sem nenhum símbolo de partido ou organização política, apenas assinado pela Junta Patriótica (uma das organizações de resistência contra o presidente Chávez), o comunicado dizia: “Na presidência da República há um usurpador, ilegal e ilegítimo. Na Venezuela ameaçada, não há saída eleitoral!!!”. E mais adiante: “... a saída é a rebelião. Preparem-se para a luta. No dia 26 arranca a definição: ditadura ou democarcia?”. Para a data, no próximo sábado, está marcada mais uma marcha a favor da RCTV, com o destino final na sede da emissora, em Quinta Crespo.

Quatro estações dali
Em Bellas Artes, no Teatro Teresa Carreño, quatro estações de metrô distante da marcha, se iniciava naquela mesma manhã de sábado o evento “Jornadas Internacionais – o direito cidadão de informar e ser informado”, organizado pela emissora Telesur, cujo principal financiador é o governo venezuelano.

O encontro contou com a participação de intelectuais e jornalistas como o francês Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique, o ator americano Danny Gloover, o minstro de Cultura cubano, Abel Prieto, a correspondente da Al Jazeera em Caracas, Dima Khatib, o escritor britânico-pasquitanês Tariq Ali, e o secretário brasileiro de audiovisual, Orlando Senna, entre outros.

Parecia um outro país. A partir do estímulo a plataformas populares de expressão (principalmente rádios, jornais e tvs comunitárias e públicas, além de produtoras independentes de cinema), o discurso do evento se baseava no poder de justiça social que possibiltam os meios de comunicação. Durante todo o encontro foi exaltada a medida do presidente Chávez de não renovar a licença da RCTV. A principal acusação conta a emissora é a de ter participado do Golpe de 11 de abril de 2002 (que manteve Chávez por 48 horas fora do poder), além de ter fomentado a greve geral (mais conhecida como “paro petrolero”) no final de 2002 e início de 2003.

"O governo venezuelano decidiu manejar constitucionalmente o espaço radioelétrico. Isso é um fato inédito, porque jamais foi utilizado por nenhum de nossos governos", afirmou Orlando Senna, secretário do Audiovisual do Minstério da Cultura do Brasil.

O poder dos meios de comunicação foi ressaltado pelo diretor do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, para quem "a informação e a comunicação é uma matriz estratégica que permite a acumulação de beneficios". Segundo Ramonet, a comunicação é a ferramenta utilizada para convencer os povos de todo o mundo de que os efeitos da globalização são normais e positivos. "É pela comunicação que se transmite a idéia de que o âmbito econômico deve ser protagônico sobre o político."

De acordo com o advogado espanhol Ángel García Castillejo, conselheiro da Comissão de Mercado de Telecomunicações na Espanha, "o direito à comunicação está muito mais além da liberdade de expressão". Mas onde estavam os jornalistas que particpavam da marcha? Ou aqueles estudantes de comunicação? Em que palco houve qualquer discussão entre os pólos que pensam o país?

Não houve debate naquele sábado, típico sábado carquenho, com sua incessante guerra midiática. Eram dois países distintos, com demandas que se assemelham, mas que partem de propósitos distintos. Dois países divindo algumas faixas do espectro radioelétrico, dividos por quatro estações de metrô e sem nenhum ponto de encontro.

Concentração final na av. Francisco de Miranda




Marcha a favor de RCTV. Caracas, sábado, 19 de maio.

Recados para o presidente



Marcha a favor de RCTV. Caracas, sábado, 19 de maio.

Manuel Rosales


Antes de inciar a marcha. Manuel Rosales, governador do estado Zulia e presidente do partido Un Nuevo Tiempo. Concorreu com Chávez as eleições presidenciais de dezembro passado.


Marcha a favor de RCTV. Caracas, sábado, 19 de maio.

Chávez e o leão de RCTV



Marcha a favor de RCTV. Caracas, sábado, 19 de maio.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Chávez sobre RCTV



Aí está a capa do livro.

Na terça, Chávez declarou o seguinte: "Não é uma questão política, mas, sim, um problema moral. Essa emissora incrementou o bombardeio mediático, a violência, o racismo, , o desrespeito à mulher, à criança, às pessoas com deficiência, aos homossexuais, ao país e ao mundo".

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Livro Branco sobre RCTV

A última folha do livro diz: "A venda deste livro é um ato contra-revolucionário". O livro só pode ser distribuído gratuitamente.

Em castelhano, o título é Libro Blanco sobre RCTV. Mas a tradução para o português peca por causa do significado da palavra "blanco". Além de branco, "blanco" também pode ser traduzido por alvo.

Uma capa branca, o título, e uma televisãozinha no pé da capa, sintonizada fora do ar, e com o logo da RCTV. O Livro Branco sobre RCTV foi produzido pelo Ministério do Poder Popular para a Comunicação e Informação, e procura apresentar as justificativas do governo venezuelano para não renovar a concessão da RCTV.

O arquivo pdf do livro se encontra nas páginas oficiais de alguns ministérios, como o já citado acima, ou o Ministério de Energia e Petróleo, ou ainda o Instituto Nacional de Esportes.

Seguem alguns desses links:

http://archivos.minci.gob.ve/doc/libro_blanco_RCTV-Web.pdf

http://www.ind.gob.ve/docs/libro_blanco.pdf

http://www.mem.gob.ve/pubdocs/libro-blanco-rctv-web.pdf

Estado, Governo e Partido

"Não podem dizer que não querem se somar ao PSUV, mas que apóiam ao governo. Aquele que está contra o PSUV está contra Chávez, e isso devem saber os dirigentes dos outros partidos".

Foi o que disse Chávez, no último sábado, 5, em coletiva de imprensa sobre o Paritdo Socialista Unido de Venezuela (PSUV). Neste fim de semana, na Grande Caracas, ocorreram as inscrições para aspirantes a membros do PSUV. Com uma captadora de digitais do CNE (Conselho Nacional Eleitoral), segundo informou El Nacional, Chávez inscreveu-se no bairro 23 de Enero.

O recado do comandante atingia principalmente os partidos PPT (Pátria Para Todos), PCV (Partido Comunista de Venezuela) e Podemos (Pela Democracia Social). Aliados da revolução, esses três partidos mantêm discursos não-favoráveis (ainda que inconclusos) quanto suas adesões ao PSUV. Este cenário obrigou muitos políticos de PPT, Podemos e PCV a desligarem-se dos partidos e confirmarem que migrarão para o quadro governamental, assim que se conforme o partido, prometido para o final do ano.

Chávez foi muito claro: não basta apoiar, tem que participar, estar do lado, colado, ou melhor, embaixo, sob a mão grande dessa figura que vem se construindo como uma mescla de Estado, Governo e Partido. E que leva a voz do comandante.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Viva o rio Madeira Vivo

O documento "Cenario Tendencial", da ONG Viva o Rio Madeira Vivo, discute possíveis cenários para o rio Madeira com o projeto de construção de duas usinas hidroelétricas, do consórcio Furnas-Odebrecht.

www.riomadeiravivo.org/cenario.htm

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Ícaro

"Un hombre no es un pájaro, y debe soportar la ruindad de estar preso a la tierra como un ángel al cielo". Wilfredo Machado.

"Ícaro", escultura de Felipe Herrera.

Parque Los Caobos, Bellas Artes, Caracas.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Detalhes da concentração em Miraflores

I
Para se aproximar do palco, onde estavam Chávez e seus ministros, era preciso vencer uma barreira de grades e arame farpado, montada a cerca de 200 metros do palco. Havia apenas um lugar onde era possível sair e entrar. Houve diversos momentos de tensão, pois as pessoas se aglomeravam, empurravam-se, gritavam. Para entrar, 2 guardas (ou organizadores, porque estavam vestidos de civis) vasculhavam mochilas e bolsas, mas sem muito afinco. Passado isso, já não havia uma multidão desesperada, mas alguns vazios e tranqüilidade. Não havia bêbados... havia, havia sim. Não havia era cerveja... lembrando bem, havia também... De qualquer forma, tudo era mais tranqüilo. A imprensa estava aí (estrangeiros e a imprensa oficial), as participantes do Congresso de Mulheres sentadas bem aí ao lado, o presidente num palco enorme, há cinqüenta metros, e, antes disso, um cordão de militares, muitos militares, jovens em sua maioria, cerca de 200, que não se via lá de trás.

Quanto mais se aproxima da revolução, de verde-oliva ela se pinta.


II
Há mais camisetas de Chávez sendo vendidas que de Che.

A revolução é midiática (II)





11 de abril de 2007, quarta-feira:

Enquanto as emissoras de TV preparavam seus programas especiais sobre os eventos de abril de 2002 (com destaque para o documentário da Globovisión), o ministério de comunicação e informação entrou em cadeia nacional de rádio e televisão. Era por volta das 20 horas quando Chávez começou o seu discurso, de dentro de Miraflores, em sue gabinete de trabalho. A primeira imagem trazia o comandante e uma imagem de Jesus Cristo, pregado na Cruz e na parede do palácio. Chávez então começou a mostrar todos os quadros que estavam por ali, os libertadores da pátria (atrás de sua mesa de trabalho o quadro traz a imagem de Simón Bolívar), e falou de portas, das muitas portas que havia ali, e de como foi que saíram antigos presidentes da Venezuela, desde antigos ditadores, expulsos pelo povo ou por golpes de estado.

Depois se sentou, houve uma conversa fora do palácio com alguns ministros-personagens de abril de 2002, e só então o comandante começou a falar para a sua platéia de ministros, governadores, prefeitos... como se fosse o Aló, Presidente de domingo.

Isso seguiu até às onze e meia da noite, aproximadamente.

A Globovisión voltou ao ar com o seu telejornal noturno. As chamadas surgiram assim:
- Enquanto o presidente Chávez discursava, você não pode ver o espetacular home run do venezuelano Fulano de Tal, há poucos instantes, na Grande Liga norte-americana de beisebol. Você também não pode ver... Você também não pode ver... E você também não pode ver o nosso especial sobre abril de 2002. Mas isso você assiste agora!

E acabou o telejornal e começou o documentário (que seria repetido, pelo que presenciei, umas 6 vezes até o final da semana).






13 de abril de 2007, sexta-feira:

Todo 11 tem seu 13.

Com este pensamento (amplamente difundido pela publicidade estatal) o governo convocou para 13 de abril uma concentração em Miraflores, para celebrar os cinco anos em que o povo trouxe seu comandante de volta ao poder.

Depois do horário de almoço, o metrô de Caracas levantou as catracas. Ninguém pagou para usar o metrô naquelas horas, até o fim do expediente, às onze da noite. O caminho para a estação Capitólio estava repleta de rojo-rojitos, com seus bonés e o “Todo 11 tem seu 13”. Aqueles que não tiveram tempo para ganhar uma camisa levavam outras, mais velhas, de outras concentrações, com um rojo-rojito aguado.

Estação por estação, muitos dos "manifestantes" que entravam acabavam de sair do trabalho. Os cartões das empresas ainda estavam pendurados no pescoço. As fitas mostravam: Metrô, Fontur, Pdvsa... todas empresas do governo. Já na região de Miraflores, outras credenciais, camisetas e bonés indicavam a procedência da maioria dos “manifestantes”: Unefa, Pequiven, Seniat, Hospital Cardiológico Infantil... Muitos admitem que são obrigados a participar das convocações. Mas todos têm os seus truques. Saem juntos do trabalho, ficam um tempo juntos na concentração, tiram uma foto com o chefe e, sem que ninguém perceba, dão no pé.

A praça Bolívar era uma festa. Ônibus de turismo estacionados nas redondezas trouxeram muitos "manifestantes” de outras cidades: Valencia, Maracaibo, Barquisimeto... Ali, flashes e mais flashes, fotos, para muitos, felizes da vida, que pela primeira vez vinham a Caracas, ou a Miraflores ou à praça Bolívar, com a enorme escultura de seu libertador, de 4 ou 5 metros de altura, montado num cavalo.

Naquela mesma semana havia se realizado em Caracas o Congresso Mundial de Mulheres. E elas, participantes do congresso, também estavam ali. Marcharam até Miraflores carregando a bandeira de seus países. Foi onde conheci algumas brasileiras, que encabeçavam aquela pequena marcha com uma bandeira do Brasil. Algumas do MLST de SP e PE, outras de organizações de mulheres. As do MLST souberam que iam pra Caracas uma semana antes do Congresso de Mulheres. Algumas brasileiras afirmam que foi tudo pago pelo governo venezuelano. Outras são mais diplomáticas, e dizem que as despesas são assumidas por todos os governos. Hospedagem: Hilton Caracas (diária mais baixa: 135 dólares) e Gran Meliá (195 dólares). As mulheres assistiram ao discurso de Chávez de dentro de Miraflores, sentadas, muito próximas ao presidente.

O comandante chegou por volta das cinco da tarde, entoando o hino nacional, cantado por todos ali, e talvez por outros mais, em distintos lugares do país, já que uma vez mais foi convocada a transmissão em cadeia nacional. E assim seguiram às quatro horas seguintes.




Foto: Luis Laya/Ministerio del Poder Popular para la Comunicación y la Información

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Vestidos de Venezuela


Foto oficial da V Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Alternativa Bolivariana para os Povos da América (Alba), realizada na cidade de Barquisimeto, Venezuela. Além dos presidentes dos quatro países membros da Alba (Bolívia, Cuba, Nicarágua e Venezuela), a Cúpula recebeu o presidente do Haití, a chanceler do Equador, e ministros de Uruguai, Dominica, São Cristóvão e Neves e São Vicente e Granadas.

Declaração final da V Cúpula ALBA: http://www.aporrea.org/actualidad/n94099.html

Fonte: Agência Bolivariana de Notícias (ABN)

A revolução é midiática (I)

Dez dias sem escrever uma linha sequer sobre Venezuela criam dúvidas demais na cabeça. A cada dia a revolução se intensifica, e acompanhá-la só não é quase impossível porque é impossível. Mas, enfim, foram nesses dias que eu comecei a entender a revolução bolivariana. Bolivariana?

Este mês de abril marca o início de marchas que vão culminar no final do próximo mês, precisamente no dia 27 de maio, quando o governo vai fechar a RCTV. Mas alguns podem dizer que há um mal entendido aqui: não é fechar, mas exercer de forma soberana o libre direito de não renovar a concessão. A revolução é justamente isso: impor uma versão da verdade.

Foi-se o tempo em que a sociedade civil venezuelana discutia propostas para o país. Talvez isso tenha acabado em 1999, quando a elaboração da Constituição bolivariana criou um momento mágico de união e concordância no país. Hoje, o povo (el pueblo, a todo instante mencionado por Chávez) e a maioria dos movimentos sociais aceitam tudo o que diz a mão do governo. Organizam-se em Consejos Comunales, participam das missões (muitas delas exitosas), em marchas... e desgostam/gostam do etanol, assim, dependendo do momento.

Criticar...? O que é crítica mesmo? Tudo é lindo, meu bem, nesse país... ou melhor, tudo está ficando lindo... temos muito é que trabalhar (o máximo de crítica).

Do outro lado está a oposição com voz, essa que detém o apoio dos meios de comunicação restantes. Desesperados, porque não sabem o que fazer sendo oposição, porque nunca foram oposição, porque o jogo sempre foi a seu favor, e mais desesperados ainda, porque a situação de hoje é verde-oliva com boina vermelha, e quer passar a mão em tudo.

Desesperados, essa oposição apresenta apenas uma estratégia: sair de Chávez. Além de lutar também pela permanência da RCTV.

Discutir o país? O que é discutir um país e elaborar propostas e soluções? O que faz essa oposição é brigar com o governo, contra essa mão grande.

A diferença dessa oposição é o fato de possuir voz.

E assim se monta o palco da revolução, onde ocorre a guerrilha de ambas as partes, onde se ouvem os tiros. O sangue está principalmente nos pixels que chega a mais de 90% das casas venezuelanas.

Quem gritar mais alto ganha.

E quem não gritar não é escutado. Ou melhor, nem existe. Nem vai existir.


(Texto publicado em 23/04/07)

No Brasil, o céu e o inferno venezuelano

Não tenho muito tempo para este texto, que não é jornalístico, mas um comentário. Hoje, 13 de abril, recorda-se 5 anos da volta de Chávez ao poder, depois do que aconteceu em 11 de abril. Há uma convocatória para que as pessoas para o Palácio de Miraflores, "en horas de la tarde", como diz o site da Aporrea. Assim, perdão pelo texto corrido.

Era difícil, no Brasil, ter informações confiáveis sobre a Venezuela. Aí só se fala de aqui como o céu e o inferno. De fato, a polarização política na Venezuela é radical. "Bolivarianos y escuálidos", como dizem os chavistas. "Marginales y democráticos", como dizem os anti-chavistas. Assim mesmo, não passeia por Miraflores ou pela sede da RCTV nenhum Deus ou Diabo. Os dois andam juntos e estão por toda parte.

Recebi hoje um e-mail do meu amigo Roberto de Martin com o link para uma reportagem (reportagem não, reprodução de notícia) do site Comunique-se. Aí segue.

http://www.comunique-se.com.br/index.asp?p=Conteudo/NewsShow.asp&p2=idnot%3D35655%26Editoria%3D8%26Op2%3D1%26Op3%3D0%26pid%3D20221124401%26fnt%3Dfntnl

O que me chamou a atenção foram os comentários. E talvez seja algo que gostaria de escrever lá que eu vou escrever aqui.

Sobre RCTV não se pode dscutir sem falar de abril de 2002, quando surgiram dos perguntas: Foi golpe ou não? Renunciou ou não? A lembrar:

11 de abril: duas marchas nas ruas, oposição e oficialistas. A da oposição queria chegar a Miraflores. A oficilista estava no meio do caminho. A guarda nacional (chavista) e a polícia metropolitana (da prefeitura opositora de então) deviam fazer a segurança de todos. Diversos confrontos, 19 mortos. Quem começou?, quem atirou? Há imagens apontando os dois lados.

O que fez RCTV? Duarante todo o dia passava imagens da marcha com uma faixa na tela: "Ni un paso atrás". Isso é política, amigos. Isso não é se meter em política (como devemos fazer todos os cidadãos), isso é fazer política. Isso é incitar o povo contra um poder constituído.

Golpe de Estado ou não?

Sobre a noite, há imagens de Chávez saindo de Miraflores, assim, escoltado, mas não algemado. Ele diz que estava sendo sequestrado. A oposição diz que ele assinou a renúncia, mas esse papel nunca surgiu.

12 de abril: A oposição enlouqueceu nesse dia. Se tinham a tese da renúncia, quem deveria entrar no poder era o vice-presidente, para convocar novas eleições. Mas não, a oposição destituiu tudo, mudou o nome do país, aboliu a constituição aprovada dois anos antes... E colocou o empresário Pedro Carmona como presidente (hoje exilado na Colômbia).

O que fez a RCTV? Transmitiu tudo.
Na época o governo controlava apenas uma emissora Estatal, a Venezolana de Televisión, canal 8. Mas essa foi ocupada pela oposição no dia anterior. Restaram então outros quatro canais: RCTV, Venevisión, Televen e Globovisíon. As quatro faziam o jogo da oposição.

Chávez estava numa ilha venezuelana. Iam extraditá-lo para Cuba, os militares opositores, mas não o fizeram.

Houve perseguições a políticos chavistas.

13 de abril: A partir da madrugada os chavistas voltam a ocupar as ruas de novo. Que foi que aconteceu ontem? Carmona presidente? Não havia nada mais incostitucional. E dale povo saindo às ruas.

O que fez RCTV e as outras emissoras? Passaram filmes e desenhos durante todo o dia. Não transmitiram uma imagem sequer. A ordem era não passar nada sobre Chávez. Queriam abafar a mobilização porque

A mobilização foi feita boca a boca, celular... qualquer coisa. Havia muitos jornalistas estrangeiros nas ruas. E era com esses que os chavistas conversavam.

Pouco a pouco foram se unindo, aproximando-se de Miraflores. Retomaram o canal 8. Os partidários do presidente foram resurgindo, foram ao canal, foram às ruas, exigiram a volta do prediente. O número crescia. Chávez diz que houve mais de cinco milhões nas ruas de Caracas. Isso é impossível. Não há imagens nem depoimentos que confirmam.

Enfim, pediam a volta do presidente. Diziam que não havia ocorrido a renúncia. O documento nunca apareceu. Carmona e seus amigos, que tomaram o poder por pouco mais de 24 horas, fugiram de Miraflores. Os chavistas retomaram o palácio e colocaram o vice de então como presidente. Há imagens disso, do juramento e tudo. (Isso corrobora a idéia de que houve renúncia de Chávez, mas o documento nunca apareceu...)

E como gosta de dizer Chávez, à noite voltava ele à Miraflores, trazido pelas mãos do povo. E isso nem a oposição nega.

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Depois disso e até hoje: Venevisión e Televen se tornaram chavistas. RCTV será fechada (e será). Globovisión será o único canal de oposição (sua concessão se encerra mais ou menos em 2014). E surgiram os canais estatais ViveTV (que a partir deste mês tbm será transmitido na europa. Este é um canal mais cultural) e Telesur (que não era um canal aberto para os venezuelanos até fevereiro deste ano).

Como estamos nesses dias de abril, há uma maratona de vídeos nas emissoras, tanto estatales como de oposição. Foi vendo um pouco de tudo, e conversando com alguns amigos venezuelanos (chavistas ou não) que escrevi isso.

O problema com fechar a RCTV é que o governo não apresenta razão jurídica. Não há provas de ilegalidade. Há razões políticas, onde se consome a censura.

Há que escrever mais sobre isso, mas a tarde já avança. Esse, na verdade, é o país das marchas. Hoje em Miraflores. Dia 21 vai haver uma em apoio a RCTV.

E para os dias anteriores a 28 de maio, quando acabará a concessão da RCTV, Chávez disse que há planos para matá-lo, para um novo golpe.

Vamos ver o que vai acontecer.


(Texto publicado em 13/04/07)

O nascimento do partido único (ou unido) venezuelano

É como se diz: o teatro estava "rojo rojito". Tudo vermelho. Os 2398 propulsores, que iam ser juramentados pelo comandante, todos vermelhos. Na parte de frente da camiseta, "Propulsores". Atrás , "Patria, Socialismo o Muerte". Nem Bolívar faltou, cuja imagem ressoava aqui e ali, em algumas faixas na parede.

Às 19h40 do último sábado, o presidente e comandante venezuelano Hugo Chávez começou seu discurso no teatro Teresa Carreño, em Bellas Artes, Caracas. Era o primeiro evento dos propulsores do PUS, como recordam alguns, ou PSUV, como habilmente trocou o comandante. Para evitar o trocadilho inevitável, Chávez fez do PUS venezuelano (Partido Único de Venezuela) o PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela). Fez é modo dizer, porque ainda não existe. O evento de sábado serviu justamente para liberar os 2398 propulsores, de toda parte da Venezuela, que caminharão o país para formar a base do partido, e assim convocar o congresso fundacional, previsto para agosto deste ano.

O comandante não estava ali como presidente, como admitiu nas 2 horas e 54 minutos em que falou (havia, sim, um papel na tribuna em que estava, mas ele mal olhava. Estava reservado para o final). O comandante estava ali como comandante. "Disse Bolívar uma vez: se estás em dúvida, ouça o povo. O povo sabe o que fazer. E o povo quer unidade, porque disso depende o seu futuro. Uma unidade que tem de ser orgânica, profunda, democrática. Que acentue a democracia". Chávez clamava pela unidade. Era a unidade, essa palavra, a única palavra que talvez justificasse. "¡La unidad! ¡La unidad! ¡La unidad!" Assim, várias vezes.

Unidade essa com a qual pretende abolir a autonomia das organizações civis: "Nasceram muitos sindicatos esses anos, todos com o mesmo veneno: a autonomía (dos partidos políticos). Faz tempo que não me reúno com os trabalhadores (a palavra é obrero, no sentido "Lula dos anos 70/80"). Onde estão eles? Estão todos dividos, brigados. Precisamos de unidade. União neste caminho. União para a classe de trabalhores! Unidade! Unidade! Unidade! É imprescindível."

"É a união que necessitamos. Falta-nos somente a união para completarmos a obra de nossa regeneração". E citava e citava Simón Bolívar, assim, lendo.

Seguia o comandante, ali, diante dos soldados, os primeiros soldados da batalha. Que este seja um partido capaz de se diluir na massa, dizia. Disse. Que não se imponha ao povo, mas que se subordine a ele. Que surja muitas liderança na massa. "Nosso exército para a guerra!". "E se eu cometer algum erro, que me expulsem do partido... e logicamente do governo". É verdade, disse isso, e dessa maneira, às 22:03.

O comandante é um homem que não comete muitos equívocos. Não digo erros. Sem julgar o que faz, quero dizer que o comandante não se permite passos falsos. Ele sabe o que vai dizer, como vai dizer, ele vai produzir a reação, ele conduz toda a cena. Mas o comandante muitas vezes não sabe quem é aquele que ouve, o outro, que também pensa, faz e diz algo. Os que estão ao redor do presidente cometem, muitas vezes, passos falsos. O espetáculo não é ensaiado. E isso sempre aparece quando é o presidente quem fala. Digo, comandante.

Foi assim que aconteceu, no final de janeiro, em um de seus programas Aló, Presidente. Conversando com uma garota da platéia, que desde novembro fazia um curso técnico sobre psicultura, Chávez perguntou-lhe o que já havia aprendido sobre a técnica de criar peixes. "Presidente, ainda não chegamos nessa parte". "Em dois meses não viram nada sobre o assunto?" "Estamos aprendendo alguns conceitos sobre socialismo. Justamente amanhã vamos começar a estudar psicultura".

No último sábado o espetáculo também seguiu algumas linhas tortas. "Vocês, propulsores, sabem que no dia 19 de abril já existirão cerca de 16500 outros propulsores, e criados pelas suas mãos?". Não, foi o que disse um coro alto. "Não sabem?! Jorge, é importante que saibam." Dizia o comandante ao vice-presidente da República e ex-presidente do Conselho Nacional Eleitoral. "Precisam ter um folheto explicando tudo. Vocês têm um folheto? Não. Precisam ter." E Jorge consentía com a cabeça.

Em 19 de abril serão 16500 propulsores. Um mês depois serão 70 mil, "do melhor que tenha a revolução", assegurou o comandante. Estes terão três meses para formar os batalhões socialistas dos círculos socialistas e para fazer o levantamento de eleitores e eleitoras, que no futuro militarão para o partido.

A previsão é que em 15 de agosto se realize o congresso fundacional do partido, a partir do qual serão discutidos o estatuto, os programas, estratégias, a cor, o nome e inclusive a ideologia. "Em 2 de dezembro convocaremos milhões de militantes para a consulta em que ratificaremos ou não o partido. Este é o esquema. Vocês levam a responsabilidade de impulsioná-lo, para que o partido nasça forte e sólido para impulsionar a revolução".

E então, às 22h32, Chávez pegou o seu papel e pediu que os 2398 ficassem em pé e levantassem o braço para o juramento. "Eu levanto o braço esquerdo porque sou canhoto", disse o comandante. Muitos destros ali fizeram o mesmo.

E juraram por Deus, pela honra, pela pátria, e diante do povo, que formarão os batalhões e os círculos socialistas, para impulsar a assembléia e o congresso fundacional do partido.

"Do grande partido socialista, bolivariano, revolucionário e indo-americano..."

Coro: "ÊÊÊ!!!"

"Até à vitória..."

Coro: "Sempre!!!"

"Pátria, Socialismo..."

Coro: "... o morte!!!"

"Viva a revolução. Viva o povo!!!"

Era 22:34 do último sábado.


(Texto publicado em 29/03/07)

La muerte de La niña

Baruta, Caracas, 28 de janeiro de 2007

Foi necessário um banho para contar essa história.


I

O cheiro de carne queimada começou com um churrasco em casa. A churrasqueira a gás de Oscar estava montada havia 3 dias, esperando o cordeiro prometido uma semana antes. Quem tomou conta, no entanto, foram as costelas de porco do Sr. Gines, temperadas a alho, sal e vinho.

O cheiro de queimado começou com a estréia da churrasqueira. Seu metal, que conhecia o fogo pela primeira vez, retorcia-se microscopicamente, liberando uma fumaça negra e inodora, até o ponto que compactuava com o fogo, criando calor suficiente para queimar o cordeiro.

E foi assim que morreu La Niña.

Já passados pelo porco e o cordeiro, enfastiados de mandioca, o evento social de casa terminava com uma conversa tola ao lado da churrasqueira, na pequena laje do apartamento voltada para a rua. De um tempo a outro, enquanto provocávamos as moças que passavam pela calçada, embaixo de nós, disse o Sr. Gines:

- Olha a fumaça ali, está pegando fogo - e apontou com o dedo um edifício nem 30 metros distante.

Era um pequeno prédio de dois andares (mais uma cobertura) espremido entre outros dois prédios, numa rua perpendicular a nossa, de nome "Bolívar". A fumaça negra, muito negra, vinha da parte de trás do edifício, talvez do segundo andar, talvez da cobertura, uma área que mal víamos. Mas, do piso térreo, via-se um minúsculo mercado, ao lado de uma porta que levava aos apartamentos. Nossa posição era quase privilegiada.

Começou uma correria calada nas ruas; uma gritaria desordenada, solitária e feminina. Fecharam as portas da loja. Voltaram a abrir. Em frente, três homens impediam uma mulher entrar no edifício, que era arrastada pela calçada. A fumaça às vezes enfraquecia, às vezes vociferava. A cobertura do edifício parecia mais um depósito de mercadorias, dois ou três homens corriam de um lado para o outro com as camisas nas mãos. Não se via como enfrentavam o fogo, mas estavam calmos. La madre, na rua, se arrastava de um lado a outro, gritando e chorando e dizendo coisas que eu não entendia.

O barrio barutenho começava a descer o morro e a tomar a estreita Calle Salomón, enquanto eu pedia a Rosmer que me "traduzisse" o que gritava a mulher na rua:

- Eu não sei... eu acho que ela está dizendo... "La niña murió".

Eram 5h15 da tarde. A fumaça negra como nunca.

A polícia chegou cerca de 15 minutos depois do aviso do Sr. Gines. E outros carros mais chegaram, fechavam as ruas.... enquanto se esperava que pela rua dobrasse o caminhão dos bombeiros. O primeiro apareceu 40 minutos depois de iniciado o incêndio. Já havia mais de cem barutenhos em frente ao edifício quando o invadiu um primeiro bombeiro desesperado. Seguiu até o teto da cobertura, onde, com os homens que ali já estavam, arrebentaram as telhas ao final do edifício e despejaram a caixa d´água que estava ao lado. Da rua subiu os dois andares a mangueira amarela e suja dos bombeiros, rumo ao quarto de La niña, que já não tinha mais vida. A fumaça negra se converteu branca e se dissipou no céu.

Foi quando resolvi descer.


II

Já passavam dos duzentos os barutenhos - pregados nas ruas e nas escadas que sobem o morro. Os rumores eram todos muito baixos, porque o caminhão dos bombeiros ainda metia água adentro. Todos os olhos grudados naquele prédio branco e inacabado. Os olhos ansiosos por aquilo que dali sairia, que parte ou forma da parte, ou pedaço... negro, amarilento... encheria um saco - uma maca - para descansar na ambulância que mantinha suas portas como uma grande boca aberta. Da janela do primeiro andar, um trecho furado da mangueira jorrava água para o alto, que caía na rua como uma chuva artificial, criando uma desoladora imagem de harmonia com o desconsolo de Baruta. La madre, encharcada e esparramada sobre uma poça d´água, era protegida de si mesma por três ou quatro homens. E nas sarjetas se inconformavam parentes e vizinhos molhados.


III

Cessada a chuva, com a espera ainda insistente, resolvi caminhar pelo bairro. Todas as ruas estavam um tanto vazias. Algumas padarias abertas, poucos ônibus. A via principal vivia a estranha calmaria de seu domingo. Baruta vivia seu silêncio dominical. Os barutenhos e eu resolvemos voltar para casa.

Quando abri a porta da pensão, o Sr. Pedro, dono da residência, estava junto a todos ao redor da mesa:

- Olha, Diego, isso que aconteceu hoje, foi com amigos meus. Eu conheço essas pessoas - e olhando para todos - La niña era muito bonita. Eu a carreguei no colo, uma gorducha encantadora. Tinha como seis anos.

Algum tempo depois decidi voltar à rua. Fazia noite, mas por volta de trinta pessoas e quatro carros de polícia ainda se mantinham à porta do edifício.

Já havia passado quase três horas do incêndio quando avistei a primeira e única equipe de jornalistas. Era a equipe da RCTV, a emissora de televisão a quem Chávez prometeu não renovar a licença de transmissão. Foi a última correria do dia.

Me coloquei atrás do cinegrafista, mas não consegui escutar as últimas declarações do policial metropolitano. Quando a luz da câmera se apagou, vociferou um homem com três crianças agarradas às suas calças:

- O senhor não falou sobre a construção ilegal que estão fazendo na cobertura desse prédio aqui - e apontou para o edifício que fica ao lado do incendiado.

- Mas essa informação não está confirmada - defendeu-se o policial.

- Como o senhor sabe disso? - perguntou o repórter ao desconhecido.

- Porque eu vivo nesse prédio.

- O senhor não quer declarar isso?

E, balançando a cabeça, o homem saiu. No mesmo instante começou a gritar para a câmera outro vizinho, que trazia uma criança no colo:

- Essas coisas precisam ser ditas... dizem que tudo é culpa do Chávez, é fácil dizer que é culpa do Chávez, mas as pessoas não se dão conta, não fazem nada, não são conscientes - enquanto o homem falava, rasteiramente o cinegrafista liga a câmera e começa a filmar o topo do edifício, gravando a declaração do indivíduo - há muitas coisas irregulares acontecendo, essa construção na cobertura é ilegal, não tem permissão da prefeitura de Baruta...

- O senhor quer declarar? - pergunta o cinegrafista.

- Sim, claro... com a criança no colo!!

- Não, não, com a criança não pode.

- Sim...

- Não, com ela não pode.

E contou a história.

O prédio de La niña tem dois andares, mais uma cobertura. O edifício ao lado tem dois andares mais altos e uma cobertura - em construção ilegal. Por volta das cinco da tarde, enquanto La niña dormia, soldavam parte do teto de metal da cobertura. Uma faísca então caiu em seu colchão ou em sua cortina. Os pais estavam no andar de baixo e não se deram conta. O fogo tomou rapidamente o colchão e as cortinas. A menina se asfixiou. A fumaça negra corroeu o quarto e o andar. Ninguém conseguiu entrar. La niña morreu carbonizada.

...

- Eles cobrem tudo pra ninguém perceber. Mas não podem sair construindo assim . Até parecem que querem chegar ao céu?! - comentava-me uma senhora que também ouvia o vizinho.

- Sim, parece.


IV

Minutos depois, a equipe de "Los Tigres" vencia uma histórica partida contra "Magallanes", fechando a série em 4 a 1 e conquistando a cobiçada taça da temporada 2006/2007 do beisebol venezuelano. Isso eu só pude perceber por não mais de três fogos de artifícios, que me chegaram timidamente de muito longe. A rua estava calada, criminosamente calada.

Antes de me deitar, fui ao quarto de Oscar:

- Muchacho, eu acho que nós fomos os primeiros a perceber o incêndio.

- Eu creio que sim...

E voltei para o meu quarto, na cama, deitado, a pensar como morrera La niña. Calada? Já estava morta quando se queimou? Teria gritado? De desespero, de dor... Ou dormia enquanto se dissipava em fumaça branca? Por que não gritamos, não corremos pra rua? Por que demoraram tanto os bombeiros? Esqueceram de avisar? Esquecemos de avisar? E quem são eles, os que constróem coberturas que chegam ao céu? Quem fará justiça? E de que forma será feita? Penso... e temo, em meu quarto, a menos de 50 metros da cama de La niña.

A madrugada silenciou tudo. Diferente das minhas outras doze noites em Baruta, não houve bêbados, conversas, nem garrafas quebradas. Não houve carros, motocicletas, nem alarmes disparados. Não houve maracas, celulares, nem cantos religiosos.A madrugada silenciou tudo. Foi um silêncio puro.

A verdade na imprensa venezuelana

Ler jornais na Venezuela é um entretenimento que me consome diversas horas. É muito divertido e interessante. Em cada página há uma notícia que parece que vai mudar o país ou a minha vidade habitante venezuelano.

Ontem, por exemplo, eu nem ia comprar o jornal. Já tinha lido o El Nacional na universidade, mas resolvi passar numa lotérica que há em Baruta, onde vivo, para ver a capa do El Universal, que é o maior e melhor jornal do país (no sentido em que é muito completo) e, além disso, é um dos mais ferrenhos críticos de Chávez. Chegam a dizer "A RCTV é a bandeira pela qual todos os venezuelanos devemos lutar". (Como não tenho tv, o que provavelmente vou providenciar neste fim de semana, não posso dizer muito sobre a RCTV. Mas, ao dar umas bisbilhotadas em tvs alheias, e só de olhar pela internet... essa emissora é uma ... porcaria completa. Isso não representa um apoio à medida de não renovação da licença).

Já ia fugindo do assunto...

A capa do El Universal de 14/02/2007 foi "Governo aumentou os preços de carne, frango, leite em pó e ovos". Ia quase saindo da lotérica quando percebi embaixo de vários jornais um exemplar de DiárioVea, um jornal criado pelo governo. No mesmo dia, a manchete "Governo baixou os preços de carne, leite em pó e ovos" me levou ao delírio.

O que acontece: o país vive uma forte crise de desabastecimento. É comum ir aos mercados e não encontrar carne, frango, leite e, principalmente, açúcar. Eu, em um mês na Venezuela, nunca vi açúcar em supermercado. Isso criou uma rede de especuladores, que detém alguns desses produtos e os vendem nas ruas a preços elevadíssimos. Ou mesmo nos mercados, com pouca oferta e muita demanda, o preço sobe.

Anteontem, então, o governo fixou novamente alguns preços. Por exemplo (valores não exatos): um frango inteiro estava fixado, há já algum tempo, em 9 mil bolívares, mas era vendido nos mercados a 14 mil. O governo então determinou que fosse vendido a 11 mil, valor que deve ser respeitado.

Ou seja, de fato, o preço fixado pelo governo aumentou. Mas o preço real, vendido nos mercados aos consumidores, baixou.

Não é necessário evidenciar nenhuma conclusão quanto aos jornais.

Mas, bem, vou passar num mercado hoje e ver o que passou mesmo. Às vezes o preço foi pra 17 mil... nunca se sabe.

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Resolvi então colocar aí ao lado links desses jornais e de um outro, do Aporrea, que é uma agência de notícias e opinião governamental. E coloquei também da Agencia Bolivariana de Noticias, igualmente do governo.

Desfrutem da imprensa venezuelana.

(Texto publicado em 15/02/07)

Caracas II - "Pátria, socialismo ou morte"

Chego a Caracas uma semana depois do presidente Hugo Chávez tomar posse para seu terceiro mandato, quando jurou, diante da Venezuela, da América Latina e do mundo todo, por "Pátria, socialismo ou morte", repetindo o que dissera o comandante cubano, Fidel Castro, anos antes. Chego a Caracas com o anúncio do Socialismo do século XXI, com a promessa do presidente de transformar a Venezuela numa comunidade socialista. Chávez estivera na imprensa internacional durante uma semana inteira.

O que eu sabia sobre a Venezuela então: uma emissora de tv, de oposição ao governo (RCTV), não terá a licença prorrogada para manter sua faixa no espectro magnético; o dito valor do dólar no mercado negro; a anunciada nacionalização de uma empresa de telefonia (Cantv) e de outras empresas de telecomunicações; a promessa de que os funcionários repartirão os lucros das empresas; o petróleo; que Caracas é uma cidade muito perigosa; que as mulheres venezuelanas são lindas.

Ah, claro, a polarização. "Você sabe que na Venezuela ou você ama ou você odeia o Chávez". Diziam-me. "Venezuela? Você vai para lá?... Bem, é só não se envolver com o Chávez".

- Do ponto de vista político, você é esquerda ou direita? - perguntara-me António.
- Politicamente, eu sou mais à esquerda - defensivamente, respondi.

Defensivamente. Porque não sabia se, como ou o que deveria responder. Defensivamente não porque não sabia o que responder. Mas por receio, diria. Ou medo mesmo: da reação, do que poderia ser retrucado, ou feito, por não saber como se fecham ou se abrem as portas. E eu mal pisara na Venezuela. A sola do meu sapato só conhecia o carpete daquele Honda Civic prateado.

Saí do Brasil com algumas idéias na cabeça.

Simpatizo com Chávez e Evo, por exemplo. Há um retrato de uma injustiça generalizada, uma distribuição de renda desequilibrada, serviços públicos precários, um mal-estar social desesperado e dissipado, uma exploração e um alijamento secular. O que um governo precisa fazer num país com muitos miseráveis?... Dar espaço, fazer espaço. Por isso Chávez e Evo me parecem bons, porque ao menos gritam contra toda uma injustiça histórica.

Só não me perguntem se eu tenho certeza. A obrigação é não se apaixonar. Ou melhor, não se ludibriar, porque o que Chávez e Evo têm contra eles, são eles mesmos - ou nós: o custo América Latina, o legado América Latina - ou o do ser humano. Os interesses, os fins justificando meios, as ditaduras, a plata, a grana, o petróleo - e é muito petróleo.

Saio do Brasil e chego à Venezuela com bom impressão. Inclinado, gauche, vermelho. O que vejo na imprensa e o que ouço de alguém que conhece que conhece que conhece alguém são, sempre, reclames de uma classe média insatisfeita, de empresários, de profissionais liberais, de patrões, de donos da comunicação, de governantes e políticos de oposição. Não me recordo de nenhum levante popular. Mas quem hoje na Venezuela mobilizaria um levante de massa? Os estudantes? Os sindicatos? Os partidos políticos? Ou a classe média, empresários, profissionais liberais, patrões, donos da comunicação, governantes e políticos que apóiam o governo?

Saio do Brasil e chego à Venezuela com bons olhos. Mas sei que fede - em algum lugar fede - e quero saber onde fede.

(Texto publicado em 08/02/07)

Caracas I - "Bienvenido presidente Ahmadinejad"

António não se esforçava muito pra olhar ou pra sorrir. No aeroporto, quase debruçado sobre o corrimão que separa os que chegam dos que esperam, segurava nas mãos um pedaço de papel com o logo da Universidad Simón Bolívar e um escrito quase apagado: "Da Silva". Ele não estava só. Havia pelo menos outros 6 ou 7 com os cartazes, sem contar os que apenas esperavam. Passei devagar pela porta. Fui um dos primeiros a resgatar minha bagagem: duas malas médias e uma mochila. Mirei os seis ou sete papéis, avistei António, olhei em seus olhos e balancei a cabeça. Ele me deu as costas e foi esperar mais adiante.

Eu não podia passar por aquele corrimão com o carrinho e as bagagens. Acabara de chegar à Venezuela e, cansado com a viagem, assustado, meu espanhol se esforçava, mas não compreendia as palavras que aqueles venezuelanos metiam boca adentro. Falavam de carrinho e dólares ao mesmo tempo, um e outro chegando, outros me analisando de longe, todos devidamente uniformizados - talvez trabalhassem no aeroporto, não consegui identificar. Caminhei alguns metros carregando minhas malas, enquanto um venezuelano ainda insistia na história dos dólares. Livrei-me dele e fui ao encontro de António.

Depois de um mal cumprimento, disse a ele que precisava trocar meus dólares. A caminho da casa de câmbio do aeroporto, que estava fechada, nos chamou a atenção um silvo muito alto. Era Gordo, que se aproximou da gente - também uniformizado - oferecendo-me bolívares para trocar.

- Mira, a casa de câmbio paga 2100. Eu pago 2500. Quantos queres trocar? 300? Olha quanto irias perder... - e me mostra o valor em sua calculadora, que trazia no bolso.

Com o cansaço, os sustos e a confusão dos carrinhos e dólares, pedi um tempo para calcular.

O câmbio na Venezuela está fixado pelo governo há cerca de quatro anos (a confirmar) com o valor de 2 mil 147 bolívares por dólar. Oficialmente. No Brasil, tivera notícias de que, no mercado negro (ou extra-oficial, como se diz) é possível trocar dólar pelo dobro do valor oficial. Mesmo assim, não pude fazer muitas contas. Confesso que não cheguei a conclusão alguma. Primeiro achei que estava sendo enganado, o que os assustara. Depois percebi que estava tudo mais ou menos certo. Não tive alternativa.

Saí do aeroporto com 750 mil bolívares (meus 300 dólares) e mais 33 dólares, que julguei melhor guardar.

Não conseguia olhar para António. Estava pensando nele desde Santa Cruz de la Sierra, onde meu vôo demorara quase cinco horas para sair. Eram sete horas de uma manhã muito iluminada e bonita. E António me esperava desde a uma da madrugada, o que me fez questão de confessar antes mesmo de entrarmos em seu Honda Civic.

António parecia tudo, menos um taxista. Levava a barba por fazer, era gordo e jovem. Morador de La Guaira, município litorâneo próximo a Caracas - onde fica o aeroporto internacional de Caracas, beijando o mar do Caribe - António pratica motocross e mergulho.

No carro, eu espiava o mar da janela enquanto pensava em alguma coisa pra dizer a ele. Conversamos tolices sobre o caminho. Onde estava, se era Caracas, quanto tempo levaria. Ele xingava outros motoristas - eu me imaginava conhecendo o Caribe. O que eu fazia no Brasil, o que ia fazer na Venezuela, quantos anos tinha, de onde ele era, por que não fui para a Europa.

Surgiam pelo caminho, nos canteiros centrais da linda rodovia - cujo asfalto parecia brilhar - faixas com os dizeres "Bienvenido presidente Ahmadinejad" e uma linha embaixo com o mesmo - suponho - em árabe. Eram a recepção do presidente do Irã, que estivera no país poucos dias antes.

"Venezuela e Iran, naciones hermanas" anunciavam outras faixas, além de mostrarem fotos dos presidentes dos dois países.

Foi entre uma faixa e outra que me perguntou António:

- Do ponto de vista político, você é esquerda ou direita?


(Texto publicado em 24/01/07)