quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Açúcar no Brasil

Você já leu o jornal chavista da universidade?

Não.

Vou trazer um exemplar para você. Eu escrevi um artigo intitulado “Chávez e o Neoliberalismo”. Assim mesmo, e eles aceitaram. Ha ha. Agora estou preparando um texto sobre a situação na Colômbia.

Cara, essa é outra coisa que não entendo: por que é que as Farc, por exemplo, não abandonam a guerrilha e organizam um partido político?

Ha ha. Diego, essa é uma história longa… partido político… Ha. Vou te contar uma historinha…. – e meu amigo, residente em Caracas, mas que vem do outro lado da fronteira, remonta os anos 40 na Colômbia, o chamado “tempo da violência”. Me senti em filmes como “The godfather” e qualquer outro de gângsteres. Me conta os enfrentamentos liberais e conservadores, o extermínio dos liberais, as guerrilhas camponesas, Tirofijo, a CIA...

O que antes era apenas um grupo de homens que defendiam o seu território – uma montanha qualquer no meio do nada – converteu-se na maior força opositora do país. E isso ocorreu a partir dos anos 60, com a entrada dos gringos nessa história e a sua luta por “defender a América Latina do comunismo”. De acordo com alguns historiadores, se a CIA não tivesse espalhado esse grupo de homens miseráveis, quando os expulsaram das montanhas, as Farc como tal não teriam surgido.

... e me canta sobre Pablo Escobar.

Ha ha. Ele colocou fogo em tudo, meu chapa. Antes dele, todos eram inocentes. A luta era romântica.

Esse homem peitou o Estado? Sabe o que é isso, Diego? Um pobre miserável, que veio do nada, que começou roubando carros, peitou o Estado e os gringos... Ha ha.

Tudo, mas tudo pra dizer.

A guerrilha surgiu contra os latifundiários. E isso ainda não se alterou. Algumas pessoas tentaram a via democrática. Eleições foram roubadas. Isso deu origem a outros grupos guerrilheiros. Todos os presidentes colombianos, mas todos, são descendentes diretos daqueles latifundiários, dos anos 40 e 50, quando começou tudo. Já os guerrilheiros, estes são os mesmos. O que você espera?

(...)

Meu primo. Meu primo, cara. Começou a passar coca de lá pra cá, daqui pra lá.

Meu pai. É desses homens que trabalhou a vida toda. Taxista. Tem seu carro, sua casa, sua esposa, nada mais.

Meu primo. 18 anos. Acabou de sair do colégio. Faz só um ano que se meteu no negócio. E já ganhou mais dinheiro que o meu pai em toda a sua vida. Pra que é que a gente estuda, então? Pra sair da universidade recebendo 800, 1000 dólares? Meu primo ta indo bem. Já comprou umas vans, vai se meter em transporte público agora. Tá investindo... e essa é só a parte que a família sabe...

Diego, acho que vou abandonar o mestrado. Sei não. Pra ganhar essa miséria? Eu quero ter minhas coisas... Dezembro decido. Vou contrabandear gasolina. Daqui pra lá, já me convidaram. Tenho uns amigos que estão ganhando muito dinheiro com isso.

Veja bem o que você quer pra ti. Não seria bom terminar o mestrado e ver o que acontece?

Que nada, cara. Nem com o mestrado, nem trabalhando para o governo, nem pra iniciativa privada... Acho que vou abandonar o mestrado... além do mais, eu posso apoiar o Chávez desde lá, não preciso estar aqui... (...) Mas e você, Diego, não quer transportar açúcar no Brasil? Ha. Esse negócio está dando muito dinheiro também.

Sorrio. Tive vontade de dizer que preferia estar do lado Bem da força. Mas, em um mínimo de segundo, me pareceu melhor não dizer. Senti toda uma carga de preconceito em meu comentário enforcado. Ali estava um rosto conhecido, uma opinião política, um amigo distante, destes com quem sempre se conversa quando se vê. Preferi:

Cara, eu sou jornalista. Esse negócio não me atrai. Não para trabalhar, mais bem pra conhecer. Preferiria, um dia, ir te visitar, e que você me mostrasse tudo, que me apresentasse as pessoas, para eu conversar com elas, conhecê-las, ouvir suas histórias, de onde vieram... e se der tomar fotos, filmar. Mas, te digo, não me interesso pelo negócio.

Ha ha. Eu sei, Diego, tranqüilo. Ha. Mas que dá dinheiro, uhhhh.

Mas vamos falar das próximas eleições na Colômbia. Juan Manuel Santos e Piedad Córdoba... Daí não sai. E se o primeiro ganhar, te digo, vai ter guerra com a Venezuela...

Um comentário:

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