terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Reportagens no Correio Braziliense

Abaixo postei todas as reportagens que eu publiquei pelo jornal Correio Braziliense entre os dias 30/11 e 4/12. Foram oito textos ao total, entre reportagens e textos de análise.

O que foi publicado pelo jornal pode ser conferido nas imagens. Já os textos transcritos foram os arquivos que eu enviei para a redação do jornal.

Correio Braziliense - 04/12/07



Texto abaixo.
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Chávez minimiza revés eleitoral e afirma que a revolução bolivariana continua

Por ora, ainda não

Chávez buscará outros caminhos para projeto socialista

Chávez minimiza revés eleitoral e afirma que a revolução bolivariana continua

Diego Junqueira, de Caracas


No país de 26 milhões de pessoas, menos de 200 mil votos travaram o projeto de governo do presidente Hugo Chávez. Ao menos por enquanto, pois, apesar da histórica derrota eleitoral, a primeira em seus nove anos de governo, o presidente venezuelano já avisou que vai continuar impulsionando o “socialismo do século XXI”.

“Não vejo isso como uma derrota. 49% das pessoas votaram a favor do projeto socialista. Isso é um grande passo político. Para mim, é o mesmo cenário de fevereiro de 92 (quando Chávez liderou um fracassado Golpe de Estado). E vou repetir o que disse naquela época: ´Ainda não. Por ora´”, disse o mandatário venezuelano na madrugada de ontem, quando discursou em cadeia nacional de rádio e TV para reconhecer a derrota nas urnas.

“Não mudo uma vírgula do que está na reforma. A proposta ainda é feita à sociedade. Vamos continuar a revolução dentro do que permite esta constituição”, afirmou Chávez, tendo em mãos a Constituição vigente, sua conquista política em 1999, e cujo texto permanece intacto após o resultado das eleições.

Para o ex-ministro da Defesa, general Raúl Isaías Baduel – que iniciou o ano defendendo o “socialismo do século XXI”, mas o terminou rejeitando a reforma constitucional – o presidente Chávez ainda tem a intenção de institucionalizar o texto rejeitado no domingo.

“Alerta, venezuelanos. O presidente quis impor um projeto que não é do povo, mas dele mesmo. E pode ser que nos imponha por outro caminho, por meio de leis habilitantes”, afirmou Baduel. Em fevereiro deste ano, a Assembléia Nacional venezuelana aprovou a Lei Habilitante, que ampliou os poderes de Chávez para legislar por 18 meses. Foi essa lei que permitiu ao presidente propor a reforma constitucional.


Clima natalino

O alerta de Baduel foi o único que destoou do clima de reconciliação pregonizado pelos líderes da oposição. “Não se trata de Bush ou de Fidel Castro. Não se trata de Morales ou de Uribe. Trata-se dos venezuelanos. Temos de acabar com essa divisão, e o presidente pode liderar esse processo”, disse Leopoldo López, prefeito de Chacao, um dos cinco municípios de Caracas.

O governador do estado Zulia, Manuel Rosales – adversário derrotado por Chávez nas eleições de 2006 – afirmou que o resultado do referendo cria condições para a paz e a harmonia. “Propomos desde já que se aprovem, ainda este ano, duas leis que estavam previstas na reforma: a lei de fundo social para os trabalhadores independentes e a lei de redução da jornada de trabalho”, disse euforicamente o governador zuliano.

Em seu discurso desde Miraflores, Chávez pediu à oposição que reconhecesse o valor das instituições venezuelanas. “Aqui não há nenhum ditador. Vivemos em uma democracia. E o caminho é esse, senhores da oposição. Não procurem mais o caminho da desestabilização”, afirmou Chávez. “Aos que votaram ´Sí´, aos que votaram ´No´, aos que não votaram, todos somos o povo. Vamos respeitar nossas diferenças”, completou o presidente.


Quem ri por último...

Como os resultados de boca-de-urna divulgados fora do país indicavam a vitória do “Sí”, alguns partidários do presidente Chávez saíram às ruas para comemorar a suposta vitória no referendo. Em frente ao Palácio Miraflores, sede do governo, um multidão começou a se reunir desde o início da noite de domingo. E pelas ruas da capital circulavam diversos motoqueiros com suas bandanas e camisas vermelhas e as consígnas do chavismo. “Uh, ah, Chávez no se va”.

Após a divulgação do resultado oficial, à 1h15 (hora local), uma festa com outras cores irrompeu-se em Caracas. Concentradas nas regiões mais ricas da cidade, como Las Mercedes e Altamira, muitos partidários do “No” foram às ruas para, enfim, comemorar uma derrota do presidente, depois de nove anos. Enquanto alguns diziam que a Venezuela já não queria nada com Chávez, outros eram mais diplomáticos e avisavam que o alvo caído tinha sido o referendo.

Para o principal dirigente estudantil, Yon Goicochea, que se encontrava na Plaza Francia, em Altamira, “a vitória do ´No´ é uma vitória de todos os venezuelanos, para construirmos uma nova pátria.”

“Felicito aos que ganharam. Podem festejar, mas respeitem aqueles que votaram pelo ´Sí´. E saibam administrar essa vitória”, disse o presidente Chávez minutos antes.

Na manhã de ontem, a capital do país estava calma, com poucas pessoas nas ruas. Na região de Baruta, em Caracas, enquanto uma membro do partido oposicionista Um Novo Tempo pintava uma parede com a frase “Sim à Venezuela”, ouvia-se, de longe, um tímido protesto: “Viva Chávez...”

Correio Braziliense - 03/12/07


Correio Braziliense - 02/12/07 (Principal)



Reportagem transcrita abaixo: PRINCIPAL
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Correio Braziliense - 02/12/07


Reportagens transcritas abaixo: propriedade privada e entrevista.

Venezuelanos decidem hoje futuro do socialismo de Chávez

PRINCIPAL

Venezuelanos decidem hoje futuro do socialismo de Chávez

de Caracas
Diego Junqueira


“Dois de dezembro será o dia mais importante da revolução, quando faremos a revolução dentro da revolução”. Ante as palavras de seu mandatário, os venezuelanos irão se medir nas urnas, hoje, para decidirem o destino da reforma constitucional proposta pelo presidente Hugo Chávez. Mais do que votar “Sí” ou “No” aos 69 artigos, os venezuelanos determinarão neste domingo se avançam ou se travam a revolução bolivariana no país.

As eleições na Venezuela não são obrigatórias. Vota quem quiser, desde que tenha dezesseis anos e esteja inscrito pelo poder eleitoral. De acordo com as leis do país, as pesquisas de intenção de voto são permitidas até uma semana antes do escrutínio, além de também serem proibidas as pesquisas de boca de urna.

Semana passada, quando foram apresentadas as últimas sondagens, ambos lados da campanha festejaram, já que algumas pesquisas traziam a vitória do “Sí” e outras a do “No”. A semana transcorreu com a convicção no triunfo para os dois blocos, recheada de marchas e discursos que levaram milhares de venezuelanos às ruas. Neste cenário, o que pode definir o resultado de hoje é a porcentagem de abstenções.

Com uma população de 26 milhões de pessoas, e em sua maioria jovem, estão aptos para votar na Venezuela cerca de 15,8 milhões de cidadãos. Ano passado, quando ocorreram eleições presidenciais, a abstenção foi de 25% (4 milhões de eleitores). Chávez foi reeleito com mais de 7 milhões de votos, ou 63% dos que foram às urnas. Durantes os últimos dias da atual campanha, se por um lado o bloco do “Sí” mostrava-se seguro da vitória, o bloco do “No” pedia insistentemente para os venezuelanos exercerem o direito ao voto.

Geometria do poder

A oposição ao governo acusa o presidente de impulsionar o projeto para se manter à frente do governo por um largo período de tempo. Chávez disse na sexta-feira que 2020 seria um “bom ano para entregar o poder, mas somente se a revolução estiver consolidada”. Se aprovada hoje, a reforma legalizará uma série de poderes nas mãos do mandatário venezuelano. Além da reeleição indefinida, serão institucionalizadas, por exemplo, as províncias federais.

No começo dessa semana, Chávez esteve pela campanha do referendo nos estados andinos do país, onde afirmou que criará, a partir da nova constituição, a Província dos Andes, abarcando os estados Táchira, Mérida e Trujillo. No novo cenário administrativo do país, isso significaria que os cidadãos desses estados continuariam elegendo seus governadores, mas, criada a Província, o presidente determinaria um vice-presidente da República para a região. Em distintos discursos Chávez afirmou que todo o território nacional necessitaria de seis ou sete vice-presidentes.

Esse seria o mesmo cenário de um futuro Distrito Federal. Caracas, a capital do país, é composta hoje por cinco municípios, distribuídos em dois estados. Existe ainda a figura da Prefeitura Maior, que abarca os cinco municípios e cujo prefeito é eleito pelo voto. De acordo com a reforma, em substituição da Prefeitura Maior será criado o Distrito Federal, cujo governador determinará o presidente da República, “por se tratar de assunto do poder nacional”, argumenta Chávez.

Chavismo

Além desses artigos, a reforma constitucional também propõe diversas mudanças de caráter social. O mais divulgado pelo governo refere-se à redução na jornada de trabalho, que cairia de oito a seis horas diárias para os trabalhadores promoverem seu desenvolvimento pessoal. Ou então o artigo da segurança social para trabalhadores independentes, a proibição de latifúndios e monopólios e a segurança à moradia. De acordo com este artigo, uma família que não possa pagar o aluguel ou as prestações de sua residência, não poderá ser expulsa dela se provar que essa é a “moradia principal” da família.

Foram medidas como essas que construíram a popularidade de Chávez entre os venezuelanos, sobretudo entre a população mais carente do país. Para Alexandra León, de 31 anos, casada e com um filho, sua vida mudou depois que Chávez chegou ao poder. Moradora do município Baruta, em Caracas, León afirma que antes do atual governo não tinha as mesmas oportunidades de agora. “Na nossa comunidade temos um médico que está aí sempre, ele vive com a gente, é nosso vizinho. Além disso, com a Missão Mercal eu encontro os produtos que eu preciso e por um preço mais baixo do que o regulado pelo governo”. León também participa da Missão Sucre, que por meio da Universidade Bolivariana da Venezuela espalhou “aldeias universitárias” pelo país.

De acordo com o doutor em Ciências Políticas, Ángel Vicente de Castro, a experiência de Chávez, após oito anos, não solucionou os problemas do país. Com relação à reforma, Castro se pergunta “por que os venezuelanos devem assumir o risco de pôr nas mãos de um só homem as decisões de uma sociedade pluralista?” Para convencer seus partidários, o governo construiu sua campanha do referendo dando mais importância à figura do presidente que ao conteúdo do projeto. Há cerca de dez dias, Chávez disse que, se perdesse hoje, “procuraria um substituto”.

Para Guillermo Leal, analista de sistemas do metrô de Caracas, e porta-voz de Comunicação do Conselho Comunal de sua comunidade, situada em Los Teques, a uma hora da capital, o presidente Chávez interpreta os desejos de toda a população. “Nós o apoiamos porque temos grande confiança em seu trabalho. Ele não vai fazer nada para prejudicar o povo venezuelano, por isso estamos com o ´Si´”, garante Leal. Apesar do discurso, ele afirma que o apoio a Chávez não é irrestrito, e que sairiam para protestar contra o presidente se “ele caminhasse ao capitalismo”.

Antes da chegada de Chávez ao poder, Leal era militante do Partido Comunista da Venezuela. Ele diz que não há motivo para a oposição venezuelana abandonar o país, como os próprios opositores expressam. “Naquela época éramos minoria e tínhamos de acatar as leis deles. Hoje nós somos maioria. O povo escolheu o caminho ao socialismo. E eles terão de respeitar as nossas leis”, concluiu Leal.

O presidente declarou que o Estado venezuelano construiria o “socialismo do século XXI” somente após as eleições presidenciais que o elegeram em 3 de dezembro do ano passado. Foi em janeiro deste ano, durante o discurso de posse, que Chávez anunciou o lema que hoje é repetido por seus partidários e dentro dos quartéis do país: “Pátria, socialismo ou morte”.

Entrevista: Não se pode pagar igualdade com liberdade

ENTREVISTA


SUGESTÕES DE TÍTULO
“É preciso pôr em vigência a constituição vigente”
“A reforma é absolutamente inconstitucional”
“Não se pode pagar igualdade com liberdade”


de Caracas
Diego Junqueira

Em 1998, a Universidad Simón Bolívar (USB) realizou um fórum chamado “Os candidatos presidenciais e o petróleo”. Na mesa de discussão se encontravam os cinco candidatos de ocasião, dentre eles Hugo Chávez, e dois moderadores escolhidos em consenso pelos presidencialistas. Um desses moderadores era o professor Ángel Vicente de Castro.

Doutor em Ciências Políticas pela Universidad Complutense de Madrid e professor de Pós-graduação da USB, Castro afirma, em entrevista exclusiva ao Correio Braziliense, que o presidente Chávez está tentando construir uma sociedade de iguais, mas pagando com a liberdade. “Chávez ainda pode ser bom para Venezuela, o que não pode é continuar governando de costas para uma parcela grande da população”. Seguem os principais trechos da entrevista:

Um dos principais argumentos da oposição ao presidente Chávez qualifica de inconstitucional o projeto de reforma...

Essa reforma proposta é absolutamente inconstitucional. A reforma praticamente constrói uma nova estrutura de Estado. Referendar essa proposta não compete ao poder constituído, mas ao poder originário constituído. Seria preciso convocar uma nova assembléia constituinte.

E por que isso não ocorreu?

A sala constitucional do Tribunal Supremo de Justiça, que poderia interferir nesse caso, permanece até agora em silêncio. Com essas condições, o projeto segue o seu caminho.

O atual protagonismo dos estudantes universitários indica que eles estão superando a desacreditada oposição política venezuelana, representada pelos partidos políticos?

É preciso diferenciar o atual momento político. Em 98 e no ano passado as eleições eram para a presidência da República. Agora vivemos um referendo constitucional. Esse movimento em nível nacional dos estudantes, além de renovar a liderança da oposição, tratou de dinamizá-la, dar oxigênio a ela. Isso sacudiu uma oposição que parecia adormecida. A oposição agora acredita que tem chance de frear o projeto de Chávez.

E os protestos são contra Chávez ou contra a reforma?

As marchas procuram defender a constituição de 1999, que foi planificada pelo próprio presidente. Um dos líderes dos estudantes, Yon Goicoechea, citou no discurso de quinta-feira uma frase importante: “Dentro da Constituição, tudo. Fora dela, nada”. Essa frase é do próprio Chávez. E esse é o problema de fundo. O que se reivindica é o respeito ao atual Estado de Direito. A reforma significa um aumento desmesurado de poder ao presidente da República. Seria colocar nas mãos de um só homem as decisões de uma sociedade pluralista. A pergunta então seria: “Por que assumir esse risco?”. A sociedade não deveria arriscar-se nesse caminho.

Mas o presidente ainda mantém um elevado índice de popularidade...

A experiência de Chávez na Venezuela tem sido positiva, de pôr em destaque o fator social. Isso não havia ocorrido antes. Chávez conseguiu conectar-se emocionalmente com o povo venezuelano. As Missões alcançaram o objetivo de estar próximo à população. Mas é preciso saber se são frutos da bonança petroleira ou se têm a capacidade de continuarem sustentáveis em um cenário desfavorável. De qualquer forma, essas políticas não resolveram os problemas da Venezuela, e Chávez já está há oito anos no governo. O país vive uma crise de abastecimento alimentício, a violência está generalizada e há uma desordem na administração do gasto público.

E os setores oposicionistas aceitarão essa nova estrutura de Estado?

Este grave enfrentamento, esta divisão política não tem outra solução que buscar o caminho do encontro. Ou sentam em uma mesa para se entenderem, ou... Lamentavelmente a violência pode se instaurar e gerar processos indesejáveis para qualquer país. E o grande obstáculo para esse entendimento tem sido até agora o próprio presidente da República. Não é um problema de maiorias e minorias, mas do encontro da moral, da ética, da tolerância e do respeito aos valores democráticos. A sociedade venezuelana sempre vai encontrar uma solução para seus problemas, pois o caos e a violência, ao final, não interessam a nenhum lado. O objetivo agora é colocar a sociedade em seu conjunto por em cima de todos, porque um país dividido não vai à parte alguma, e um Estado que propicia a divisão está destinado ao fracasso. O objetivo imediato é pôr em vigência o atual texto constitucional. Não é um “não” a Chávez, é um não a um processo viciado. O presidente Chávez, com a mais boa-vontade, quer construir uma sociedade de iguais, mas é preciso conjugar os valores democráticos. Não se pode avançar à igualdade pagando com as liberdades individuais e coletivas.

E o que será da Venezuela na segunda-feira?

Se o “No” ganhar e o governo aceitar, é uma grande oportunidade que o país tem para a reconciliação. E o próprio Chávez poderia conduzir esse processo. Se o “Sí” ganha, o mais provável é que a oposição acuse fraudes e saia a protestar. Mas se o “Sí” ganha e a sociedade permanecer em silêncio, significará a constitucionalização da reforma. E a implementação dela vai causar profundos descontentamentos sociais. Chávez ainda pode ser bom para o país, o que não pode é continuar governando de costas para uma parcela grande da população.

A reforma de Chávez e a propriedade privada

SUGESTÕES DE TÍTULO

Reforma suscita dúvidas quanto à propriedade privada

Reforma não esclarece manejo da propriedade privada

de Caracas
Diego Junqueira


Um homem mal-vestido, e carregado de pastas desordenadas, entra em uma padaria para conversar com seu proprietário. “Quem é o dono desse comércio?”, pergunta. Ao que outro cidadão responde: “Eu”. O homem que acabara de entrar ali, representando o governo do país, contesta: “Seu, não. Agora isso pertence, de acordo com a nova constituição em vigor, ao povo da Venezuela”.

Em outro quadro, um novo homem, agora melhor vestido, mas também representando o governo, entra em um açougue. O proprietário do comércio, ao vê-lo, diz: “Ei, você veio tomar meu negócio… mas você está equivocado”. Então o proprietário tira do bolso uma constituição e argumenta: “De acordo com o artigo 115 da constituição, a propriedade privada está garantida na República Bolivariana da Venezuela”.

Esses dois esquetes publicitários foram veiculados em emissoras de rádio e tv venezuelanas para todo o país. Ambos quadros, no entanto, tiveram a transmissão proibida pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), máximo órgão eleitoral do país.

Quanto ao primeiro caso, que militava a favor do “No” no referendo de hoje, o CNE afirmou que a publicidade “tergiversava” sobre o conteúdo da reforma. Quanto ao segundo caso, que defendia o “Sí”, o CNE cancelou a trasmissão porque o esquete fora produzido pelo Ministério de Informação e Comunicações, o que viola a Lei de Responsabilidade Social em Rádio e Televisão, já que órgãos públicos não podem produzir propaganda eleitoral.


Minha, sua, nossa

Durante toda a campanha para o referendo constitucional, que será realizado hoje na Venezuela, o tema da propriedade privada num hipotético estado socialista foi um dos mais discutidos pelos blocos do “Sí” e do “No”. A propaganda política do partido Primeiro Justiça, um dos principais da oposição venezuelana, dizia: “Não se meta com o que é meu”. O próprio presidente Chávez respondia a esses afrontos, afirmando que o “socialismo do século XXI” vai respeitar a propriedade privada dos venezuelanos. “Quem tem que ter medo são os grandes latifundiários desse país, porque esses sim verão suas terras distribuídas entre o povo venezuelano”, ameaçou o mandatário em diversas ocasiões.

Se aprovada a reforma de hoje, o novo artigo 115 da constituição venezuelana vai “reconhecer e garantir” cinco formas de propriedade: pública, social, coletiva, mista e privada. No entanto, o texto estabelece também que, “por utilidade pública ou interesse social, mediante sentença firme e pagamento oportuno de justa indenização, poderá ser declarada a expropriação de qualquer classe de bens”. De acordo com a publicidade governamental, “o socialismo dá propriedade aos expropriados pelo capitalismo”.

A família de Nicolás Pulido, que se auto-classifica como classe média, possui diversas propriedades na Venezuela. Além de um “centro de comunicação” da empresa espanhola Telefônica (estabelecimento comercial onde se vendem celulares e realizam-se ligações telefônicas para qualquer parte do mundo), possuem um SPA, carros, uma casa e uma fazenda. “Existe muito receio com relação à reforma. Não sabemos como o governo irá manejar o conteúdo dela nem o que passará caso ela seja aprovada”, afirma Pulido.

Ele conta que, na Constituição de 1999, já estava determinada a expropriação de bens privados para a utilidade social, mas que o surgimento desses novos tipos de propriedade facilitará as expropriações por parte do governo. “A atual constituição determina que a expropriação ocorra somente após terminado o processo judicial e efetuada a indenização. Com a reforma, as propriedades poderão ser ocupadas antes de terminar o juízo”, afirma Pulido. Ele diz que não pensa em sair do país mesmo que seja referendado o projeto hoje. “Mas estamos nos preparando para isso, caso seja necessário”, adverte.

Em entrevista transmitida ao vivo pelo canal estatal VTV, o ministro de Finanças da Venezuela, Rodrigo Cabezas, reafirmou as palavras do presidente, e disse que o governo não é inimigo da iniciativa privada. Para demonstrar isso, na sexta-feira, o presidente Chávez se reuniu com microempresários reunidos em cooperativas para a entrega de créditos. O presidente venezuelano disse que, desde que assumiu o cargo, o governo distribuiu 121 mil créditos para a pequena e média empresa. No evento de sexta-feira, quase a totalidade dos beneficiados presentes estavam vestidos de vermelho, a cor do processo impulsionado por Chávez.

Com relação ao fim da autonomia do Banco Central da Venezuela, que pode ser aprovado no referendo de hoje, o ministro Cabezas afirmou que o banco continuará existindo como instituição, “mas surgirá uma devida coordenação de suas funções com o Executivo Nacional”. Além dessas mudanças, o país sofrerá outra mudança em sua economia já em 1º de janeiro do próximo ano. Entrará em vigor o “Bolívar Forte”, nova moeda nacional, que vai reduzir em três zeros o atual “Bolívar”. Fixado pelo governo (o câmbio não é flutuante no país), o dólar vale hoje 2150 bolívares. Em meio à instabilidade política e os rumores que rodeiam a nova unidade monetária, a moeda norte-americana é comercializada no mercado negro por até seis mil bolívares.

Correio Braziliense - 1º/12/07



Reportagens transcritas abaixo.

“Governarei até 2050, se for a vontade do povo”

Este texto foi publicado no diário Correio Braziliense, no dia 1º de dezembro.

“Governarei até 2050, se for a vontade do povo”
de Caracas
Diego Junqueira

Se depender do “termômetro” Avenida Bolívar, a reforma constitucional será aprovada domingo na Venezuela. Simpatizantes do presidente Hugo Chávez, que impulsiona o projeto, ocuparam ontem a avenida para defender o “Sí” no referendo deste fim-de-semana. Na quinta-feira, adeptos da oposição se concentraram na mesma avenida, do começo ao fim, para rechaçar o projeto. Ontem, no entanto, os defensores do “Sí” ocuparam não apenas a Bolívar, mas também partes de avenidas próximas.

Em seu discurso, Chávez voltou a criticar a oposição venezuelana e o presidente norte-americano, George W. Bush. “Quem votar pelo “Sí” estará votando por Chávez. Mas, quem votar pelo “No”, estará votando por Bush. Porque não podemos esquecer quem é nosso verdadeiro inimigo. A oposição daqui faz somente o jogo sujo do império. No domingo vamos dar um novo nocaute em Bush. E digo mais. Eu sou um soldado, e se precisar pegar em armas para defender a pátria, eu não vou hesitar”, declarou.

Em um discurso inflamado de afrontações, o presidente venezuelano convocou Rafael Ramírez, presidente da estatal petrolera Pdvsa, para que revisasse as exportações de petróleo para os EUA. “Se o império atentar contra a pátria, se disserem que houve fraude no processo eleitoral, eles não terão uma só gota de petróleo. Ramírez, na segunda-feira, garanta que não haverá petróleo para eles. E a partir de hoje, que o exército ocupe os campos de petróleo”

Chávez fez também diversos chamados à oposição venezuelana, qualificando-os de “violentos”. “Se escolherem o caminho da violência, teremos uma pronta resposta. Eles dizem quem, se o “Sí” ganhar, haverá fraude, e que ocuparão as ruas. Bem, então lá vamos nos encontrar”, afrontou o presidernte venezuelano. Ele garantiu que, se o “No” ganhar, o governo reconhecerá o resultado eleitoral.

“Senhores da oposição, se o “Sí” ganhar, só restará a vocês aceitarem o triunfo da revolução. E se o povo decidir que eu tenho de governar até o ano 2050, até 2050 governarei Venezuela”, declarou Chávez. Se aprovado no domingo, a reforma constitucional estabelecerá a reeleição indefinida na Venezuela.


Momento crítico

O presidente venezuelano chegou à Bolívar às cinco da tarde, três horas depois de iniciada a concentração. Chávez entrou pelo final da avenida, em um caminhão aberto, precedido por outro que trazia uma câmera do canal estatal VTV. Em toda a avenida e nas ruas próximas, havia pelo menos seis palcos, com shows ao vivo de grupos locais e telões que transmitiam a VTV. Além disso, em diversos pontos da concentração, garrafas de água eram distribuídas gratuitamente, e, por volta das 4 da tarde, ao menos quatro pequenos caminhões chegaram para distribuir latas de suco e uma bandeja lacrada, com frutas e sanduíche.

Chávez não via uma concentração tão volumosa em Caracas desde 13 de abril deste ano, quando o governo comemorou cinco anos do retorno de Chávez ao poder após o Golpe de Estado de 2002. Os próprios chavistas reconhecem que as marchas que ocorreram desde aquela época não atraíram tanta gente.

“Nós sempre estamos com Chávez, mas estamos ainda mais nos momentos críticos”, disse Francisca Mendoza, que trabalha em sua comunidade para o Ministério da Saúde. “Primeiro o povo, depois Chávez”, avisou Mendoza, antes de ser interrompida por uma companheira, que tratava de corrigí-la. “Chávez é o povo. O povo é Chávez”.

O presidente venezuelano afirmou, na quinta-feira, dia da concentração opositora, que o referendo de domingo era o dia mais importante da revolução. Para os simpatizantes do presidente, a marcha de ontem foi uma resposta contundente à oposição venezuelana. “O que vemos hoje é indicador do triunfo do “Sí” no domingo”, avaliou Alexandra León, estudante da Missão Sucre, uma das iniciativas de Chávez, que criou aldeias universitárias em diversas regiões do país.

Correio Braziliense - 30/11/07



A página do jornal Correio Braziliense na qual foram publicadas as duas reportagens abaixo.

Oposição ocupa território chavista em Caracas

Oposição ocupa território chavista em Caracas

De Caracas, por Diego Junqueira


Milhares de venezuelanos tomaram a Avenida Bolívar de Caracas, na tarde de ontem, para rechaçar a reforma constitucional impulsada pelo presidente Hugo Chávez. No domingo a Venezuela viverá, pelo quarto ano consecutivo, um processo eleitoral. Desta vez a população vai decidir se aprova ou derruba o projeto de reforma. É “Sí” ou “No”.

A oposição acusa o presidente Chávez de utilizar a reforma para perpetuar-se no poder, já que o projeto permitiria a reeleição indefinida na Venezuela. O presidente, no entanto, diz estar intensificando a democracia no país, com artigos como o da jornada laboral, que reduziria de oito a seis horas diárias de trabalho, ou o da nova seguridade social, que garantiria seguro social para trabalhadores informais, donas-de-casa, entre outros.

A marcha desta quinta-feira foi convocada pelos estudantes universitários de oposição, a mais ativa força opositora à Chávez desde maio deste ano. “Dissemos que íamos encher a avenida Bolívar e enchemos. E hoje dizemos que no domingo ganhará o ´No´, e vamos ganhar. Só pedimos a todos para irem votar”, afirmou um dos líderes estudantis, Yon Goicoechea, da Universidad Católica Andrés Bello.

Próximo ao centro de Caracas, a Avenida Bolívar é um reduto chavista, local preferido pelo presidente para realizar seus discursos. Durante o ato da tarde de ontem, simpatizantes de Chávez lançavam dos edifícios situados ao redor da avenida panfletos com a propaganda da campanha pelo “Sí”. Da rua, os marchantes opositores gritavam: “Sin autobuses! Sin autobuses!”. Os manifestantes acusam o governo de que, para ter um grande número de espectadores em suas concentrações, tem de financiar diversos ônibus para trazer adeptos do interior do país. Hoje a Avenida Bolívar será o local de encerramento da campanha pelo “Sí”.

Fraude e transparência

No palco montado no começo da avenida, estavam não somente os estudantes universitários, mas também alguns líderes políticos da oposição, como Henrique Capriles e Leopoldo López, prefeitos de Baruta e Chacao, respectivamente, municípios da Grande Caracas. Ambos asseguraram que a oposição ganhará as eleições de domingo, e mantiveram um discurso de enfrentamento ante o governo. “Queremos nos reunir com você no domingo, Chávez, pois o “Sí” vai ganhar”, afirmou Capriles.

Durante todo o mês, setores da oposição venezuelana, sobretudo o Comando Nacional da Resistência (CNR), levantaram suspeitas quanto à transparência do processo eleitoral. Tanto que o CNR, no começo de novembro, convocava a população a não ir votar nas eleições. Diferente do Brasil, o processo eleitoral venezuelano não é obrigatório. O presidente Chávez diz que a oposição não irá reconhecer os resultados do domingo caso ganhe o “Sí”.

“Nós vamos reconhecer no domingo o resultado que tiver de reconhecer, mas somente se ele representar a vontade do povo venezuelano. CNE (Conselho Nacional Eleitoral), respeite os resultados do fim de semana, pois, se não respeitarem, o povo vai sair às ruas para defender o seu voto”, afirmou Capriles. De acordo co o CNE, cada bloco terá pelo menos 100 mil testemunhas espalhados pelas mesas de apuração do país.

Nesta quinta-feira, o ministro das Telecomunicações, Jesse Chacón, apresentou um vídeo gravado no dia 21 de novembro, na Igreja dos Samanes, em Caracas, no qual mostra dirigentes políticos da oposição convocando a população a não aceitar os resultados do próximo domingo, caso ganhe o “Sí” de Chávez. Um dos dirigentes políticos presentes à reunião era Leopoldo López, prefeito de Chacao. O vídeo foi enviado pelo ministro para o CNE.

Os estudantes universitários de oposição, por seu lado, são mais moderados quando se referem ao resultado das eleições. “Os resultados serão reconhecidos desde que haja transparência”, afirma Alexandra Díaz, secretária-geral do Centro de Estudantes da Universidad Simón Bolívar. “Não sabemos o que vai ocorrer no domingo à noite, se vamos sair a marchar ou não. Tudo dependerá de como for o processo de apuração. O mais importante agora, no entanto, é fazer um chamado para a população ir votar”, completou Díaz.

Se no alto de um dos edifícios da Avenida Bolívar uma faixa gigantesca expunha o “Sí” de Chávez, ao longo da avenida era possível ver diversas críticas ao presidente venezuelano. Em uma dessas imagens, o presidente venezuelano estava vestido de “yankee” e carregava em uma das mãos a bandeira de Cuba.

Pesquisas

As últimas pesquisas com as intenções de voto, divulgadas pelo instituto Datanálisis no fim de semana, dava a vitória para o “No”, com 45%, indicando o “Sí” com 30%. Outro instituto, o Consultores 21, também dá a vitória ao “Sí”, por 53% a 41%. O presidente Chávez, no entanto, diz que tais empresas manipulam os números das pesquisas. Ano passado, no entanto, o Datanálisis dava como certa a vitória de Chávez nas eleições presidenciais, o que ocorreu com 63% dos votos.

No último domingo, em entrevista transmitida ao vivo para o país pelo canal estatal VTV, o presidente venezuelano apresentou uma pesquisa divulgada pelo jornal Panorama, e realizada pelo instituto Ibat, o qual dava a vitória para o “Sí” por 65% a 45%. “Não imagino que seja tanto, mas é certo que vamos ganhar novamente”, comentou Chávez na ocasião.

Em meio às incertezas referentes ao próximo domingo, os opositores do presidente Chávez estão certos de que, pela primeira vez, poderão derrotar o presidente nas urnas. Uma das manifestantes, que andava por toda a avenida, gritava para que todos ouvissem: “Acabou o leite, presidente! Acabou o leite!”. Além de recordar a crise de abastecimento que vive o país, a manifestante enviava outra mensagem ao presidente, pois, na Venezuela, leite também significa sorte.