segunda-feira, 30 de abril de 2007

Vestidos de Venezuela


Foto oficial da V Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Alternativa Bolivariana para os Povos da América (Alba), realizada na cidade de Barquisimeto, Venezuela. Além dos presidentes dos quatro países membros da Alba (Bolívia, Cuba, Nicarágua e Venezuela), a Cúpula recebeu o presidente do Haití, a chanceler do Equador, e ministros de Uruguai, Dominica, São Cristóvão e Neves e São Vicente e Granadas.

Declaração final da V Cúpula ALBA: http://www.aporrea.org/actualidad/n94099.html

Fonte: Agência Bolivariana de Notícias (ABN)

A revolução é midiática (I)

Dez dias sem escrever uma linha sequer sobre Venezuela criam dúvidas demais na cabeça. A cada dia a revolução se intensifica, e acompanhá-la só não é quase impossível porque é impossível. Mas, enfim, foram nesses dias que eu comecei a entender a revolução bolivariana. Bolivariana?

Este mês de abril marca o início de marchas que vão culminar no final do próximo mês, precisamente no dia 27 de maio, quando o governo vai fechar a RCTV. Mas alguns podem dizer que há um mal entendido aqui: não é fechar, mas exercer de forma soberana o libre direito de não renovar a concessão. A revolução é justamente isso: impor uma versão da verdade.

Foi-se o tempo em que a sociedade civil venezuelana discutia propostas para o país. Talvez isso tenha acabado em 1999, quando a elaboração da Constituição bolivariana criou um momento mágico de união e concordância no país. Hoje, o povo (el pueblo, a todo instante mencionado por Chávez) e a maioria dos movimentos sociais aceitam tudo o que diz a mão do governo. Organizam-se em Consejos Comunales, participam das missões (muitas delas exitosas), em marchas... e desgostam/gostam do etanol, assim, dependendo do momento.

Criticar...? O que é crítica mesmo? Tudo é lindo, meu bem, nesse país... ou melhor, tudo está ficando lindo... temos muito é que trabalhar (o máximo de crítica).

Do outro lado está a oposição com voz, essa que detém o apoio dos meios de comunicação restantes. Desesperados, porque não sabem o que fazer sendo oposição, porque nunca foram oposição, porque o jogo sempre foi a seu favor, e mais desesperados ainda, porque a situação de hoje é verde-oliva com boina vermelha, e quer passar a mão em tudo.

Desesperados, essa oposição apresenta apenas uma estratégia: sair de Chávez. Além de lutar também pela permanência da RCTV.

Discutir o país? O que é discutir um país e elaborar propostas e soluções? O que faz essa oposição é brigar com o governo, contra essa mão grande.

A diferença dessa oposição é o fato de possuir voz.

E assim se monta o palco da revolução, onde ocorre a guerrilha de ambas as partes, onde se ouvem os tiros. O sangue está principalmente nos pixels que chega a mais de 90% das casas venezuelanas.

Quem gritar mais alto ganha.

E quem não gritar não é escutado. Ou melhor, nem existe. Nem vai existir.


(Texto publicado em 23/04/07)

No Brasil, o céu e o inferno venezuelano

Não tenho muito tempo para este texto, que não é jornalístico, mas um comentário. Hoje, 13 de abril, recorda-se 5 anos da volta de Chávez ao poder, depois do que aconteceu em 11 de abril. Há uma convocatória para que as pessoas para o Palácio de Miraflores, "en horas de la tarde", como diz o site da Aporrea. Assim, perdão pelo texto corrido.

Era difícil, no Brasil, ter informações confiáveis sobre a Venezuela. Aí só se fala de aqui como o céu e o inferno. De fato, a polarização política na Venezuela é radical. "Bolivarianos y escuálidos", como dizem os chavistas. "Marginales y democráticos", como dizem os anti-chavistas. Assim mesmo, não passeia por Miraflores ou pela sede da RCTV nenhum Deus ou Diabo. Os dois andam juntos e estão por toda parte.

Recebi hoje um e-mail do meu amigo Roberto de Martin com o link para uma reportagem (reportagem não, reprodução de notícia) do site Comunique-se. Aí segue.

http://www.comunique-se.com.br/index.asp?p=Conteudo/NewsShow.asp&p2=idnot%3D35655%26Editoria%3D8%26Op2%3D1%26Op3%3D0%26pid%3D20221124401%26fnt%3Dfntnl

O que me chamou a atenção foram os comentários. E talvez seja algo que gostaria de escrever lá que eu vou escrever aqui.

Sobre RCTV não se pode dscutir sem falar de abril de 2002, quando surgiram dos perguntas: Foi golpe ou não? Renunciou ou não? A lembrar:

11 de abril: duas marchas nas ruas, oposição e oficialistas. A da oposição queria chegar a Miraflores. A oficilista estava no meio do caminho. A guarda nacional (chavista) e a polícia metropolitana (da prefeitura opositora de então) deviam fazer a segurança de todos. Diversos confrontos, 19 mortos. Quem começou?, quem atirou? Há imagens apontando os dois lados.

O que fez RCTV? Duarante todo o dia passava imagens da marcha com uma faixa na tela: "Ni un paso atrás". Isso é política, amigos. Isso não é se meter em política (como devemos fazer todos os cidadãos), isso é fazer política. Isso é incitar o povo contra um poder constituído.

Golpe de Estado ou não?

Sobre a noite, há imagens de Chávez saindo de Miraflores, assim, escoltado, mas não algemado. Ele diz que estava sendo sequestrado. A oposição diz que ele assinou a renúncia, mas esse papel nunca surgiu.

12 de abril: A oposição enlouqueceu nesse dia. Se tinham a tese da renúncia, quem deveria entrar no poder era o vice-presidente, para convocar novas eleições. Mas não, a oposição destituiu tudo, mudou o nome do país, aboliu a constituição aprovada dois anos antes... E colocou o empresário Pedro Carmona como presidente (hoje exilado na Colômbia).

O que fez a RCTV? Transmitiu tudo.
Na época o governo controlava apenas uma emissora Estatal, a Venezolana de Televisión, canal 8. Mas essa foi ocupada pela oposição no dia anterior. Restaram então outros quatro canais: RCTV, Venevisión, Televen e Globovisíon. As quatro faziam o jogo da oposição.

Chávez estava numa ilha venezuelana. Iam extraditá-lo para Cuba, os militares opositores, mas não o fizeram.

Houve perseguições a políticos chavistas.

13 de abril: A partir da madrugada os chavistas voltam a ocupar as ruas de novo. Que foi que aconteceu ontem? Carmona presidente? Não havia nada mais incostitucional. E dale povo saindo às ruas.

O que fez RCTV e as outras emissoras? Passaram filmes e desenhos durante todo o dia. Não transmitiram uma imagem sequer. A ordem era não passar nada sobre Chávez. Queriam abafar a mobilização porque

A mobilização foi feita boca a boca, celular... qualquer coisa. Havia muitos jornalistas estrangeiros nas ruas. E era com esses que os chavistas conversavam.

Pouco a pouco foram se unindo, aproximando-se de Miraflores. Retomaram o canal 8. Os partidários do presidente foram resurgindo, foram ao canal, foram às ruas, exigiram a volta do prediente. O número crescia. Chávez diz que houve mais de cinco milhões nas ruas de Caracas. Isso é impossível. Não há imagens nem depoimentos que confirmam.

Enfim, pediam a volta do presidente. Diziam que não havia ocorrido a renúncia. O documento nunca apareceu. Carmona e seus amigos, que tomaram o poder por pouco mais de 24 horas, fugiram de Miraflores. Os chavistas retomaram o palácio e colocaram o vice de então como presidente. Há imagens disso, do juramento e tudo. (Isso corrobora a idéia de que houve renúncia de Chávez, mas o documento nunca apareceu...)

E como gosta de dizer Chávez, à noite voltava ele à Miraflores, trazido pelas mãos do povo. E isso nem a oposição nega.

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Depois disso e até hoje: Venevisión e Televen se tornaram chavistas. RCTV será fechada (e será). Globovisión será o único canal de oposição (sua concessão se encerra mais ou menos em 2014). E surgiram os canais estatais ViveTV (que a partir deste mês tbm será transmitido na europa. Este é um canal mais cultural) e Telesur (que não era um canal aberto para os venezuelanos até fevereiro deste ano).

Como estamos nesses dias de abril, há uma maratona de vídeos nas emissoras, tanto estatales como de oposição. Foi vendo um pouco de tudo, e conversando com alguns amigos venezuelanos (chavistas ou não) que escrevi isso.

O problema com fechar a RCTV é que o governo não apresenta razão jurídica. Não há provas de ilegalidade. Há razões políticas, onde se consome a censura.

Há que escrever mais sobre isso, mas a tarde já avança. Esse, na verdade, é o país das marchas. Hoje em Miraflores. Dia 21 vai haver uma em apoio a RCTV.

E para os dias anteriores a 28 de maio, quando acabará a concessão da RCTV, Chávez disse que há planos para matá-lo, para um novo golpe.

Vamos ver o que vai acontecer.


(Texto publicado em 13/04/07)

O nascimento do partido único (ou unido) venezuelano

É como se diz: o teatro estava "rojo rojito". Tudo vermelho. Os 2398 propulsores, que iam ser juramentados pelo comandante, todos vermelhos. Na parte de frente da camiseta, "Propulsores". Atrás , "Patria, Socialismo o Muerte". Nem Bolívar faltou, cuja imagem ressoava aqui e ali, em algumas faixas na parede.

Às 19h40 do último sábado, o presidente e comandante venezuelano Hugo Chávez começou seu discurso no teatro Teresa Carreño, em Bellas Artes, Caracas. Era o primeiro evento dos propulsores do PUS, como recordam alguns, ou PSUV, como habilmente trocou o comandante. Para evitar o trocadilho inevitável, Chávez fez do PUS venezuelano (Partido Único de Venezuela) o PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela). Fez é modo dizer, porque ainda não existe. O evento de sábado serviu justamente para liberar os 2398 propulsores, de toda parte da Venezuela, que caminharão o país para formar a base do partido, e assim convocar o congresso fundacional, previsto para agosto deste ano.

O comandante não estava ali como presidente, como admitiu nas 2 horas e 54 minutos em que falou (havia, sim, um papel na tribuna em que estava, mas ele mal olhava. Estava reservado para o final). O comandante estava ali como comandante. "Disse Bolívar uma vez: se estás em dúvida, ouça o povo. O povo sabe o que fazer. E o povo quer unidade, porque disso depende o seu futuro. Uma unidade que tem de ser orgânica, profunda, democrática. Que acentue a democracia". Chávez clamava pela unidade. Era a unidade, essa palavra, a única palavra que talvez justificasse. "¡La unidad! ¡La unidad! ¡La unidad!" Assim, várias vezes.

Unidade essa com a qual pretende abolir a autonomia das organizações civis: "Nasceram muitos sindicatos esses anos, todos com o mesmo veneno: a autonomía (dos partidos políticos). Faz tempo que não me reúno com os trabalhadores (a palavra é obrero, no sentido "Lula dos anos 70/80"). Onde estão eles? Estão todos dividos, brigados. Precisamos de unidade. União neste caminho. União para a classe de trabalhores! Unidade! Unidade! Unidade! É imprescindível."

"É a união que necessitamos. Falta-nos somente a união para completarmos a obra de nossa regeneração". E citava e citava Simón Bolívar, assim, lendo.

Seguia o comandante, ali, diante dos soldados, os primeiros soldados da batalha. Que este seja um partido capaz de se diluir na massa, dizia. Disse. Que não se imponha ao povo, mas que se subordine a ele. Que surja muitas liderança na massa. "Nosso exército para a guerra!". "E se eu cometer algum erro, que me expulsem do partido... e logicamente do governo". É verdade, disse isso, e dessa maneira, às 22:03.

O comandante é um homem que não comete muitos equívocos. Não digo erros. Sem julgar o que faz, quero dizer que o comandante não se permite passos falsos. Ele sabe o que vai dizer, como vai dizer, ele vai produzir a reação, ele conduz toda a cena. Mas o comandante muitas vezes não sabe quem é aquele que ouve, o outro, que também pensa, faz e diz algo. Os que estão ao redor do presidente cometem, muitas vezes, passos falsos. O espetáculo não é ensaiado. E isso sempre aparece quando é o presidente quem fala. Digo, comandante.

Foi assim que aconteceu, no final de janeiro, em um de seus programas Aló, Presidente. Conversando com uma garota da platéia, que desde novembro fazia um curso técnico sobre psicultura, Chávez perguntou-lhe o que já havia aprendido sobre a técnica de criar peixes. "Presidente, ainda não chegamos nessa parte". "Em dois meses não viram nada sobre o assunto?" "Estamos aprendendo alguns conceitos sobre socialismo. Justamente amanhã vamos começar a estudar psicultura".

No último sábado o espetáculo também seguiu algumas linhas tortas. "Vocês, propulsores, sabem que no dia 19 de abril já existirão cerca de 16500 outros propulsores, e criados pelas suas mãos?". Não, foi o que disse um coro alto. "Não sabem?! Jorge, é importante que saibam." Dizia o comandante ao vice-presidente da República e ex-presidente do Conselho Nacional Eleitoral. "Precisam ter um folheto explicando tudo. Vocês têm um folheto? Não. Precisam ter." E Jorge consentía com a cabeça.

Em 19 de abril serão 16500 propulsores. Um mês depois serão 70 mil, "do melhor que tenha a revolução", assegurou o comandante. Estes terão três meses para formar os batalhões socialistas dos círculos socialistas e para fazer o levantamento de eleitores e eleitoras, que no futuro militarão para o partido.

A previsão é que em 15 de agosto se realize o congresso fundacional do partido, a partir do qual serão discutidos o estatuto, os programas, estratégias, a cor, o nome e inclusive a ideologia. "Em 2 de dezembro convocaremos milhões de militantes para a consulta em que ratificaremos ou não o partido. Este é o esquema. Vocês levam a responsabilidade de impulsioná-lo, para que o partido nasça forte e sólido para impulsionar a revolução".

E então, às 22h32, Chávez pegou o seu papel e pediu que os 2398 ficassem em pé e levantassem o braço para o juramento. "Eu levanto o braço esquerdo porque sou canhoto", disse o comandante. Muitos destros ali fizeram o mesmo.

E juraram por Deus, pela honra, pela pátria, e diante do povo, que formarão os batalhões e os círculos socialistas, para impulsar a assembléia e o congresso fundacional do partido.

"Do grande partido socialista, bolivariano, revolucionário e indo-americano..."

Coro: "ÊÊÊ!!!"

"Até à vitória..."

Coro: "Sempre!!!"

"Pátria, Socialismo..."

Coro: "... o morte!!!"

"Viva a revolução. Viva o povo!!!"

Era 22:34 do último sábado.


(Texto publicado em 29/03/07)

La muerte de La niña

Baruta, Caracas, 28 de janeiro de 2007

Foi necessário um banho para contar essa história.


I

O cheiro de carne queimada começou com um churrasco em casa. A churrasqueira a gás de Oscar estava montada havia 3 dias, esperando o cordeiro prometido uma semana antes. Quem tomou conta, no entanto, foram as costelas de porco do Sr. Gines, temperadas a alho, sal e vinho.

O cheiro de queimado começou com a estréia da churrasqueira. Seu metal, que conhecia o fogo pela primeira vez, retorcia-se microscopicamente, liberando uma fumaça negra e inodora, até o ponto que compactuava com o fogo, criando calor suficiente para queimar o cordeiro.

E foi assim que morreu La Niña.

Já passados pelo porco e o cordeiro, enfastiados de mandioca, o evento social de casa terminava com uma conversa tola ao lado da churrasqueira, na pequena laje do apartamento voltada para a rua. De um tempo a outro, enquanto provocávamos as moças que passavam pela calçada, embaixo de nós, disse o Sr. Gines:

- Olha a fumaça ali, está pegando fogo - e apontou com o dedo um edifício nem 30 metros distante.

Era um pequeno prédio de dois andares (mais uma cobertura) espremido entre outros dois prédios, numa rua perpendicular a nossa, de nome "Bolívar". A fumaça negra, muito negra, vinha da parte de trás do edifício, talvez do segundo andar, talvez da cobertura, uma área que mal víamos. Mas, do piso térreo, via-se um minúsculo mercado, ao lado de uma porta que levava aos apartamentos. Nossa posição era quase privilegiada.

Começou uma correria calada nas ruas; uma gritaria desordenada, solitária e feminina. Fecharam as portas da loja. Voltaram a abrir. Em frente, três homens impediam uma mulher entrar no edifício, que era arrastada pela calçada. A fumaça às vezes enfraquecia, às vezes vociferava. A cobertura do edifício parecia mais um depósito de mercadorias, dois ou três homens corriam de um lado para o outro com as camisas nas mãos. Não se via como enfrentavam o fogo, mas estavam calmos. La madre, na rua, se arrastava de um lado a outro, gritando e chorando e dizendo coisas que eu não entendia.

O barrio barutenho começava a descer o morro e a tomar a estreita Calle Salomón, enquanto eu pedia a Rosmer que me "traduzisse" o que gritava a mulher na rua:

- Eu não sei... eu acho que ela está dizendo... "La niña murió".

Eram 5h15 da tarde. A fumaça negra como nunca.

A polícia chegou cerca de 15 minutos depois do aviso do Sr. Gines. E outros carros mais chegaram, fechavam as ruas.... enquanto se esperava que pela rua dobrasse o caminhão dos bombeiros. O primeiro apareceu 40 minutos depois de iniciado o incêndio. Já havia mais de cem barutenhos em frente ao edifício quando o invadiu um primeiro bombeiro desesperado. Seguiu até o teto da cobertura, onde, com os homens que ali já estavam, arrebentaram as telhas ao final do edifício e despejaram a caixa d´água que estava ao lado. Da rua subiu os dois andares a mangueira amarela e suja dos bombeiros, rumo ao quarto de La niña, que já não tinha mais vida. A fumaça negra se converteu branca e se dissipou no céu.

Foi quando resolvi descer.


II

Já passavam dos duzentos os barutenhos - pregados nas ruas e nas escadas que sobem o morro. Os rumores eram todos muito baixos, porque o caminhão dos bombeiros ainda metia água adentro. Todos os olhos grudados naquele prédio branco e inacabado. Os olhos ansiosos por aquilo que dali sairia, que parte ou forma da parte, ou pedaço... negro, amarilento... encheria um saco - uma maca - para descansar na ambulância que mantinha suas portas como uma grande boca aberta. Da janela do primeiro andar, um trecho furado da mangueira jorrava água para o alto, que caía na rua como uma chuva artificial, criando uma desoladora imagem de harmonia com o desconsolo de Baruta. La madre, encharcada e esparramada sobre uma poça d´água, era protegida de si mesma por três ou quatro homens. E nas sarjetas se inconformavam parentes e vizinhos molhados.


III

Cessada a chuva, com a espera ainda insistente, resolvi caminhar pelo bairro. Todas as ruas estavam um tanto vazias. Algumas padarias abertas, poucos ônibus. A via principal vivia a estranha calmaria de seu domingo. Baruta vivia seu silêncio dominical. Os barutenhos e eu resolvemos voltar para casa.

Quando abri a porta da pensão, o Sr. Pedro, dono da residência, estava junto a todos ao redor da mesa:

- Olha, Diego, isso que aconteceu hoje, foi com amigos meus. Eu conheço essas pessoas - e olhando para todos - La niña era muito bonita. Eu a carreguei no colo, uma gorducha encantadora. Tinha como seis anos.

Algum tempo depois decidi voltar à rua. Fazia noite, mas por volta de trinta pessoas e quatro carros de polícia ainda se mantinham à porta do edifício.

Já havia passado quase três horas do incêndio quando avistei a primeira e única equipe de jornalistas. Era a equipe da RCTV, a emissora de televisão a quem Chávez prometeu não renovar a licença de transmissão. Foi a última correria do dia.

Me coloquei atrás do cinegrafista, mas não consegui escutar as últimas declarações do policial metropolitano. Quando a luz da câmera se apagou, vociferou um homem com três crianças agarradas às suas calças:

- O senhor não falou sobre a construção ilegal que estão fazendo na cobertura desse prédio aqui - e apontou para o edifício que fica ao lado do incendiado.

- Mas essa informação não está confirmada - defendeu-se o policial.

- Como o senhor sabe disso? - perguntou o repórter ao desconhecido.

- Porque eu vivo nesse prédio.

- O senhor não quer declarar isso?

E, balançando a cabeça, o homem saiu. No mesmo instante começou a gritar para a câmera outro vizinho, que trazia uma criança no colo:

- Essas coisas precisam ser ditas... dizem que tudo é culpa do Chávez, é fácil dizer que é culpa do Chávez, mas as pessoas não se dão conta, não fazem nada, não são conscientes - enquanto o homem falava, rasteiramente o cinegrafista liga a câmera e começa a filmar o topo do edifício, gravando a declaração do indivíduo - há muitas coisas irregulares acontecendo, essa construção na cobertura é ilegal, não tem permissão da prefeitura de Baruta...

- O senhor quer declarar? - pergunta o cinegrafista.

- Sim, claro... com a criança no colo!!

- Não, não, com a criança não pode.

- Sim...

- Não, com ela não pode.

E contou a história.

O prédio de La niña tem dois andares, mais uma cobertura. O edifício ao lado tem dois andares mais altos e uma cobertura - em construção ilegal. Por volta das cinco da tarde, enquanto La niña dormia, soldavam parte do teto de metal da cobertura. Uma faísca então caiu em seu colchão ou em sua cortina. Os pais estavam no andar de baixo e não se deram conta. O fogo tomou rapidamente o colchão e as cortinas. A menina se asfixiou. A fumaça negra corroeu o quarto e o andar. Ninguém conseguiu entrar. La niña morreu carbonizada.

...

- Eles cobrem tudo pra ninguém perceber. Mas não podem sair construindo assim . Até parecem que querem chegar ao céu?! - comentava-me uma senhora que também ouvia o vizinho.

- Sim, parece.


IV

Minutos depois, a equipe de "Los Tigres" vencia uma histórica partida contra "Magallanes", fechando a série em 4 a 1 e conquistando a cobiçada taça da temporada 2006/2007 do beisebol venezuelano. Isso eu só pude perceber por não mais de três fogos de artifícios, que me chegaram timidamente de muito longe. A rua estava calada, criminosamente calada.

Antes de me deitar, fui ao quarto de Oscar:

- Muchacho, eu acho que nós fomos os primeiros a perceber o incêndio.

- Eu creio que sim...

E voltei para o meu quarto, na cama, deitado, a pensar como morrera La niña. Calada? Já estava morta quando se queimou? Teria gritado? De desespero, de dor... Ou dormia enquanto se dissipava em fumaça branca? Por que não gritamos, não corremos pra rua? Por que demoraram tanto os bombeiros? Esqueceram de avisar? Esquecemos de avisar? E quem são eles, os que constróem coberturas que chegam ao céu? Quem fará justiça? E de que forma será feita? Penso... e temo, em meu quarto, a menos de 50 metros da cama de La niña.

A madrugada silenciou tudo. Diferente das minhas outras doze noites em Baruta, não houve bêbados, conversas, nem garrafas quebradas. Não houve carros, motocicletas, nem alarmes disparados. Não houve maracas, celulares, nem cantos religiosos.A madrugada silenciou tudo. Foi um silêncio puro.

A verdade na imprensa venezuelana

Ler jornais na Venezuela é um entretenimento que me consome diversas horas. É muito divertido e interessante. Em cada página há uma notícia que parece que vai mudar o país ou a minha vidade habitante venezuelano.

Ontem, por exemplo, eu nem ia comprar o jornal. Já tinha lido o El Nacional na universidade, mas resolvi passar numa lotérica que há em Baruta, onde vivo, para ver a capa do El Universal, que é o maior e melhor jornal do país (no sentido em que é muito completo) e, além disso, é um dos mais ferrenhos críticos de Chávez. Chegam a dizer "A RCTV é a bandeira pela qual todos os venezuelanos devemos lutar". (Como não tenho tv, o que provavelmente vou providenciar neste fim de semana, não posso dizer muito sobre a RCTV. Mas, ao dar umas bisbilhotadas em tvs alheias, e só de olhar pela internet... essa emissora é uma ... porcaria completa. Isso não representa um apoio à medida de não renovação da licença).

Já ia fugindo do assunto...

A capa do El Universal de 14/02/2007 foi "Governo aumentou os preços de carne, frango, leite em pó e ovos". Ia quase saindo da lotérica quando percebi embaixo de vários jornais um exemplar de DiárioVea, um jornal criado pelo governo. No mesmo dia, a manchete "Governo baixou os preços de carne, leite em pó e ovos" me levou ao delírio.

O que acontece: o país vive uma forte crise de desabastecimento. É comum ir aos mercados e não encontrar carne, frango, leite e, principalmente, açúcar. Eu, em um mês na Venezuela, nunca vi açúcar em supermercado. Isso criou uma rede de especuladores, que detém alguns desses produtos e os vendem nas ruas a preços elevadíssimos. Ou mesmo nos mercados, com pouca oferta e muita demanda, o preço sobe.

Anteontem, então, o governo fixou novamente alguns preços. Por exemplo (valores não exatos): um frango inteiro estava fixado, há já algum tempo, em 9 mil bolívares, mas era vendido nos mercados a 14 mil. O governo então determinou que fosse vendido a 11 mil, valor que deve ser respeitado.

Ou seja, de fato, o preço fixado pelo governo aumentou. Mas o preço real, vendido nos mercados aos consumidores, baixou.

Não é necessário evidenciar nenhuma conclusão quanto aos jornais.

Mas, bem, vou passar num mercado hoje e ver o que passou mesmo. Às vezes o preço foi pra 17 mil... nunca se sabe.

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Resolvi então colocar aí ao lado links desses jornais e de um outro, do Aporrea, que é uma agência de notícias e opinião governamental. E coloquei também da Agencia Bolivariana de Noticias, igualmente do governo.

Desfrutem da imprensa venezuelana.

(Texto publicado em 15/02/07)

Caracas II - "Pátria, socialismo ou morte"

Chego a Caracas uma semana depois do presidente Hugo Chávez tomar posse para seu terceiro mandato, quando jurou, diante da Venezuela, da América Latina e do mundo todo, por "Pátria, socialismo ou morte", repetindo o que dissera o comandante cubano, Fidel Castro, anos antes. Chego a Caracas com o anúncio do Socialismo do século XXI, com a promessa do presidente de transformar a Venezuela numa comunidade socialista. Chávez estivera na imprensa internacional durante uma semana inteira.

O que eu sabia sobre a Venezuela então: uma emissora de tv, de oposição ao governo (RCTV), não terá a licença prorrogada para manter sua faixa no espectro magnético; o dito valor do dólar no mercado negro; a anunciada nacionalização de uma empresa de telefonia (Cantv) e de outras empresas de telecomunicações; a promessa de que os funcionários repartirão os lucros das empresas; o petróleo; que Caracas é uma cidade muito perigosa; que as mulheres venezuelanas são lindas.

Ah, claro, a polarização. "Você sabe que na Venezuela ou você ama ou você odeia o Chávez". Diziam-me. "Venezuela? Você vai para lá?... Bem, é só não se envolver com o Chávez".

- Do ponto de vista político, você é esquerda ou direita? - perguntara-me António.
- Politicamente, eu sou mais à esquerda - defensivamente, respondi.

Defensivamente. Porque não sabia se, como ou o que deveria responder. Defensivamente não porque não sabia o que responder. Mas por receio, diria. Ou medo mesmo: da reação, do que poderia ser retrucado, ou feito, por não saber como se fecham ou se abrem as portas. E eu mal pisara na Venezuela. A sola do meu sapato só conhecia o carpete daquele Honda Civic prateado.

Saí do Brasil com algumas idéias na cabeça.

Simpatizo com Chávez e Evo, por exemplo. Há um retrato de uma injustiça generalizada, uma distribuição de renda desequilibrada, serviços públicos precários, um mal-estar social desesperado e dissipado, uma exploração e um alijamento secular. O que um governo precisa fazer num país com muitos miseráveis?... Dar espaço, fazer espaço. Por isso Chávez e Evo me parecem bons, porque ao menos gritam contra toda uma injustiça histórica.

Só não me perguntem se eu tenho certeza. A obrigação é não se apaixonar. Ou melhor, não se ludibriar, porque o que Chávez e Evo têm contra eles, são eles mesmos - ou nós: o custo América Latina, o legado América Latina - ou o do ser humano. Os interesses, os fins justificando meios, as ditaduras, a plata, a grana, o petróleo - e é muito petróleo.

Saio do Brasil e chego à Venezuela com bom impressão. Inclinado, gauche, vermelho. O que vejo na imprensa e o que ouço de alguém que conhece que conhece que conhece alguém são, sempre, reclames de uma classe média insatisfeita, de empresários, de profissionais liberais, de patrões, de donos da comunicação, de governantes e políticos de oposição. Não me recordo de nenhum levante popular. Mas quem hoje na Venezuela mobilizaria um levante de massa? Os estudantes? Os sindicatos? Os partidos políticos? Ou a classe média, empresários, profissionais liberais, patrões, donos da comunicação, governantes e políticos que apóiam o governo?

Saio do Brasil e chego à Venezuela com bons olhos. Mas sei que fede - em algum lugar fede - e quero saber onde fede.

(Texto publicado em 08/02/07)

Caracas I - "Bienvenido presidente Ahmadinejad"

António não se esforçava muito pra olhar ou pra sorrir. No aeroporto, quase debruçado sobre o corrimão que separa os que chegam dos que esperam, segurava nas mãos um pedaço de papel com o logo da Universidad Simón Bolívar e um escrito quase apagado: "Da Silva". Ele não estava só. Havia pelo menos outros 6 ou 7 com os cartazes, sem contar os que apenas esperavam. Passei devagar pela porta. Fui um dos primeiros a resgatar minha bagagem: duas malas médias e uma mochila. Mirei os seis ou sete papéis, avistei António, olhei em seus olhos e balancei a cabeça. Ele me deu as costas e foi esperar mais adiante.

Eu não podia passar por aquele corrimão com o carrinho e as bagagens. Acabara de chegar à Venezuela e, cansado com a viagem, assustado, meu espanhol se esforçava, mas não compreendia as palavras que aqueles venezuelanos metiam boca adentro. Falavam de carrinho e dólares ao mesmo tempo, um e outro chegando, outros me analisando de longe, todos devidamente uniformizados - talvez trabalhassem no aeroporto, não consegui identificar. Caminhei alguns metros carregando minhas malas, enquanto um venezuelano ainda insistia na história dos dólares. Livrei-me dele e fui ao encontro de António.

Depois de um mal cumprimento, disse a ele que precisava trocar meus dólares. A caminho da casa de câmbio do aeroporto, que estava fechada, nos chamou a atenção um silvo muito alto. Era Gordo, que se aproximou da gente - também uniformizado - oferecendo-me bolívares para trocar.

- Mira, a casa de câmbio paga 2100. Eu pago 2500. Quantos queres trocar? 300? Olha quanto irias perder... - e me mostra o valor em sua calculadora, que trazia no bolso.

Com o cansaço, os sustos e a confusão dos carrinhos e dólares, pedi um tempo para calcular.

O câmbio na Venezuela está fixado pelo governo há cerca de quatro anos (a confirmar) com o valor de 2 mil 147 bolívares por dólar. Oficialmente. No Brasil, tivera notícias de que, no mercado negro (ou extra-oficial, como se diz) é possível trocar dólar pelo dobro do valor oficial. Mesmo assim, não pude fazer muitas contas. Confesso que não cheguei a conclusão alguma. Primeiro achei que estava sendo enganado, o que os assustara. Depois percebi que estava tudo mais ou menos certo. Não tive alternativa.

Saí do aeroporto com 750 mil bolívares (meus 300 dólares) e mais 33 dólares, que julguei melhor guardar.

Não conseguia olhar para António. Estava pensando nele desde Santa Cruz de la Sierra, onde meu vôo demorara quase cinco horas para sair. Eram sete horas de uma manhã muito iluminada e bonita. E António me esperava desde a uma da madrugada, o que me fez questão de confessar antes mesmo de entrarmos em seu Honda Civic.

António parecia tudo, menos um taxista. Levava a barba por fazer, era gordo e jovem. Morador de La Guaira, município litorâneo próximo a Caracas - onde fica o aeroporto internacional de Caracas, beijando o mar do Caribe - António pratica motocross e mergulho.

No carro, eu espiava o mar da janela enquanto pensava em alguma coisa pra dizer a ele. Conversamos tolices sobre o caminho. Onde estava, se era Caracas, quanto tempo levaria. Ele xingava outros motoristas - eu me imaginava conhecendo o Caribe. O que eu fazia no Brasil, o que ia fazer na Venezuela, quantos anos tinha, de onde ele era, por que não fui para a Europa.

Surgiam pelo caminho, nos canteiros centrais da linda rodovia - cujo asfalto parecia brilhar - faixas com os dizeres "Bienvenido presidente Ahmadinejad" e uma linha embaixo com o mesmo - suponho - em árabe. Eram a recepção do presidente do Irã, que estivera no país poucos dias antes.

"Venezuela e Iran, naciones hermanas" anunciavam outras faixas, além de mostrarem fotos dos presidentes dos dois países.

Foi entre uma faixa e outra que me perguntou António:

- Do ponto de vista político, você é esquerda ou direita?


(Texto publicado em 24/01/07)