António não se esforçava muito pra olhar ou pra sorrir. No aeroporto, quase debruçado sobre o corrimão que separa os que chegam dos que esperam, segurava nas mãos um pedaço de papel com o logo da Universidad Simón Bolívar e um escrito quase apagado: "Da Silva". Ele não estava só. Havia pelo menos outros 6 ou 7 com os cartazes, sem contar os que apenas esperavam. Passei devagar pela porta. Fui um dos primeiros a resgatar minha bagagem: duas malas médias e uma mochila. Mirei os seis ou sete papéis, avistei António, olhei em seus olhos e balancei a cabeça. Ele me deu as costas e foi esperar mais adiante.
Eu não podia passar por aquele corrimão com o carrinho e as bagagens. Acabara de chegar à Venezuela e, cansado com a viagem, assustado, meu espanhol se esforçava, mas não compreendia as palavras que aqueles venezuelanos metiam boca adentro. Falavam de carrinho e dólares ao mesmo tempo, um e outro chegando, outros me analisando de longe, todos devidamente uniformizados - talvez trabalhassem no aeroporto, não consegui identificar. Caminhei alguns metros carregando minhas malas, enquanto um venezuelano ainda insistia na história dos dólares. Livrei-me dele e fui ao encontro de António.
Depois de um mal cumprimento, disse a ele que precisava trocar meus dólares. A caminho da casa de câmbio do aeroporto, que estava fechada, nos chamou a atenção um silvo muito alto. Era Gordo, que se aproximou da gente - também uniformizado - oferecendo-me bolívares para trocar.
- Mira, a casa de câmbio paga 2100. Eu pago 2500. Quantos queres trocar? 300? Olha quanto irias perder... - e me mostra o valor em sua calculadora, que trazia no bolso.
Com o cansaço, os sustos e a confusão dos carrinhos e dólares, pedi um tempo para calcular.
O câmbio na Venezuela está fixado pelo governo há cerca de quatro anos (a confirmar) com o valor de 2 mil 147 bolívares por dólar. Oficialmente. No Brasil, tivera notícias de que, no mercado negro (ou extra-oficial, como se diz) é possível trocar dólar pelo dobro do valor oficial. Mesmo assim, não pude fazer muitas contas. Confesso que não cheguei a conclusão alguma. Primeiro achei que estava sendo enganado, o que os assustara. Depois percebi que estava tudo mais ou menos certo. Não tive alternativa.
Saí do aeroporto com 750 mil bolívares (meus 300 dólares) e mais 33 dólares, que julguei melhor guardar.
Não conseguia olhar para António. Estava pensando nele desde Santa Cruz de la Sierra, onde meu vôo demorara quase cinco horas para sair. Eram sete horas de uma manhã muito iluminada e bonita. E António me esperava desde a uma da madrugada, o que me fez questão de confessar antes mesmo de entrarmos em seu Honda Civic.
António parecia tudo, menos um taxista. Levava a barba por fazer, era gordo e jovem. Morador de La Guaira, município litorâneo próximo a Caracas - onde fica o aeroporto internacional de Caracas, beijando o mar do Caribe - António pratica motocross e mergulho.
No carro, eu espiava o mar da janela enquanto pensava em alguma coisa pra dizer a ele. Conversamos tolices sobre o caminho. Onde estava, se era Caracas, quanto tempo levaria. Ele xingava outros motoristas - eu me imaginava conhecendo o Caribe. O que eu fazia no Brasil, o que ia fazer na Venezuela, quantos anos tinha, de onde ele era, por que não fui para a Europa.
Surgiam pelo caminho, nos canteiros centrais da linda rodovia - cujo asfalto parecia brilhar - faixas com os dizeres "Bienvenido presidente Ahmadinejad" e uma linha embaixo com o mesmo - suponho - em árabe. Eram a recepção do presidente do Irã, que estivera no país poucos dias antes.
"Venezuela e Iran, naciones hermanas" anunciavam outras faixas, além de mostrarem fotos dos presidentes dos dois países.
Foi entre uma faixa e outra que me perguntou António:
- Do ponto de vista político, você é esquerda ou direita?
(Texto publicado em 24/01/07)
segunda-feira, 30 de abril de 2007
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