segunda-feira, 30 de abril de 2007

La muerte de La niña

Baruta, Caracas, 28 de janeiro de 2007

Foi necessário um banho para contar essa história.


I

O cheiro de carne queimada começou com um churrasco em casa. A churrasqueira a gás de Oscar estava montada havia 3 dias, esperando o cordeiro prometido uma semana antes. Quem tomou conta, no entanto, foram as costelas de porco do Sr. Gines, temperadas a alho, sal e vinho.

O cheiro de queimado começou com a estréia da churrasqueira. Seu metal, que conhecia o fogo pela primeira vez, retorcia-se microscopicamente, liberando uma fumaça negra e inodora, até o ponto que compactuava com o fogo, criando calor suficiente para queimar o cordeiro.

E foi assim que morreu La Niña.

Já passados pelo porco e o cordeiro, enfastiados de mandioca, o evento social de casa terminava com uma conversa tola ao lado da churrasqueira, na pequena laje do apartamento voltada para a rua. De um tempo a outro, enquanto provocávamos as moças que passavam pela calçada, embaixo de nós, disse o Sr. Gines:

- Olha a fumaça ali, está pegando fogo - e apontou com o dedo um edifício nem 30 metros distante.

Era um pequeno prédio de dois andares (mais uma cobertura) espremido entre outros dois prédios, numa rua perpendicular a nossa, de nome "Bolívar". A fumaça negra, muito negra, vinha da parte de trás do edifício, talvez do segundo andar, talvez da cobertura, uma área que mal víamos. Mas, do piso térreo, via-se um minúsculo mercado, ao lado de uma porta que levava aos apartamentos. Nossa posição era quase privilegiada.

Começou uma correria calada nas ruas; uma gritaria desordenada, solitária e feminina. Fecharam as portas da loja. Voltaram a abrir. Em frente, três homens impediam uma mulher entrar no edifício, que era arrastada pela calçada. A fumaça às vezes enfraquecia, às vezes vociferava. A cobertura do edifício parecia mais um depósito de mercadorias, dois ou três homens corriam de um lado para o outro com as camisas nas mãos. Não se via como enfrentavam o fogo, mas estavam calmos. La madre, na rua, se arrastava de um lado a outro, gritando e chorando e dizendo coisas que eu não entendia.

O barrio barutenho começava a descer o morro e a tomar a estreita Calle Salomón, enquanto eu pedia a Rosmer que me "traduzisse" o que gritava a mulher na rua:

- Eu não sei... eu acho que ela está dizendo... "La niña murió".

Eram 5h15 da tarde. A fumaça negra como nunca.

A polícia chegou cerca de 15 minutos depois do aviso do Sr. Gines. E outros carros mais chegaram, fechavam as ruas.... enquanto se esperava que pela rua dobrasse o caminhão dos bombeiros. O primeiro apareceu 40 minutos depois de iniciado o incêndio. Já havia mais de cem barutenhos em frente ao edifício quando o invadiu um primeiro bombeiro desesperado. Seguiu até o teto da cobertura, onde, com os homens que ali já estavam, arrebentaram as telhas ao final do edifício e despejaram a caixa d´água que estava ao lado. Da rua subiu os dois andares a mangueira amarela e suja dos bombeiros, rumo ao quarto de La niña, que já não tinha mais vida. A fumaça negra se converteu branca e se dissipou no céu.

Foi quando resolvi descer.


II

Já passavam dos duzentos os barutenhos - pregados nas ruas e nas escadas que sobem o morro. Os rumores eram todos muito baixos, porque o caminhão dos bombeiros ainda metia água adentro. Todos os olhos grudados naquele prédio branco e inacabado. Os olhos ansiosos por aquilo que dali sairia, que parte ou forma da parte, ou pedaço... negro, amarilento... encheria um saco - uma maca - para descansar na ambulância que mantinha suas portas como uma grande boca aberta. Da janela do primeiro andar, um trecho furado da mangueira jorrava água para o alto, que caía na rua como uma chuva artificial, criando uma desoladora imagem de harmonia com o desconsolo de Baruta. La madre, encharcada e esparramada sobre uma poça d´água, era protegida de si mesma por três ou quatro homens. E nas sarjetas se inconformavam parentes e vizinhos molhados.


III

Cessada a chuva, com a espera ainda insistente, resolvi caminhar pelo bairro. Todas as ruas estavam um tanto vazias. Algumas padarias abertas, poucos ônibus. A via principal vivia a estranha calmaria de seu domingo. Baruta vivia seu silêncio dominical. Os barutenhos e eu resolvemos voltar para casa.

Quando abri a porta da pensão, o Sr. Pedro, dono da residência, estava junto a todos ao redor da mesa:

- Olha, Diego, isso que aconteceu hoje, foi com amigos meus. Eu conheço essas pessoas - e olhando para todos - La niña era muito bonita. Eu a carreguei no colo, uma gorducha encantadora. Tinha como seis anos.

Algum tempo depois decidi voltar à rua. Fazia noite, mas por volta de trinta pessoas e quatro carros de polícia ainda se mantinham à porta do edifício.

Já havia passado quase três horas do incêndio quando avistei a primeira e única equipe de jornalistas. Era a equipe da RCTV, a emissora de televisão a quem Chávez prometeu não renovar a licença de transmissão. Foi a última correria do dia.

Me coloquei atrás do cinegrafista, mas não consegui escutar as últimas declarações do policial metropolitano. Quando a luz da câmera se apagou, vociferou um homem com três crianças agarradas às suas calças:

- O senhor não falou sobre a construção ilegal que estão fazendo na cobertura desse prédio aqui - e apontou para o edifício que fica ao lado do incendiado.

- Mas essa informação não está confirmada - defendeu-se o policial.

- Como o senhor sabe disso? - perguntou o repórter ao desconhecido.

- Porque eu vivo nesse prédio.

- O senhor não quer declarar isso?

E, balançando a cabeça, o homem saiu. No mesmo instante começou a gritar para a câmera outro vizinho, que trazia uma criança no colo:

- Essas coisas precisam ser ditas... dizem que tudo é culpa do Chávez, é fácil dizer que é culpa do Chávez, mas as pessoas não se dão conta, não fazem nada, não são conscientes - enquanto o homem falava, rasteiramente o cinegrafista liga a câmera e começa a filmar o topo do edifício, gravando a declaração do indivíduo - há muitas coisas irregulares acontecendo, essa construção na cobertura é ilegal, não tem permissão da prefeitura de Baruta...

- O senhor quer declarar? - pergunta o cinegrafista.

- Sim, claro... com a criança no colo!!

- Não, não, com a criança não pode.

- Sim...

- Não, com ela não pode.

E contou a história.

O prédio de La niña tem dois andares, mais uma cobertura. O edifício ao lado tem dois andares mais altos e uma cobertura - em construção ilegal. Por volta das cinco da tarde, enquanto La niña dormia, soldavam parte do teto de metal da cobertura. Uma faísca então caiu em seu colchão ou em sua cortina. Os pais estavam no andar de baixo e não se deram conta. O fogo tomou rapidamente o colchão e as cortinas. A menina se asfixiou. A fumaça negra corroeu o quarto e o andar. Ninguém conseguiu entrar. La niña morreu carbonizada.

...

- Eles cobrem tudo pra ninguém perceber. Mas não podem sair construindo assim . Até parecem que querem chegar ao céu?! - comentava-me uma senhora que também ouvia o vizinho.

- Sim, parece.


IV

Minutos depois, a equipe de "Los Tigres" vencia uma histórica partida contra "Magallanes", fechando a série em 4 a 1 e conquistando a cobiçada taça da temporada 2006/2007 do beisebol venezuelano. Isso eu só pude perceber por não mais de três fogos de artifícios, que me chegaram timidamente de muito longe. A rua estava calada, criminosamente calada.

Antes de me deitar, fui ao quarto de Oscar:

- Muchacho, eu acho que nós fomos os primeiros a perceber o incêndio.

- Eu creio que sim...

E voltei para o meu quarto, na cama, deitado, a pensar como morrera La niña. Calada? Já estava morta quando se queimou? Teria gritado? De desespero, de dor... Ou dormia enquanto se dissipava em fumaça branca? Por que não gritamos, não corremos pra rua? Por que demoraram tanto os bombeiros? Esqueceram de avisar? Esquecemos de avisar? E quem são eles, os que constróem coberturas que chegam ao céu? Quem fará justiça? E de que forma será feita? Penso... e temo, em meu quarto, a menos de 50 metros da cama de La niña.

A madrugada silenciou tudo. Diferente das minhas outras doze noites em Baruta, não houve bêbados, conversas, nem garrafas quebradas. Não houve carros, motocicletas, nem alarmes disparados. Não houve maracas, celulares, nem cantos religiosos.A madrugada silenciou tudo. Foi um silêncio puro.

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