segunda-feira, 30 de abril de 2007

A revolução é midiática (I)

Dez dias sem escrever uma linha sequer sobre Venezuela criam dúvidas demais na cabeça. A cada dia a revolução se intensifica, e acompanhá-la só não é quase impossível porque é impossível. Mas, enfim, foram nesses dias que eu comecei a entender a revolução bolivariana. Bolivariana?

Este mês de abril marca o início de marchas que vão culminar no final do próximo mês, precisamente no dia 27 de maio, quando o governo vai fechar a RCTV. Mas alguns podem dizer que há um mal entendido aqui: não é fechar, mas exercer de forma soberana o libre direito de não renovar a concessão. A revolução é justamente isso: impor uma versão da verdade.

Foi-se o tempo em que a sociedade civil venezuelana discutia propostas para o país. Talvez isso tenha acabado em 1999, quando a elaboração da Constituição bolivariana criou um momento mágico de união e concordância no país. Hoje, o povo (el pueblo, a todo instante mencionado por Chávez) e a maioria dos movimentos sociais aceitam tudo o que diz a mão do governo. Organizam-se em Consejos Comunales, participam das missões (muitas delas exitosas), em marchas... e desgostam/gostam do etanol, assim, dependendo do momento.

Criticar...? O que é crítica mesmo? Tudo é lindo, meu bem, nesse país... ou melhor, tudo está ficando lindo... temos muito é que trabalhar (o máximo de crítica).

Do outro lado está a oposição com voz, essa que detém o apoio dos meios de comunicação restantes. Desesperados, porque não sabem o que fazer sendo oposição, porque nunca foram oposição, porque o jogo sempre foi a seu favor, e mais desesperados ainda, porque a situação de hoje é verde-oliva com boina vermelha, e quer passar a mão em tudo.

Desesperados, essa oposição apresenta apenas uma estratégia: sair de Chávez. Além de lutar também pela permanência da RCTV.

Discutir o país? O que é discutir um país e elaborar propostas e soluções? O que faz essa oposição é brigar com o governo, contra essa mão grande.

A diferença dessa oposição é o fato de possuir voz.

E assim se monta o palco da revolução, onde ocorre a guerrilha de ambas as partes, onde se ouvem os tiros. O sangue está principalmente nos pixels que chega a mais de 90% das casas venezuelanas.

Quem gritar mais alto ganha.

E quem não gritar não é escutado. Ou melhor, nem existe. Nem vai existir.


(Texto publicado em 23/04/07)

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