segunda-feira, 30 de abril de 2007

O nascimento do partido único (ou unido) venezuelano

É como se diz: o teatro estava "rojo rojito". Tudo vermelho. Os 2398 propulsores, que iam ser juramentados pelo comandante, todos vermelhos. Na parte de frente da camiseta, "Propulsores". Atrás , "Patria, Socialismo o Muerte". Nem Bolívar faltou, cuja imagem ressoava aqui e ali, em algumas faixas na parede.

Às 19h40 do último sábado, o presidente e comandante venezuelano Hugo Chávez começou seu discurso no teatro Teresa Carreño, em Bellas Artes, Caracas. Era o primeiro evento dos propulsores do PUS, como recordam alguns, ou PSUV, como habilmente trocou o comandante. Para evitar o trocadilho inevitável, Chávez fez do PUS venezuelano (Partido Único de Venezuela) o PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela). Fez é modo dizer, porque ainda não existe. O evento de sábado serviu justamente para liberar os 2398 propulsores, de toda parte da Venezuela, que caminharão o país para formar a base do partido, e assim convocar o congresso fundacional, previsto para agosto deste ano.

O comandante não estava ali como presidente, como admitiu nas 2 horas e 54 minutos em que falou (havia, sim, um papel na tribuna em que estava, mas ele mal olhava. Estava reservado para o final). O comandante estava ali como comandante. "Disse Bolívar uma vez: se estás em dúvida, ouça o povo. O povo sabe o que fazer. E o povo quer unidade, porque disso depende o seu futuro. Uma unidade que tem de ser orgânica, profunda, democrática. Que acentue a democracia". Chávez clamava pela unidade. Era a unidade, essa palavra, a única palavra que talvez justificasse. "¡La unidad! ¡La unidad! ¡La unidad!" Assim, várias vezes.

Unidade essa com a qual pretende abolir a autonomia das organizações civis: "Nasceram muitos sindicatos esses anos, todos com o mesmo veneno: a autonomía (dos partidos políticos). Faz tempo que não me reúno com os trabalhadores (a palavra é obrero, no sentido "Lula dos anos 70/80"). Onde estão eles? Estão todos dividos, brigados. Precisamos de unidade. União neste caminho. União para a classe de trabalhores! Unidade! Unidade! Unidade! É imprescindível."

"É a união que necessitamos. Falta-nos somente a união para completarmos a obra de nossa regeneração". E citava e citava Simón Bolívar, assim, lendo.

Seguia o comandante, ali, diante dos soldados, os primeiros soldados da batalha. Que este seja um partido capaz de se diluir na massa, dizia. Disse. Que não se imponha ao povo, mas que se subordine a ele. Que surja muitas liderança na massa. "Nosso exército para a guerra!". "E se eu cometer algum erro, que me expulsem do partido... e logicamente do governo". É verdade, disse isso, e dessa maneira, às 22:03.

O comandante é um homem que não comete muitos equívocos. Não digo erros. Sem julgar o que faz, quero dizer que o comandante não se permite passos falsos. Ele sabe o que vai dizer, como vai dizer, ele vai produzir a reação, ele conduz toda a cena. Mas o comandante muitas vezes não sabe quem é aquele que ouve, o outro, que também pensa, faz e diz algo. Os que estão ao redor do presidente cometem, muitas vezes, passos falsos. O espetáculo não é ensaiado. E isso sempre aparece quando é o presidente quem fala. Digo, comandante.

Foi assim que aconteceu, no final de janeiro, em um de seus programas Aló, Presidente. Conversando com uma garota da platéia, que desde novembro fazia um curso técnico sobre psicultura, Chávez perguntou-lhe o que já havia aprendido sobre a técnica de criar peixes. "Presidente, ainda não chegamos nessa parte". "Em dois meses não viram nada sobre o assunto?" "Estamos aprendendo alguns conceitos sobre socialismo. Justamente amanhã vamos começar a estudar psicultura".

No último sábado o espetáculo também seguiu algumas linhas tortas. "Vocês, propulsores, sabem que no dia 19 de abril já existirão cerca de 16500 outros propulsores, e criados pelas suas mãos?". Não, foi o que disse um coro alto. "Não sabem?! Jorge, é importante que saibam." Dizia o comandante ao vice-presidente da República e ex-presidente do Conselho Nacional Eleitoral. "Precisam ter um folheto explicando tudo. Vocês têm um folheto? Não. Precisam ter." E Jorge consentía com a cabeça.

Em 19 de abril serão 16500 propulsores. Um mês depois serão 70 mil, "do melhor que tenha a revolução", assegurou o comandante. Estes terão três meses para formar os batalhões socialistas dos círculos socialistas e para fazer o levantamento de eleitores e eleitoras, que no futuro militarão para o partido.

A previsão é que em 15 de agosto se realize o congresso fundacional do partido, a partir do qual serão discutidos o estatuto, os programas, estratégias, a cor, o nome e inclusive a ideologia. "Em 2 de dezembro convocaremos milhões de militantes para a consulta em que ratificaremos ou não o partido. Este é o esquema. Vocês levam a responsabilidade de impulsioná-lo, para que o partido nasça forte e sólido para impulsionar a revolução".

E então, às 22h32, Chávez pegou o seu papel e pediu que os 2398 ficassem em pé e levantassem o braço para o juramento. "Eu levanto o braço esquerdo porque sou canhoto", disse o comandante. Muitos destros ali fizeram o mesmo.

E juraram por Deus, pela honra, pela pátria, e diante do povo, que formarão os batalhões e os círculos socialistas, para impulsar a assembléia e o congresso fundacional do partido.

"Do grande partido socialista, bolivariano, revolucionário e indo-americano..."

Coro: "ÊÊÊ!!!"

"Até à vitória..."

Coro: "Sempre!!!"

"Pátria, Socialismo..."

Coro: "... o morte!!!"

"Viva a revolução. Viva o povo!!!"

Era 22:34 do último sábado.


(Texto publicado em 29/03/07)

Nenhum comentário: