segunda-feira, 30 de abril de 2007

Caracas II - "Pátria, socialismo ou morte"

Chego a Caracas uma semana depois do presidente Hugo Chávez tomar posse para seu terceiro mandato, quando jurou, diante da Venezuela, da América Latina e do mundo todo, por "Pátria, socialismo ou morte", repetindo o que dissera o comandante cubano, Fidel Castro, anos antes. Chego a Caracas com o anúncio do Socialismo do século XXI, com a promessa do presidente de transformar a Venezuela numa comunidade socialista. Chávez estivera na imprensa internacional durante uma semana inteira.

O que eu sabia sobre a Venezuela então: uma emissora de tv, de oposição ao governo (RCTV), não terá a licença prorrogada para manter sua faixa no espectro magnético; o dito valor do dólar no mercado negro; a anunciada nacionalização de uma empresa de telefonia (Cantv) e de outras empresas de telecomunicações; a promessa de que os funcionários repartirão os lucros das empresas; o petróleo; que Caracas é uma cidade muito perigosa; que as mulheres venezuelanas são lindas.

Ah, claro, a polarização. "Você sabe que na Venezuela ou você ama ou você odeia o Chávez". Diziam-me. "Venezuela? Você vai para lá?... Bem, é só não se envolver com o Chávez".

- Do ponto de vista político, você é esquerda ou direita? - perguntara-me António.
- Politicamente, eu sou mais à esquerda - defensivamente, respondi.

Defensivamente. Porque não sabia se, como ou o que deveria responder. Defensivamente não porque não sabia o que responder. Mas por receio, diria. Ou medo mesmo: da reação, do que poderia ser retrucado, ou feito, por não saber como se fecham ou se abrem as portas. E eu mal pisara na Venezuela. A sola do meu sapato só conhecia o carpete daquele Honda Civic prateado.

Saí do Brasil com algumas idéias na cabeça.

Simpatizo com Chávez e Evo, por exemplo. Há um retrato de uma injustiça generalizada, uma distribuição de renda desequilibrada, serviços públicos precários, um mal-estar social desesperado e dissipado, uma exploração e um alijamento secular. O que um governo precisa fazer num país com muitos miseráveis?... Dar espaço, fazer espaço. Por isso Chávez e Evo me parecem bons, porque ao menos gritam contra toda uma injustiça histórica.

Só não me perguntem se eu tenho certeza. A obrigação é não se apaixonar. Ou melhor, não se ludibriar, porque o que Chávez e Evo têm contra eles, são eles mesmos - ou nós: o custo América Latina, o legado América Latina - ou o do ser humano. Os interesses, os fins justificando meios, as ditaduras, a plata, a grana, o petróleo - e é muito petróleo.

Saio do Brasil e chego à Venezuela com bom impressão. Inclinado, gauche, vermelho. O que vejo na imprensa e o que ouço de alguém que conhece que conhece que conhece alguém são, sempre, reclames de uma classe média insatisfeita, de empresários, de profissionais liberais, de patrões, de donos da comunicação, de governantes e políticos de oposição. Não me recordo de nenhum levante popular. Mas quem hoje na Venezuela mobilizaria um levante de massa? Os estudantes? Os sindicatos? Os partidos políticos? Ou a classe média, empresários, profissionais liberais, patrões, donos da comunicação, governantes e políticos que apóiam o governo?

Saio do Brasil e chego à Venezuela com bons olhos. Mas sei que fede - em algum lugar fede - e quero saber onde fede.

(Texto publicado em 08/02/07)

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