terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Chávez minimiza revés eleitoral e afirma que a revolução bolivariana continua

Por ora, ainda não

Chávez buscará outros caminhos para projeto socialista

Chávez minimiza revés eleitoral e afirma que a revolução bolivariana continua

Diego Junqueira, de Caracas


No país de 26 milhões de pessoas, menos de 200 mil votos travaram o projeto de governo do presidente Hugo Chávez. Ao menos por enquanto, pois, apesar da histórica derrota eleitoral, a primeira em seus nove anos de governo, o presidente venezuelano já avisou que vai continuar impulsionando o “socialismo do século XXI”.

“Não vejo isso como uma derrota. 49% das pessoas votaram a favor do projeto socialista. Isso é um grande passo político. Para mim, é o mesmo cenário de fevereiro de 92 (quando Chávez liderou um fracassado Golpe de Estado). E vou repetir o que disse naquela época: ´Ainda não. Por ora´”, disse o mandatário venezuelano na madrugada de ontem, quando discursou em cadeia nacional de rádio e TV para reconhecer a derrota nas urnas.

“Não mudo uma vírgula do que está na reforma. A proposta ainda é feita à sociedade. Vamos continuar a revolução dentro do que permite esta constituição”, afirmou Chávez, tendo em mãos a Constituição vigente, sua conquista política em 1999, e cujo texto permanece intacto após o resultado das eleições.

Para o ex-ministro da Defesa, general Raúl Isaías Baduel – que iniciou o ano defendendo o “socialismo do século XXI”, mas o terminou rejeitando a reforma constitucional – o presidente Chávez ainda tem a intenção de institucionalizar o texto rejeitado no domingo.

“Alerta, venezuelanos. O presidente quis impor um projeto que não é do povo, mas dele mesmo. E pode ser que nos imponha por outro caminho, por meio de leis habilitantes”, afirmou Baduel. Em fevereiro deste ano, a Assembléia Nacional venezuelana aprovou a Lei Habilitante, que ampliou os poderes de Chávez para legislar por 18 meses. Foi essa lei que permitiu ao presidente propor a reforma constitucional.


Clima natalino

O alerta de Baduel foi o único que destoou do clima de reconciliação pregonizado pelos líderes da oposição. “Não se trata de Bush ou de Fidel Castro. Não se trata de Morales ou de Uribe. Trata-se dos venezuelanos. Temos de acabar com essa divisão, e o presidente pode liderar esse processo”, disse Leopoldo López, prefeito de Chacao, um dos cinco municípios de Caracas.

O governador do estado Zulia, Manuel Rosales – adversário derrotado por Chávez nas eleições de 2006 – afirmou que o resultado do referendo cria condições para a paz e a harmonia. “Propomos desde já que se aprovem, ainda este ano, duas leis que estavam previstas na reforma: a lei de fundo social para os trabalhadores independentes e a lei de redução da jornada de trabalho”, disse euforicamente o governador zuliano.

Em seu discurso desde Miraflores, Chávez pediu à oposição que reconhecesse o valor das instituições venezuelanas. “Aqui não há nenhum ditador. Vivemos em uma democracia. E o caminho é esse, senhores da oposição. Não procurem mais o caminho da desestabilização”, afirmou Chávez. “Aos que votaram ´Sí´, aos que votaram ´No´, aos que não votaram, todos somos o povo. Vamos respeitar nossas diferenças”, completou o presidente.


Quem ri por último...

Como os resultados de boca-de-urna divulgados fora do país indicavam a vitória do “Sí”, alguns partidários do presidente Chávez saíram às ruas para comemorar a suposta vitória no referendo. Em frente ao Palácio Miraflores, sede do governo, um multidão começou a se reunir desde o início da noite de domingo. E pelas ruas da capital circulavam diversos motoqueiros com suas bandanas e camisas vermelhas e as consígnas do chavismo. “Uh, ah, Chávez no se va”.

Após a divulgação do resultado oficial, à 1h15 (hora local), uma festa com outras cores irrompeu-se em Caracas. Concentradas nas regiões mais ricas da cidade, como Las Mercedes e Altamira, muitos partidários do “No” foram às ruas para, enfim, comemorar uma derrota do presidente, depois de nove anos. Enquanto alguns diziam que a Venezuela já não queria nada com Chávez, outros eram mais diplomáticos e avisavam que o alvo caído tinha sido o referendo.

Para o principal dirigente estudantil, Yon Goicochea, que se encontrava na Plaza Francia, em Altamira, “a vitória do ´No´ é uma vitória de todos os venezuelanos, para construirmos uma nova pátria.”

“Felicito aos que ganharam. Podem festejar, mas respeitem aqueles que votaram pelo ´Sí´. E saibam administrar essa vitória”, disse o presidente Chávez minutos antes.

Na manhã de ontem, a capital do país estava calma, com poucas pessoas nas ruas. Na região de Baruta, em Caracas, enquanto uma membro do partido oposicionista Um Novo Tempo pintava uma parede com a frase “Sim à Venezuela”, ouvia-se, de longe, um tímido protesto: “Viva Chávez...”

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