quarta-feira, 2 de maio de 2007

A revolução é midiática (II)





11 de abril de 2007, quarta-feira:

Enquanto as emissoras de TV preparavam seus programas especiais sobre os eventos de abril de 2002 (com destaque para o documentário da Globovisión), o ministério de comunicação e informação entrou em cadeia nacional de rádio e televisão. Era por volta das 20 horas quando Chávez começou o seu discurso, de dentro de Miraflores, em sue gabinete de trabalho. A primeira imagem trazia o comandante e uma imagem de Jesus Cristo, pregado na Cruz e na parede do palácio. Chávez então começou a mostrar todos os quadros que estavam por ali, os libertadores da pátria (atrás de sua mesa de trabalho o quadro traz a imagem de Simón Bolívar), e falou de portas, das muitas portas que havia ali, e de como foi que saíram antigos presidentes da Venezuela, desde antigos ditadores, expulsos pelo povo ou por golpes de estado.

Depois se sentou, houve uma conversa fora do palácio com alguns ministros-personagens de abril de 2002, e só então o comandante começou a falar para a sua platéia de ministros, governadores, prefeitos... como se fosse o Aló, Presidente de domingo.

Isso seguiu até às onze e meia da noite, aproximadamente.

A Globovisión voltou ao ar com o seu telejornal noturno. As chamadas surgiram assim:
- Enquanto o presidente Chávez discursava, você não pode ver o espetacular home run do venezuelano Fulano de Tal, há poucos instantes, na Grande Liga norte-americana de beisebol. Você também não pode ver... Você também não pode ver... E você também não pode ver o nosso especial sobre abril de 2002. Mas isso você assiste agora!

E acabou o telejornal e começou o documentário (que seria repetido, pelo que presenciei, umas 6 vezes até o final da semana).






13 de abril de 2007, sexta-feira:

Todo 11 tem seu 13.

Com este pensamento (amplamente difundido pela publicidade estatal) o governo convocou para 13 de abril uma concentração em Miraflores, para celebrar os cinco anos em que o povo trouxe seu comandante de volta ao poder.

Depois do horário de almoço, o metrô de Caracas levantou as catracas. Ninguém pagou para usar o metrô naquelas horas, até o fim do expediente, às onze da noite. O caminho para a estação Capitólio estava repleta de rojo-rojitos, com seus bonés e o “Todo 11 tem seu 13”. Aqueles que não tiveram tempo para ganhar uma camisa levavam outras, mais velhas, de outras concentrações, com um rojo-rojito aguado.

Estação por estação, muitos dos "manifestantes" que entravam acabavam de sair do trabalho. Os cartões das empresas ainda estavam pendurados no pescoço. As fitas mostravam: Metrô, Fontur, Pdvsa... todas empresas do governo. Já na região de Miraflores, outras credenciais, camisetas e bonés indicavam a procedência da maioria dos “manifestantes”: Unefa, Pequiven, Seniat, Hospital Cardiológico Infantil... Muitos admitem que são obrigados a participar das convocações. Mas todos têm os seus truques. Saem juntos do trabalho, ficam um tempo juntos na concentração, tiram uma foto com o chefe e, sem que ninguém perceba, dão no pé.

A praça Bolívar era uma festa. Ônibus de turismo estacionados nas redondezas trouxeram muitos "manifestantes” de outras cidades: Valencia, Maracaibo, Barquisimeto... Ali, flashes e mais flashes, fotos, para muitos, felizes da vida, que pela primeira vez vinham a Caracas, ou a Miraflores ou à praça Bolívar, com a enorme escultura de seu libertador, de 4 ou 5 metros de altura, montado num cavalo.

Naquela mesma semana havia se realizado em Caracas o Congresso Mundial de Mulheres. E elas, participantes do congresso, também estavam ali. Marcharam até Miraflores carregando a bandeira de seus países. Foi onde conheci algumas brasileiras, que encabeçavam aquela pequena marcha com uma bandeira do Brasil. Algumas do MLST de SP e PE, outras de organizações de mulheres. As do MLST souberam que iam pra Caracas uma semana antes do Congresso de Mulheres. Algumas brasileiras afirmam que foi tudo pago pelo governo venezuelano. Outras são mais diplomáticas, e dizem que as despesas são assumidas por todos os governos. Hospedagem: Hilton Caracas (diária mais baixa: 135 dólares) e Gran Meliá (195 dólares). As mulheres assistiram ao discurso de Chávez de dentro de Miraflores, sentadas, muito próximas ao presidente.

O comandante chegou por volta das cinco da tarde, entoando o hino nacional, cantado por todos ali, e talvez por outros mais, em distintos lugares do país, já que uma vez mais foi convocada a transmissão em cadeia nacional. E assim seguiram às quatro horas seguintes.




Foto: Luis Laya/Ministerio del Poder Popular para la Comunicación y la Información

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