Emissora golpista clama por liberdade de expressão para evitar retaliação política do governo
A RCTV é uma emissora golpista. E quem pode negar?
O que lhes parece quando uma emissora atenta ao Estado de direito, motivando a população a sair às ruas não para fazer pressão social, o que seria totalmente justificado, mas, sim, para promover uma marcha em direção ao palácio do governo, em direção a uma sabida concentração opositora (em prol do governo, então), com os dizeres na tela: "Nem um passo atrás!!!". Nem um passo atrás o quê? Qualquer gota de responsabilidade sugeriria dizer: "Marcha opositora protesta contra o governo". Ou, se quisessem manipular um pouco a coisa, poderiam dizer: "Povo venezuelano pede a renúncia de Chávez". Não, eles resolveram incitar, promover a desordem, pisotear a legitimidade de um presidente eleito e conclamar o povo para uma batalha, que horas mais tarde contaria com 19 mortos (em ambos lados). Ok, não quer reconhecer o governo, te parece que é o mais corrupto de todos, que a população vive pior, que as missões do atual governo para nada sirvem. Ok, pense o que quiser, mas é inconstitucional abusar de um poder midiático concedido pelo Estado para provocar um estado de desordem. Quer defender seus interesses por saídas inconstitucionais, então escreva um jornal clandestino, conspire, siga para a guerrilha, alie-se aos militares (aliás, isso eles fizeram). Há muitos caminhos ilegais quando se quer levar adiante anseios ilegais.
Todos esse fatos se referem aos breves dias do Golpe de Abril de 2002, quando a oposição venezuelana tomou o Palácio de Miraflores, rasgou a constituição e empossou um novo presidente, Pedro Carmona (Ah, que coincidência, o presidente da Fedecamarás, organização dos empresários venezuelanos).
Essas evidências bastariam para acusar ao canal 2, RCTV. Assim mesmo, a lista é muito grande, como mensagens subliminares em filmes transmitidos pela emissora. A RCTV chegou a insertar um frame de uma propaganda política (ou melhor, uma incitação pública) que convocava à greve geral do final de 2002.
Além disso, há uma série de razões que apontam à péssima programação da emissora, com desenhos infantis bestializantes, séries e novelas que retratam apenas o "lado silicone" da Venezuela - se é que me entendem - propagando preconceitos de classe, cor, credo, gênero...
No entanto,
No entanto,
No entanto,
a não renovação da concessão à RCTV é um caso de retaliação política. E quem pode negar?
E mesmo sem utilizar a palavra "liberdade" é possível explicar.
Em Abril de 2002, durante todos acontecimentos descritos acima, RCTV não atuou sozinha. Outros quatros canais privados de transmissão aberta também atuaram de acordo com o cronograma da oposição. Além de RCTV, Globovisión, Televen e Venevisión. Com essas evidências, por que o tratamento especial à RCTV? Vão passar a mão na cabeça dos outros? E se RCTV infringiu gravemente à constituição, por que esperaram o fim da concessão em vez de optar pela via judicial?
Vale lembrar que, das quatro emissoras, Televen e Venevisión já estão mansinhas, pró governo. Mas, o que acontecerá com Globovisión?
Uma informação que ainda não pude confirmar: a concessão da Venevisión, que também vencia este ano, foi renovada por apenas um ano mais. Por que renovou pra uma e pra outra não, se há argumentos que as comprometem por igual (ou quase igual)? Começaram a bailar conforme...? Vale dizer também que o proprietário de Venevisión é, como diz um amigo, "dono de meia venezuela": o empresário Gustavo Cisneros. Um homem assim precisa agir com cautela.
A grande confusão no caso RCTV é que os argumentos pesam demais nos dois lados da balança. Enquanto no mundo se difunde a "boca fechada", o atentado à liberdade de expressão e a posterior derrocada da democracia venezuela, internamente, o país, o governo, os movimentos sociais, os consejos comunales, e o restante dos 60% de venezuelanos que votaram por Chávez em dezembro, todos (ou melhor, a parcela ativa e participativa deles) discute o acesso à comunicação como a via legítima para a liberdade de expressão. E quem tem a razão? Um canal golpista e bélico ou um governo centralizador e bélico?
E o que é liberdade de expressão? Cada um dizer o que pensa, ou cada um ter a oportunidade para dizer o que pensa?
É claro que as duas opções não são excludentes. Mas, na Venezuela de hoje, ninguém se senta para discutir isso.
quinta-feira, 24 de maio de 2007
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